Foi em resultado da crescente popularidade que Alexandria Ocasio-Cortez e Rashida Tlaib asseguraram, nas eleições intercalares de 2018, os primeiros lugares da DSA na Câmara dos Representantes
1 Os Democratic Socialists of America
Regressemos a Alexandria Ocasio-Cortez. Na mesma entrevista em que desvaloriza o wokismo como tendo sido uma maluquice, AOC deixa no ar a hipótese de concorrer à Presidência norte-americana. Mas por que razão uma figura tão pouco presidenciável (basta revê-la aqui ou aqui) é considerada uma candidata democrata viável? A resposta relaciona-se com os Democratic Socialists of America (daqui em diante, DSA), uma fação do partido democrata que tem registado um crescimento exponencial nos últimos anos.
A DSA resultou da fusão, em 1982, de dois grupos criados no contexto revolucionário da década de 1970: o Democratic Socialist Organizing Committee (DSOC) e o New American Movement (NAM). O primeiro grupo vinha de uma dissidência da “Old Left” (o velho partido socialista de Debs) e representava uma longa tradição de sindicalismo; o segundo resultava diretamente da SDS (Students for a Democratic Society) e representava, por isso, a “New Left”, com uma agenda que ia dos direitos reprodutivos à reconceptualização das relações entre raça, género e classe.
A DSA combina, assim, as preocupações económicas e laborais da Old Left com as questões identitárias da New Left, mas não deve confundir-se com aquilo que, na Europa, chamamos social-democracia: a sua plataforma é explicitamente anticapitalista e as suas medidas visam, a longo prazo, construir uma sociedade verdadeiramente socialista (comunista, diríamos por cá).
Atendendo à história dos Estados Unidos, este podia parecer um projeto despropositado, mas a verdade é que a DSA, depois de ter praticamente mantido os 6 mil membros iniciais ao longo de três décadas, obteve um crescimento explosivo na última década: a 4 de julho deste ano comunicou ter ultrapassado os 120.000 membros, o que a tornou a maior organização socialista da história norte-americana.
2 De Bernie Sanders a Zohran Mamdani
Um momento importante para o crescimento desta organização foi a crise económica de 2007/8 e o subsequente movimento Occupy, que permitiram aos socialistas democráticos posicionarem-se contra as políticas, adotadas pelo Presidente Barack Obama, de resgatar o setor bancário e financeiro. O contraste com Obama tem ajudado, aliás, a clarificar a identidade da DSA: embora o ex-Presidente tenha sido sempre acusado pelos republicanos de ser “socialista” (o que impulsionou o Movimento Tea Party), as suas políticas nunca tiveram o apoio da DSA:
Mas o que conduziu ao seu crescimento explosivo na última década foi a candidatura de Bernie Sanders, em 2016. Embora Sanders não seja um membro efetivo da DSA, os socialistas envolveram-se ativamente na sua campanha e têm-se comprometido, desde então, a promover a “revolução política” do candidato de acordo com uma ideia que parece cada vez mais popular nos Estados Unidos:
“O capitalismo é um sistema concebido pela classe proprietária para explorar o resto da população em benefício próprio. Temos de o substituir pelo socialismo democrático, um sistema em que as pessoas comuns têm uma voz efetiva nos nossos locais de trabalho, nos bairros e na sociedade.” (www.dsausa.org)
Foi em resultado desta crescente popularidade que Alexandria Ocasio-Cortez e Rashida Tlaib asseguraram, nas eleições intercalares de 2018, os primeiros lugares da DSA na Câmara dos Representantes. Os seus membros continuaram a crescer até ao pico woke de 2021 e, após um período de abrandamento durante o mandato de Biden, aumentaram novamente com a vitória de Donald Trump e a eleição de Zohran Mamdani como mayor de Nova Iorque.
O ano de 2026 adivinhava-se, assim, de grande importância e a DSA apostou muito nas eleições intercalares de novembro. Para já, o balanço é positivo: das 191 candidaturas nacionais apoiadas pela DAS até ao momento, 66 já garantiram vitória, algumas de grande importância como Angie Nixon ou Claire Valdez. (Apesar de aparecer muitas vezes associado à DSA e de ser apoiado por membros da organização, o vencedor das primárias no Michigan, o polémico Abdul El-Sayed, não é um membro da DSA.)
São, contudo, vitórias que têm sido recebidas com amargura dentro do partido democrata.
3 A plataforma política
Como acontece, por regra, no sistema norte-americano, a DSA não tem um líder (nem sequer é um partido). O seu órgão mais importante é o Comité Político Nacional, que foi eleito na convenção de Chicago para o biénio 2025-2027, com um comité de membros escolhido para redigir o programa político para este período: “Workers deserve more!”. O tipo de letra e o recurso a desenhos denunciam, desde logo, o público-alvo (lá iremos) e as mensagens centrais revelam a dupla vertente que identificamos inicialmente, resultado da combinação entre Old Left e New Left.
Por um lado, temos os aspetos económicos e sociais que associamos a uma organização socialista, como a redução da carga horária semanal, serviços universais de saúde e habitação para todos – mas também as seguintes medidas:
“estabelecer a propriedade pública das maiores empresas e dos setores essenciais a fim de garantir o controlo democrático e a prestação pública de contas; e aprovar impostos agressivos sobre as pessoas e as empresas mais ricas para financiar bens públicos e infraestruturas.”
Por outro lado, encontramos as propostas habituais da agenda identitária, como acabar com o legado da escravatura e do colonialismo, promover a libertação queer e parar com a violência “de género”, incluindo as restrições patriarcais [sic] ao aborto – mas também:
“desmilitarizar os corpos policiais, retirar poder aos sindicatos da polícia e redirecionar o financiamento para os serviços públicos como passos no sentido da abolição total da polícia e do sistema prisional, que protege os ricos e prende os pobres.” (itálico meu)
Afinal, ideias woke como o “defunding the police” não foram apenas uma maluquice passageira. Pelo contrário, o programa torna-se ainda mais radical:
“Retirar o financiamento ao Departamento da Guerra, pôr fim a todas as guerras no estrangeiro e encerrar as bases militares no estrangeiro.”




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