Abraham Newman, da Universidade Georgetown, avalia que tarifas se tornaram instrumento para fazer pressão política e beneficiar aliados

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19.jul.2026 às 23h00

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As tarifas adotadas por Donald Trump deixaram de ser um instrumento para reequilibrar o comércio internacional e passaram a funcionar como uma ferramenta de pressão política. A avaliação é do cientista político Abraham Newman, professor da Universidade Georgetown, para quem o governo americano utiliza a política comercial para enfraquecer adversários, beneficiar aliados e ampliar sua capacidade de impor exigências a outros países.

Em entrevista à Folha, Newman diz que o Brasil exemplifica essa mudança de lógica. Apesar de os Estados Unidos registrarem superávit comercial na relação bilateral, o país se tornou um dos principais alvos das tarifas por motivos que vão além da economia.

O pesquisador afirma que a aproximação entre Trump e a família Bolsonaro ajuda a explicar parte dessa estratégia, embora avalie que ela possa acabar fortalecendo politicamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Para ele, Trump não busca negociar um novo equilíbrio nas relações comerciais. "O objetivo não é redefinir a relação. O objetivo é criar um sistema de dominação", diz. Para ele, a sucessão de ameaças tarifárias funciona como um mecanismo permanente para obter concessões de governos estrangeiros.

Newman, que falou com a reportagem após o novo tarifaço de 25% contra o Brasil, diz que agora é o momento de o governo atuar para ajudar setores e, no longo prazo, olhar para outras potências comerciais em busca da promoção de "um sistema de comércio baseado em regras previsíveis de interação, fundamentado não na coerção, mas na prosperidade coletiva".

Como o senhor avalia o impacto geral da política tarifária do governo Trump até agora? Essas tarifas não têm realmente a ver com manufatura. Existem narrativas dizendo que esse é o objetivo, mas, na verdade, elas estão relacionadas a objetivos políticos.

Seja para arrecadar dinheiro para compensar os cortes de impostos, atingir adversários políticos ou extrair recursos em benefício de aliados próximos de Trump, há uma série de impactos envolvidos. Mas não se trata de reequilibrar o déficit comercial como um todo.

O Brasil é um caso perfeito. Os Estados Unidos têm superávit comercial com o Brasil. Portanto, não faz muito sentido mirar o Brasil ao mesmo tempo em que se elevam tarifas contra a China, por exemplo.

O governo Trump demonstrou disposição para recorrer repetidamente às tarifas como instrumento de política pública. Governos e empresas ao redor do mundo já devem partir do princípio de que as tarifas vieram para ficar, pelo menos durante o governo Trump? Os Estados Unidos não querem mais subsidiar um sistema global de comércio para o resto do mundo. E isso não é apenas um fenômeno do Trump. Quando o governo Biden estava no poder, manteve muitas das tarifas impostas pelo primeiro governo Trump. Também aplicou medidas contra a China e criou uma série de controles de exportação sobre semicondutores.

A ordem multilateral de comércio aberto que existia anteriormente, eu não acho que exista muito apoio político para ela, nem entre democratas nem entre republicanos. E acredito que os próprios americanos, em geral, perderam a confiança na OMC (Organização Mundial do Comércio) e na ideia de que deveria haver simplesmente livre-comércio.

A diferença é que o atual governo Trump utiliza essas ferramentas para aquilo que eu chamaria de interesses políticos paroquiais. Ou seja, para enfraquecer adversários políticos e extrair benefícios para pessoas próximas ao governo. O governo Biden estava realmente tentando conter a China. Isso é algo bastante diferente.

O Brasil se tornou um dos principais alvos das tarifas americanas. Depois dessa tarifa de 25%, passamos a ser o segundo país com as maiores taxas, atrás apenas da China. Por que o senhor acha que o Brasil se tornou o novo foco? E por que agora? Acho que parte disso se deve ao fato de que o governo está procurando novas maneiras de restabelecer tarifas. Em parte porque precisa dessa arrecadação para lidar com as pressões orçamentárias criadas pelos próprios cortes de impostos.

Então veremos uma série de novas tarifas sendo implementadas nos próximos meses com base nessas novas investigações da Seção 301.

Mas acho que o Brasil é um alvo principalmente porque o governo está usando essas ferramentas não apenas para reequilibrar fluxos comerciais, mas para atingir ou apoiar aliados políticos. Nesse caso, a família Bolsonaro foi muito ativa ao tentar convencer o governo americano —especialmente Trump— a pressionar o governo brasileiro.