Pioneiro na criação de uma lei estadual, em 2018, que passou a exigir a apresentação da carteira de vacinação atualizada para matrícula e rematrícula de estudantes das redes pública e privada, o Paraná inspirou outros estados a seguirem o mesmo caminho. As experiências mostram, porém, que legislações sozinhas não garantem melhores coberturas vacinais. Leia mais (06/21/2026 - 04h00)

benefício do assinante

Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

benefício do assinante

Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

Salvar para ler depois

Recurso exclusivo para assinantes

assine ou faça login

Pioneiro na criação de uma lei estadual, em 2018, que passou a exigir a apresentação da carteira de vacinação atualizada para matrícula e rematrícula de estudantes das redes pública e privada, o Paraná inspirou outros estados a seguirem o mesmo caminho. As experiências mostram, porém, que legislações sozinhas não garantem melhores coberturas vacinais.

Ao menos 16 estados possuem legislações ou diretrizes relacionadas à exigência da atualização vacinal no ambiente escolar. Em geral, a falta de vacinação não impede a matrícula ou a rematrícula, mas, nesses casos, o Conselho Tutelar e/ou o Ministério Público devem ser acionados.

Transformar a escola em uma aliada da imunização busca enfrentar uma barreira conhecida pelas equipes de saúde: crianças mais velhas e, principalmente, adolescentes estão menos presentes nas salas de vacina. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar de 2024 mostram que pouco mais de 50% dos adolescentes tinham tido contato com algum serviço de saúde nos 12 meses anteriores ao estudo.

Mas colocar a estratégia em prática exige mais do que normas. "Mesmo tendo uma lei pioneira no país, houve muitas resistências. A parceria entre a Secretaria de Estado da Saúde e a Secretaria de Estado da Educação foi fundamental para superar esses obstáculos", conta Virginia Dobrowski dos Santos, coordenadora estadual de imunização da Secretaria da Saúde do Paraná.

A experiência foi uma das premiadas em uma mostra realizada pelo Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde) na semana passada em Brasília.

Segundo Virginia, a construção dessa parceria exigiu diálogo constante para mostrar que a vacinação também é responsabilidade da comunidade escolar. "Não foi fácil chegar até aqui. Tivemos professores dizendo que não era competência deles trabalhar a questão da vacinação."

Outro desafio é a autorização das famílias para a aplicação das doses no ambiente escolar. No Paraná, a vacinação depende de autorização escrita dos responsáveis, e algumas famílias ainda demonstram receio em relação a eventos adversos.

Para aumentar a confiança, alguns municípios passaram a permitir que pais acompanhem a vacinação nas escolas, especialmente de crianças menores, além de investir em comunicação positiva sobre os benefícios das vacinas.

Um desafio adicional é aprimorar o registro das doses aplicadas. O Paraná ainda enfrenta dificuldades porque parte dos municípios utiliza sistemas próprios de informação, o que pode atrasar ou dificultar a consolidação dos dados estaduais.

Para Ana Catarina de Mello Araújo, coordenadora-geral de Incorporação Científica e Imunizações do PNI (Programa Nacional de Imunizações), esse desafio não é exclusivo do Paraná. Segundo ela, a vacinação nas escolas sempre existiu no país, mas durante muito tempo não era identificada pelos sistemas oficiais.

A partir de 2024, o sistema de informação do Ministério da Saúde passou a registrar se a dose foi aplicada em rotina, em intensificação ou dentro do ambiente escolar. A mudança permitiu dimensionar uma prática que antes ficava invisível.

Segundo Ana Catarina, em 2025 mais de 4.000 municípios brasileiros registraram ações de vacinação nas escolas —o equivalente a mais de 80% dos municípios do país. "Agora temos um dado palpável de uma estratégia que sempre vinha sendo feita, mas que a gente não conseguia visualizar." Para ela, a escola é especialmente importante para alcançar adolescentes.

No Paraná, o principal impacto apareceu justamente nessa faixa etária. A vacinação escolar contribuiu para ampliar a cobertura contra HPV e meningite, imunizantes historicamente mais difíceis de alcançar entre adolescentes. "Na adolescência, muitas vezes o jovem não procura mais a sala de vacina. Então precisamos fazer o resgate dessa população", explica Virginia.

Em 2024, o Paraná alcançou as melhores coberturas vacinais da década, incluindo a maior cobertura contra HPV entre os estados brasileiros. Em 2025, atingiu a meta do Ministério da Saúde para meninos e meninas, com 91,5% e 98,9%, respectivamente.