Quem aborta no Brasil real não é a caricatura da jovem inconsequente criada pelo moralismo de gente como o deputado
Jornalista e roteirista
Recurso exclusivo para assinantes
assine ou faça login
benefício do assinante
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
benefício do assinante
Assinantes podem liberar 7 acessos por dia para conteúdos da Folha.
Salvar para ler depois
Recurso exclusivo para assinantes
assine ou faça login
25.ago.2026 às 15h00
Edição Impressa Diminuir fonte
"É um bando de menina que foi influenciada por feministas para poder ter sexo desregrado. Quando tem um filho, quer abortar." O diagnóstico é do deputado Nikolas Ferreira (PL), que, confrontado pelo jornalista sobre a base factual da sua declaração, resumiu sua erudição. "Pode olhar aí, ué."
Pois vamos olhar. Se o deputado se desse ao trabalho de consultar qualquer pesquisa pública antes de espalhar misoginia nas redes —sim, isso é misoginia—, saberia que o Brasil real passa longe de seus delírios.
Quem aborta no Brasil real não é a caricatura da jovem inconsequente inventada pelo moralismo de gente como Nikolas. A Pesquisa Nacional do Aborto (PNA) e os dados do Ministério da Saúde desmontam o discurso. A mulher típica que interrompe a gestação já é mãe (67%), trabalha, vive uma união estável e não planejou aquela gravidez. Mais de 70% são cristãs, entre católicas e evangélicas.
A decisão nunca é fruto de "doutrinação" feminista e sim do cálculo desesperado e silencioso de mães que avaliam a sobrevivência dos filhos que já criam. O que o feminismo defende é que essas mulheres não sejam levadas à clandestinidade como se fossem criminosas.
No país de verdade, 77% dos estupros são de vulneráveis e 6 em cada 10 vítimas têm menos de 13 anos. Ao contrário da alucinação do deputado, elas não abortam em massa: a grande maioria das crianças entre 10 e 14 anos leva a gestação até o fim, submetidas à maternidade compulsória pela via-sacra moralista e pela escassez de hospitais que cumprem a lei.
No Brasil, o aborto caiu de 15% para 10% entre 2010 e 2021. O que reduz o procedimento é educação sexual, informação e acesso a métodos contraceptivos —não a sanha punitiva. Mas o debate nacional segue sequestrado pelo pânico moral da extrema direita e pela covardia do campo progressista, que foge do assunto como o diabo da cruz para não se queimar com o eleitorado.
Enquanto uns lucram politicamente com a mentira e outros silenciam por cálculo eleitoral, mulheres e crianças seguem abandonadas à própria sorte.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
benefício do assinante
Você tem 7 acessos por dia para dar de presente. Qualquer pessoa que não é assinante poderá ler.
benefício do assinante


0 Comentário(s)
Deixe seu comentário