Uma mesma ilusão de banda podre, na verdade, desprezo de escrúpulos justificados, matéria-prima do pior

Sociólogo, professor emérito da UFRJ, autor, entre outras obras, de “Pensar Nagô” e “Fascismo da Cor”

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Do instante da assinatura do Ato Institucional-5 (que passou a legislar por conta própria em 1968, consolidando o golpe militar), ficou marcada na memória social a frase do coronel Jarbas Passarinho: "Às favas os escrúpulos". Meio século depois, essa peça de amoralidade foi incorporada pelo Congresso, ampliando o escopo dos escrúpulos na direção de algo como "às favas o Brasil".

A distância temporal não é significativa. Esses enunciados encontram um ponto de convergência em escusas declarações de "princípios" sopradas pela classe dominante aos sucessivos blocos dirigentes. Princípios do vale-tudo na manutenção e usufruto do poder. Violenta, a frase do coronel transfigurou a duração do ato num instante eterno, isto é, a falta de escrúpulos como uma negativa vontade de poder, destinada a soldar passado e futuro.

Essa morte moral deu passe livre às perseguições, cassações, torturas e assassinatos que recrudesceram com o AI-5. Mas persistiu na reabertura liberal-democrática sob forma de uma infecção da classe política, cuja banda podre foi cultivada pelo regime ditatorial. O raquitismo moral, a sabujice, a degenerescência de caráter dessas lideranças produziram um magno aviltamento coletivo, outro nome para corrupção como prática societária.

O inferno chama pelo inferno. Na memória, como se fosse hoje: logo após anunciado o AI-5, um dos donos de uma empresa editorial carioca entrou na redação aos gritos exultantes de "não mais teremos de pagar indenização aos demitidos". Meio século depois, pequenos empresários confessavam o voto em Bolsonaro por essa mesma expectativa. Uma mesma ilusão de banda podre, na verdade, desprezo de escrúpulos justificados, matéria-prima do pior.

Esse "mesmo" perdurável dá margem à hipótese de que o ponto convergente entre o espírito da frase do coronel e a posterioridade cívica seja a corrupção pura e crua, sem fixa ideologia de fundo. Certo, a máquina metafísica do fascismo funcionou na ausência de projeto nacional coerente e do esvaziamento da dignidade cívica, entendido como vácuo do sentimento de comunidade nacional.

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"Às favas os escrúpulos" e "às favas o Brasil" são variações frasais com o mesmo sentido. Não ainda como pleno fascismo, que é forma estrutural de pensamento, dependente, estilo Mussolini, de mitos "fundadores de civilidade". O que há mesmo é aviltamento corruptivo como azeite de relações sociais. Esse é o legado moral e cívico da ditadura. Embora se diga cívico-militar, a banda golpista jamais quis escutar outra coisa de civis senão palavras de bajulação.

Virótica, a corrupção infecciona a esquerda política. Vorcaro é personagem conceitual: assim como a medicina dispõe de marcadores biológicos de saúde, ele se tornou marcador do grau corruptivo do sistema. O escândalo do Master mostra que o crime organizado no país não se limita a facções classificáveis como "terroristas", mas que também se organiza em conluio com altos aparatos dos Poderes. Embora posto às vezes em modo de sobrevivência, como agora, é um ecossistema de teias onde rastejam seres aranhosos, permeáveis à sedução cínica do dinheiro. Brasil, escrúpulos? Às favas.

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