Janja afirmou nesta semana, em entrevista, que o país 'nunca teve uma primeira-dama que trabalhasse'

Multiempreendedora e fundadora do Natalia Beauty Group

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15.jul.2026 às 12h05

Numa entrevista à imprensa nesta semana, a primeira-dama Janja afirmou que o Brasil "nunca teve uma primeira-dama que trabalhasse" efetivamente. A frase, dita para justificar sua rotina de viagens e agendas institucionais, provocou reação imediata: a Fundação FHC lembrou que Ruth Cardoso presidiu o Comunidade Solidária, programa pioneiro de combate à pobreza, e representou o Brasil em organismos como a a OIT (Organização Internacional do Trabalho) e o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento).

Vale fazer as contas. O Brasil tem 26 estados mais o Distrito Federal, 27 unidades, e 5.569 municípios. Historicamente, cada um deles sustenta a figura de uma primeira-dama, estadual ou municipal, quase sempre institucionalizada através dos Fundos Sociais de Solidariedade, estruturas criadas há décadas justamente para organizar trabalho social. Só São Paulo tem 645 municípios, boa parte ligada a uma rede de fundos coordenada a partir do Palácio dos Bandeirantes e cada um comandado por uma primeira-dama.

Ou seja, neste exato momento, milhares de mulheres ocupam esse papel país afora e o trabalho existe, documentado. Lu Alckmin, primeira-dama de São Paulo por 14 anos, criou a Padaria Artesanal, projeto que profissionalizou cerca de 20 mil pessoas e chegou a mais de 9.000 unidades. Hoje, à frente do Fundo Social, mantém escolas de moda, beleza e construção civil em quase todo o estado, e Ruth Cardoso, que dispensa apresentações, deixou legado reconhecido internacionalmente.

Nenhuma dessas mulheres precisou apagar a anterior para justificar a própria relevância, mas parece ser exatamente isso que, de tempos em tempos, uma mulher em posição de destaque sente necessidade de fazer com outra. É um padrão conhecido para provar que finalmente chegou lá, e para isso se apaga o mapa de quem chegou antes. Como se só houvesse espaço para uma mulher de cada vez na história, como se reconhecer o trabalho da antecessora diminuísse o mérito da atual.

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O problema não é Janja defender seu próprio trabalho, que é legítimo, e parte da crítica misógina que primeiras-damas recebem é real. O problema é o caminho escolhido para isso. Apagar as outras para validar a si mesma é reproduzir a lógica da escassez que o machismo sempre impôs às mulheres, a ideia de que só cabe uma por palco, um prêmio por categoria. Quando mulheres repetem essa lógica entre si, não empoderam ninguém, só confirmam a régua que sempre tentaram derrubar.

Virginia Woolf escreveu que toda mulher precisa de um teto só seu para criar. Vale também para o reconhecimento de que não é preciso demolir o teto da vizinha para provar que o seu é maior.

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