Vitória da seleção contra o Japão pode ser descrita como uma vitória no melhor estilo corintiano

É doutor em Sociologia pela The New School, de Nova York, e professor da Fundação Getulio Vargas em São Paulo. Corintiano, escreve sobre futebol, cultura e política em forma de resenha e samba

Recurso exclusivo para assinantes

assine ou faça login

benefício do assinante

Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.

benefício do assinante

Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.

Salvar para ler depois

Recurso exclusivo para assinantes

assine ou faça login

Márcio Macêdo Sim, de virada é mais gostoso. Mas também é mais sofrido. A vitória da seleção brasileira nesta segunda-feira (29) contra o Japão pode ser descrita como uma vitória no melhor estilo corintiano: sofrida e na raça. O Japão saiu na frente com um gol que nasceu de um erro de nosso meio-campo. Por outro lado, a seleção demonstrou maturidade ao reagir ao gol sofrido e buscou o empate, que veio numa cabeçada de Casemiro. Gabriel Martinelli foi o responsável por fazer o gol que deu a vitória ao Brasil aos 50 minutos do segundo tempo, nos livrando por pouco de uma prorrogação. Mas a bola do jogo, que todo mundo esperava que entrasse, foi a da jogada individual de Vinicius Junior, que foi defendida pelo goleiro japonês, Zion Suzuki. Seria um golaço.

Vinicius Junior é o cara. Joga bem, de forma alegre, e chama o time e a torcida para a partida. Em minha opinião, o atacante do Real Madrid é a melhor inspiração para o time brasileiro.

A escritora afro-americana Toni Morrison escreveu em seu livro de ensaios "A Fonte da Autoestima" que o racismo é uma forma de distração que impede as pessoas negras de fazerem as coisas que realmente importam. O pensamento de Morrison, autora que ganhou o Nobel de Literatura em 1993, me veio à mente ao lembrar das situações de racismo que Vinicius Junior tem vivido em sua carreira como jogador na Espanha.

Voltar Compartilhe Ícone Facebook Facebook Ícone Whatsapp Whatsapp Ícone X X Ícone de messenger Messenger Ícone Linkedin Linkedin Ícone de envelope E-mail Ícone de linkCadeado representando um link Copiar link Ícone fechar

Em uma partida do Real Madrid contra o Valência no estádio de Mestalla, em 2023, o atacante negro foi chamado de "macaco" (mono) por grande parte do estádio. O jogo chegou a ser paralisado e, após confusão nos acréscimos, Vinicius Junior foi expulso injustamente.

Ainda em 2023, um boneco vestido com sua camisa e simulando um enforcamento foi exibido em uma partida contra o Atlético de Madri com uma faixa que levava a frase "Madrid odeia o Real".

Em oito anos de atuação pelo Real Madrid, o jogador brasileiro já denunciou 20 casos de racismo ocorridos contra ele. Esse é o tipo de violência que jogadores e técnicos negros vivenciam de forma sistêmica no futebol desde que o mundo é mundo.

Para conferir, basta ler o clássico escrito pelo jornalista Mário Filho em 1947, "O Negro no Futebol Brasileiro". A obra descreve o processo de popularização e inserção de jogadores negros no futebol em uma época em que tinham que usar pó de arroz para clarear o rosto e poder participar de um esporte de elite nas primeiras décadas do século20.

É por isso que considero Vinicius Junior o cara. Se considerarmos a sugestão da escritora Toni Morrison, de que o racismo é uma espécie de distração ou barulho que, através de vários tipos de violência (física, psicológica e simbólica), impede que a população negra obtenha a excelência no que faz, a resposta de Vinicius Junior às ofensas racistas que sofreu é a alegria com que joga futebol.

Uma alegria que lembra música, amor e celebração coletiva, que ocorreram nos bares, lares e reuniões de amigos que se reuniram nesta segunda-feira para ver a vitória do Brasil contra os samurais do futebol.