Por que a romantização de um passado doméstico desperta tanto interesse?

Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

O dia começa cedo para Hannah Neeleman. Antes de a família acordar, ela coloca a massa de pão no forno sueco de US$ 20 mil. Em seguida, escolhe uma das garrafas de kefir que os filhos fizeram na véspera, corta maçãs enquanto segura um bebê e prepara o café da manhã com ovos do próprio galinheiro.

Seus 20 milhões de seguidores, somados entre Instagram e TikTok, acompanham várias mãozinhas pegando os sanduíches. Depois da refeição matinal, vai à academia, encontra uma galinha na varanda, admira cavalos galopando diante de casa, o cachorro deitado na grama e o gato correndo para ela.

A influenciadora é mórmon, tem 35 anos e compartilha cenas de uma vida rural bucólica e da educação domiciliar dos nove filhos nas redes (@ballerinafarm), além de vender alimentos produzidos na fazenda, suplementos de proteína e kits de fermentação natural.

Hannah foi bailarina, estudou na escola de artes Juilliard, em Nova York, e lá conheceu o marido Daniel Neeleman, herdeiro da companhia aérea JetBlue. Há nove anos, se mudaram para uma propriedade de mais de 130 hectares (1,3 km2) no interior de Utah (EUA), avaliada em cerca de R$ 35 milhões.

Ela é o retrato lapidado de uma tradwife (“esposa tradicional”, na gíria em inglês), uma categoria que pode ser definida mais ou menos como “uma cristã sem defeitos.[…] A mãe que toda mulher deseja ser e a esposa que todo homem queria encontrar em casa ao fim de um dia”.

A descrição de Natalie Heller Mills, protagonista do romance Bons tempos: Yesteryear, da jornalista americana Caro Claire Burke, extrapolou o plano da ficção e virou um estilo de vida reproduzido e desejado mundo afora.

Não por acaso, a personagem é mãe de sete crianças e influenciadora digital em uma fazenda nos rincões dos EUA. Até que em uma manhã mais gelada que o habitual, acorda no ano de 1855.

A sátira aborda os bastidores da criação de conteúdo, a exposição de crianças, os privilégios detrás das câmeras, a romantização do passado, as expectativas de gênero e as disputas e consensos entre mulheres conservadoras e progressistas.

Além disso, há o entretenimento de acompanhar uma mulher que prega o retorno ao “bons tempos” lidando com as agruras reais do século 19. O livro está na lista dos mais vendidos do The New York Times há mais de 20 semanas — com mais de 1,4 milhões de cópias comercializadas —, desde abril de 2026, e teve seus direitos comprados para o cinema por Anne Hathaway.

Hannah é um dos maiores nomes do movimento de mulheres que exibem cenas de seu cotidiano online promovendo valores religiosos conservadores, a manutenção de papéis heteronormativos e o retorno à pureza de uma vida doméstica aparentemente simples (mesmo que elas dirijam, tenham suas próprias contas nas redes sociais e monetizem a exposição da família). Mas ela não foi a primeira.

Alena Kate Pettitt, criadora do blog The Darling Academy, foi uma das pioneiras a ensinar etiqueta, tarefas domésticas e como ser uma esposa tradicional.

Em suas postagens, diz que quer mimar seu marido como se estivesse em 1950: “Retornamos ao que funciona. Ele lidera. Eu sigo. Ele provê e protege. Eu nutro e crio. Equilíbrio e paz surgiram. A vida de repente fez sentido, e sim, submissão é força”.

Depois dela, Nara Smith, Estee Williams, Jasmine Dinis, Abby Roth e outras também ganharam milhões de seguidores, seja dando dicas culinárias e de maternidade seja defendendo a subserviência aos maridos. Apesar de o termo tradwife ser rejeitado por algumas, o neologismo foi incluído no Dicionário Cambridge em 2025.

Os comentários nas publicações das tradwives do momento variam entre “eu também gostaria que minha única preocupação fosse assar um bolo” e “o que você vai fazer se o casamento acabar?”.

Em um estudo da escola de negócios do King’s College London, com mil mulheres entre 18 e 34 anos, mostrou que a estética calma e relaxante é o motivo que faz 79% das entrevistadas consumir esse tipo de conteúdo — o estilo de vida despreocupado, as roupas e a decoração vintage também atraem a audiência.

Para a pesquisadora em gênero e moda Thais Farage, o interesse nessa estética é resultado de um período de incertezas com o futuro e de uma sobrecarga generalizada.

“O centro da discussão é que todas as mulheres estão exaustas. As conservadoras olham para as progressistas e veem que elas estão tentando fazer tudo e estão cansadas. Então, elas pensam: ‘Como é que elas não estão vendo que não funciona? O feminismo deu errado. Não dá para trabalharmos. Vou voltar para o que já deu certo: homens cuidando das finanças e mulheres do trabalho doméstico”, descreve.

Farage explica que o cenário é ainda mais sedutor diante de ameaças como, por exemplo, a de que a inteligência artificial vai roubar nossos empregos. “Momentos instáveis tendem a promover uma guinada conservadora. É uma busca por segurança”, comenta.

A nostalgia cottagecore — de uma vida simples e despojada — e as saias rodadas também compõem o cenário da domesticidade, que entra em conflito com o espaço profissional conquistado pelas mulheres.