Episódio sanguinário em 1976 é considerado o último grande crime da ditadura
As camadas de história encobertas em construções, ruínas e paisagens, por Vicente Vilardaga
Link externo, abre perfil de no Facebook
Link externo, abre página da no Twitter
Link externo, abre página da no Instagram
Recurso exclusivo para assinantes
assine ou faça login
benefício do assinante
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
benefício do assinante
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.
Salvar para ler depois
Recurso exclusivo para assinantes
assine ou faça login
23.jul.2026 às 17h11
O número 767 da rua Pio 11, na Lapa, é, hoje, o endereço de um sobrado de tijolos aparentes que abriga consultórios médicos e passa despercebido. Não se imagina que o lugar, onde antes havia uma casa térrea com um alpendre e um portal em forma de ogiva, foi palco de um banho de sangue.
Ali, há quase 50 anos, no dia 16 de dezembro de 1976, aconteceu um dos atos mais cruéis da ditadura em São Paulo. São considerados os últimos assassinatos cometidos pelo regime militar, posteriores aos de Vladimir Herzog e de Manoel Fiel Filho.
A chacina da Lapa, como ficou conhecida, foi cometida por militares do DOI-Codi do 2o Exército e por policiais do Dops, sob comando do tenente-coronel Rufino Ferreira Neves e com a presença do famigerado delegado Sérgio Paranhos Fleury. Teve como alvo membros do comitê central do PCdoB (Partido Comunista do Brasil), que acabaram mortos ou presos e torturados.
Os órgãos de repressão já vigiavam a casa sabendo que naqueles dias haveria uma reunião com parte da cúpula do partido, então clandestino, para fazer uma avaliação crítica sobre erros cometidos na condução da guerrilha do Araguaia e discutir uma nova orientação estratégica.
Nove integrantes do comitê participaram do encontro, embora houvesse mais dois militantes no local, o motorista Joaquim Celso de Lima e a encarregada de tarefas domésticas Maria Trindade. A reunião transcorreu nos dias 14 e 15 e, ao seu fim, já noite, os participantes foram deixando o endereço em duplas para entrar em um Corcel azul dirigido por Lima e poderem voltar aos seus esconderijos.
Nesse momento é deflagrada a operação repressiva. Sem levantar suspeitas, a polícia segue o carro em cada uma de suas viagens e espera seus ocupantes desembarcarem para capturá-los longe dos olhos do motorista, que volta para a casa desprevenido para fazer mais um transporte. Dessa forma, sucessivamente, foram presos João Batista Franco Drummond, Wladimir Pomar, Haroldo Lima, Aldo Arantes, o próprio Joaquim Celso de Lima e Elza Monnerat.
No começo da manhã do dia 16, a casa foi invadida por todos os lados pelos agentes do governo e restavam no local, além de Maria, os líderes Ângelo Arroyo, sobrevivente da guerrilha, e Pedro Pomar, fundador do partido e ex-deputado federal cassado. A mulher foi poupada, mas os dois homens foram metralhados sem oferecer resistência. Tudo aconteceu muito rápido.
Segundo conta Pedro Estevam da Rocha Pomar, neto de um dos mortos, no livro "Massacre na Lapa - Como o Exército Liquidou o Comitê Central do PCdoB" (Editora Fundação Perseu Abramo), participaram da chacina cerca de 50 policiais e soldados e a rua Pio 11 foi bloqueada para o tráfego.
A operação deixou outra vítima fatal, Franco Drummond, morto sob tortura na sede do DOI-Codi, na rua Tutoia, no Paraíso. A versão oficial sobre seu óbito, posteriormente desmentida, dizia que ele tinha sido vítima de um atropelamento ao fugir de uma perseguição nas imediações da avenida 9 de Julho.
Todos os outros militantes, com exceção de José Gomes Novaes, que conseguiu escapar, e Manoel Jover Telles, mais tarde identificado como traidor, foram levados para a prisão e brutalmente torturados. Um inquérito interno do PCdoB apurou que Telles informou o Exército sobre os dias e o local da reunião.
Em seu livro, Pomar conta que ele havia sido capturado e preso alguns meses antes no Rio de Janeiro e decidiu negociar e colaborar com os órgãos de repressão.



0 Comentário(s)
Deixe seu comentário