Os quatro donos da inteligência artificial concordam em ir devagar, desde que o concorrente vá primeiro. Essa conversa tem oitenta anos

Aconteceu uma coisa estranha no fim de semana. Quatro dos homens mais poderosos de uma sigla pediram pra ir mais devagar.

Não, não é o STF. É a inteligência artificial, e o pedido veio de quem menos se esperava: os donos dela.

Dario Amodei, CEO da Anthropic, a empresa que criou o Claude, publicou  esse texto  pedindo que a indústria desacelere o desenvolvimento dos modelos mais avançados.

Sam Altman, da OpenAI, concordou.  Demis Hassabis, cofundador do DeepMind, o laboratório de IA do Google, também.

E, por um milagre, Elon Musk concordou com alguém que não é ele mesmo. Vale lembrar que em 2023 ele  assinou uma carta pedindo uma pausa de seis meses na IA e, quatro meses depois,  abriu a própria empresa de IA. Mas concordou.

Quando os caras que estão construindo a tecnologia olham pra própria criação e dizem "é... vamos com calma", talvez a gente já tenha passado do ponto.

O detalhe é que nenhum deles quer frear sozinho. Se a OpenAI desacelera, o Google ganha. Se o Google desacelera, a Anthropic ganha. E se os Estados Unidos inteiros resolvem ir devagar, bom, aí quem ganha nem fala inglês.

Então chegamos a um consenso raro: todo mundo concorda que precisa pisar no freio. Desde que o outro pise primeiro.

Bastaria a OpenAI confiar no Google, o Google confiar na Anthropic, a Anthropic confiar no Elon Musk e os Estados Unidos confiarem na China. Enfim, tá fácil. Tá mais fácil o Alexandre de Moraes e o André Mendonça dividirem um Uber.

O pior é que já tentaram algo parecido, e não faz tanto tempo assim.

Em 1946, os Estados Unidos eram os únicos donos da bomba atômica, o que dava uma certa vantagem na negociação, certo? Pois eles propuseram colocar a energia nuclear sob controle internacional. Uma autoridade mundial cuidaria de tudo, com fiscalização em todos os países. E quando esse sistema estivesse funcionando, aí sim os americanos destruiriam suas bombas.

A União Soviética respondeu, basicamente: destruam as bombas primeiro, depois a gente conversa.

Ninguém confiou em ninguém. O plano morreu na ONU e começou a corrida nuclear, que sustentou a Guerra Fria por quatro décadas e até hoje deixa alguns milhares de ogivas apontadas pra algum lugar enquanto você ronca.

A humanidade criou uma máquina capaz de mudar completamente o nosso futuro. Os próprios criadores admitem que ela pode sair do controle. E o maior obstáculo pra controlar essa máquina não é a máquina. É a gente. É aquela frase que se repete há pelo menos oitenta anos, no bar e na ONU:

"Vai indo na frente que eu já vou."