País reduziu homicídios em quase 99%, mas milhares foram presos injustamente e centenas morreram nas prisões

Doutora em ciência da informação, mestra em educação e jornalista. Autora de "Quando me Descobri Negra"

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30.ago.2026 às 15h56

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"Quem não deve não teme", todo mundo já ouviu. "Quem andava direito aqui no Brasil durante o regime militar não tinha problema". Conhecemos bem a retórica de quem defende o autoritarismo e a violação de direitos. Mesmo sendo tentador, não vou perguntar se quem fala isso continuaria com a mesma posição caso seu filho, filha ou irmão fosse levado para a cadeia por pichar um muro. Ou sem motivo. Melhor falarmos apenas sobre o Estado.

Uma das justificativas do Estado moderno é que abrimos mão de exercer a violência individualmente e entregamos a ele o poder de nos proteger. Mas quem nos protege da violência do próprio Estado?

El Salvador registrou 103 homicídios para cada 100 mil habitantes em 2015, uma das maiores taxas do mundo. Segundo o governo de Nayib Bukele, em 2025, 82 pessoas foram assassinadas em todo o país. Nesse número não estão as mortes provocadas pela polícia, mortes violentas dentro das prisões e corpos encontrados em valas clandestinas.

As denúncias de organizações de direitos humanos falam em mais de 500 mortes nas prisões de quem estava sob responsabilidade do Estado, muitas antes de serem julgadas culpadas ou inocentes. Desaparecimentos e prisões arbitrárias são tratadas como efeito colateral da atuação do Estado contra o crime organizado.

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Foi rápido e tem sido extremamente violento. Em março de 2022, depois de uma onda de assassinatos, o governo decretou regime de exceção. Foram suspensas garantias constitucionais, ampliados os poderes policiais e os prazos de detenção, e restringido o acesso dos presos à defesa. A emergência deveria durar 30 dias. Em agosto de 2026, a Assembleia Legislativa aprovou sua 54ª prorrogação consecutiva.

Mais de 92 mil pessoas foram presas desde o início da operação contra as facções. El Salvador passou a ter a maior taxa de encarceramento do mundo. Em cada 100 mil habitantes, 1.659 estão presos. Em cada 60 pessoas, uma está atrás das grades.

O governo afirma que cerca de 9.000 detidos foram libertados depois que investigações concluíram que não tinham vínculos com organizações criminosas. Confiemos no número e pensemos na vida dessas pessoas inocentes que foram afastadas da família, do trabalho e sofreram a violência do cárcere e depois consideradas inocentes.

A reportagem da BBC conta a história de José Alfredo Vega González, pescador de camarões preso em 2022. A mãe dele, Marta Elena González, passou três anos sem ver o filho quando, em abril de 2025, descobriu em uma publicação no Facebook que ele estava morto.

O medo de quem vivia sob domínio das facções foi substituído pelo medo de ser alvo de um Estado sem limites.