Brasil teve papel maior do que costuma aparecer no debate doméstico na limitação de danos da guerra no Irã

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23.jul.2026 às 16h35

Marcello Estevão Economista-chefe e diretor gerente do Institute of International Finance e professor da Universidade Georgetown

Quando os petroleiros voltaram a atravessar o estreito de Hormuz em maior número, o preço do petróleo recuou como se a crise estivesse a caminho de uma solução rápida.

Os mercados enxergaram novamente os barris saindo do golfo e projetaram esse movimento para o futuro, mas a passagem de navios por alguns dias está longe de representar a normalização de uma cadeia que depende de terminais, oleodutos, seguradoras, tripulações e rotas marítimas operando de maneira previsível.

A distinção entre reabertura e normalização ajuda a entender por que o petróleo pode continuar caro e volátil mesmo depois de uma trégua. Instalações danificadas levam tempo para ser reparadas, estoques precisam ser recompostos e os custos dos seguros permanecem elevados enquanto armadores e empresas de energia considerarem plausível uma nova interrupção.

Em junho, segundo a AIE (Agência Internacional de Energia), a oferta mundial recuperou cerca de 4 milhões de barris por dia, mas ainda estava mais de 9 milhões abaixo do nível anterior à guerra. Os fluxos do golfo reagiram mais rapidamente do que a produção, em parte porque petróleo armazenado em terra e no mar foi colocado em circulação.

Essa diferença revela a característica central da crise. A limitação mais perigosa já não está apenas na quantidade de petróleo que pode ser extraída, mas na capacidade de transportá-lo com segurança, regularidade e custo aceitável.

Hormuz concentra uma parcela extraordinária das exportações do golfo, enquanto o mar Vermelho e o estreito de Bab al-Mandab formam uma segunda área de vulnerabilidade. Um ataque breve, uma inspeção mais demorada ou uma decisão cautelosa das seguradoras pode reduzir a oferta efetivamente disponível sem que um único poço seja fechado.

Até agora, a economia mundial contou com vários amortecedores. Governos liberaram reservas estratégicas, refinarias chinesas consumiram estoques acumulados anteriormente, volumes armazenados em navios chegaram ao mercado e a demanda asiática caiu com a redução da atividade, o encarecimento dos combustíveis e as dificuldades de abastecimento.

Esses mecanismos impediram que a perda de produção no golfo se traduzisse integralmente em preços mais altos, embora tenham deixado estoques governamentais e comerciais muito menores. Apenas em junho, a China retirou cerca de 41 milhões de barris de suas reservas de petróleo bruto.

A expansão da produção nas Américas completou essa defesa improvisada, e o Brasil teve um papel maior do que costuma aparecer no debate doméstico.

A AIE calculou que as exportações da bacia do Atlântico aumentaram 3,5 milhões de barris por dia desde fevereiro, com avanços importantes nos Estados Unidos, no Brasil, no Canadá e em outros produtores.

A agência também elevou em mais de 600 mil barris diários sua projeção para o crescimento da oferta das Américas em 2026, levando o total esperado a 1,5 milhão. Parte crescente desses carregamentos seguiu para a Ásia, substituindo barris que deixaram de sair normalmente do Oriente Médio.

Os números brasileiros explicam essa contribuição. A produção de petróleo alcançou 4,3 milhões de barris por dia em maio, quase 17% acima do volume registrado um ano antes. O pré-sal respondeu por cerca de quatro quintos da produção nacional de petróleo e gás, impulsionado por grandes plataformas capazes de operar em escala comparável à de países tradicionalmente associados à geopolítica da energia.

A produção brasileira já havia superado 4 milhões de barris diários em alguns meses de 2025, e a entrada de novas unidades em Búzios e em outros campos vinha ampliando a oferta antes mesmo da crise.