Emissão de títulos em yuan não substitui papéis em dólar ou euro, mas amplia opções
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Hsia Hua Sheng Professor da FGV (Fundação Getulio Vargas) e especialista em finanças corporativas internacionais
O crescimento das emissões de panda bonds por governos soberanos em 2026 representa uma importante transformação na arquitetura financeira internacional. Países como Brasil, Cazaquistão, Paquistão, Hungria e Eslovênia passaram a acessar diretamente o mercado doméstico chinês, diversificando suas fontes de financiamento com yuan (chamado popularmente de renminbi) e reduzindo a dependência exclusiva dos mercados tradicionais de Nova York e da Europa.
Esse movimento não significa substituir as emissões em dólar ou euro, mas ampliar as alternativas de financiamento em um cenário internacional cada vez mais multipolar.
O diferencial dos panda bonds não está apenas na diversificação da dívida pública. Qualquer emissão soberana em dólar, euro ou outra moeda pode financiar infraestrutura, reduzir custos de financiamento ou apoiar programas de desenvolvimento. O que torna o mercado de capitais em yuan diferente é sua capacidade de aproximar o financiamento da economia real, na qual as cadeias de suprimentos de ambos os países podem ser conectadas de forma eficiente.
Esse diferencial torna-se mais evidente em setores estratégicos para a cooperação entre Brasil e China, como infraestrutura, transição energética, minerais críticos, mobilidade elétrica e manufatura avançada. Esses segmentos concentram investimentos bilaterais, comércio crescente e elevada complementaridade econômica.
À medida que o financiamento em yuan se expande, cria-se maior alinhamento entre investidores, instituições financeiras, fornecedores e empresas dos dois países, reduzindo custos de transação, simplificando operações financeiras e tornando os investimentos de longo prazo mais eficientes.
Um exemplo é o desenvolvimento da cadeia brasileira de minerais críticos e baterias para veículos elétricos. O Brasil possui abundância de recursos naturais e potencial para ampliar o processamento industrial, enquanto a China concentra capacidades relevantes em equipamentos, tecnologia, manufatura e financiamento.
Em um projeto financiado em dólar, a aquisição de equipamentos chineses normalmente exige múltiplas conversões entre dólar, real e yuan, além de operações adicionais de proteção cambial.
Quando parte do financiamento é estruturada em yuan, moeda que tem volatilidade cambial menor do que a do dólar, torna-se possível alinhar melhor os fluxos financeiros com a cadeia produtiva, reduzindo custos operacionais e financeiros e aumentando a eficiência econômica para todos os participantes.
O benefício, portanto, não decorre apenas da moeda utilizada, mas da maior integração entre financiamento, comércio, investimento e produção.
Essa lógica também se aplica à política de desenvolvimento brasileira. Mesmo quando os recursos captados por meio de panda bonds são utilizados para refinanciar parte da dívida pública, eles podem gerar valor econômico ao reduzir o custo médio de financiamento do Tesouro, maior resiliência contra potenciais crises financeiras global e ampliar sua estabilidade. Uma estrutura de financiamento mais eficiente fortalece a gestão fiscal e cria melhores condições para ampliar investimentos públicos e privados em áreas estratégicas para o crescimento econômico.
O programa Eco Invest Brasil também ilustra esse potencial. Seu objetivo é utilizar instrumentos financeiros públicos para mobilizar investimentos privados em infraestrutura sustentável, transição energética, inovação tecnológica e modernização industrial.
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Nesse contexto, uma emissão de panda bonds pode aumentar a alavancagem financeira do setor privado e ampliar a capacidade de financiamento de projetos em transmissão de energia, hidrogênio de baixo carbono, minerais críticos, logística ferroviária e digitalização industrial.


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