Debate sobre a Selic não se resume ao quadro fiscal e diz respeito a poder, desenvolvimento e distribuição de renda

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22.ago.2026 às 23h00

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José Dirceu Ex-ministro-chefe da Casa Civil (2003-05, governo Lula)

[RESUMO] Autor sustenta que não é possível reduzir a explicação do patamar dos juros do Brasil, como faz uma vertente liberal, ao crescimento do gasto primário. A concentração bancária, a dívida pública fortemente sensível à Selic e uma economia em que a taxa básica remunera aplicações em condições extremamente vantajosas, desestimulando o investimento produtivo, também devem ser levadas em consideração.

O debate sobre a formação da taxa de juros no Brasil voltou ao centro da discussão econômica —se é que saiu um dia, como não poderia deixar de ser em um país que convive há décadas com juros reais entre os mais elevados do mundo, crescimento insuficiente, baixa taxa de investimento e uma permanente transferência de renda para os detentores da riqueza financeira.

Essa é mais que uma controvérsia de economistas ou uma disputa entre modelos teóricos. Trata-se de uma questão decisiva para o futuro do país: por que o Brasil paga juros tão altos e o que precisamos fazer para financiar o nosso desenvolvimento?

Em diferentes momentos e espaços, eu e economistas temos debatido o tema com Samuel Pessôa, pesquisador cuja contribuição ao debate público merece respeito e atenção. Ele sustenta que houve diferentes etapas na formação dos juros brasileiros.

Primeiro, os juros incorporavam o risco de desvalorização do câmbio fixo; depois, já sob o câmbio flutuante, refletiam a nossa fragilidade externa, a escassez de reservas e o elevado risco-país. A partir de meados dos anos 2000, com a acumulação de reservas e a redução da vulnerabilidade externa, o equilíbrio entre oferta e demanda no mercado interno teria se tornado o principal determinante da taxa real de juros.

A sua conclusão é que, quando o gasto primário cresce acima da economia, aumenta a disputa pelos recursos disponíveis e se eleva o juro de equilíbrio; se o gasto crescer durante alguns anos no mesmo ritmo do PIB, os juros reais poderão convergir para patamares próximos de 3%.

A tese merece um bom debate. A minha divergência com ele, como a de outros economistas, está em atribuir ao crescimento do gasto primário um papel predominante na explicação da excepcionalidade brasileira, reduzindo a segundo plano a arquitetura da política monetária, a estrutura da dívida pública, a concentração bancária, a formação das expectativas, os mecanismos de indexação, o comportamento do Banco Central e o peso assumido pelo rentismo no Brasil.

O país conviveu durante anos com superávits primários, acumulou centenas de bilhões de dólares em reservas, reduziu a sua dívida externa, fortaleceu a sua posição internacional e diminuiu drasticamente o risco de uma crise cambial sem que os juros reais convergissem para os níveis praticados em países comparáveis. Essa permanência deveria nos obrigar a olhar além do gasto público.

Se a vulnerabilidade externa foi reduzida e se houve longos períodos de resultados primários positivos, por que continuamos remunerando o capital financeiro a taxas tão superiores ao crescimento da economia?

Também é necessário distinguir o crescimento do gasto público do seu impacto macroeconômico efetivo. O aumento da despesa em uma economia próxima do pleno emprego pode pressionar preços, mas os seus efeitos são diferentes quando há desemprego, capacidade produtiva ociosa, baixo investimento e carência de infraestrutura.

O gasto público em saúde, educação, ciência, inovação, habitação, saneamento e infraestrutura não pode ser tratado apenas como consumo de recursos escassos. Ele também amplia a produtividade, cria demanda, induz investimentos privados e eleva a arrecadação e a capacidade futura de crescimento do país.

Da mesma forma, precisamos partir de um diagnóstico correto sobre a formação da inflação e discutir a própria meta de 3% ao ano, fixada em um patamar irrealista para a estrutura da economia brasileira e perseguida como se fosse um dogma.

Sobre nossa inflação, pesam decisivamente os preços dos alimentos e da energia elétrica, as variações cambiais, os preços administrados, os choques climáticos, os gargalos produtivos, a dependência de insumos importados, a indexação e o poder de mercado de setores oligopolizados. O IPCA incorpora integralmente alimentos e energia, componentes essenciais no orçamento das famílias, mas também altamente sujeitos a safras, secas, conflitos internacionais, petróleo, câmbio e outras variações sobre as quais a Selic não tem controle.