Bioma reduz impactos de enchentes, secas e deslizamentos em áreas urbanas

Espaço de debate para temas emergentes da agenda socioambiental

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Luis Fernando Guedes Pinto Diretor-executivo da Fundação SOS Mata Atlântica e membro da Rede Folha de Empreendedores Sociais

O novo El Niño ainda está a milhares de quilômetros da costa brasileira, mas seus efeitos já começam a mobilizar governos, especialistas e setores econômicos. A Noaa, agência oceânica e atmosférica dos Estados Unidos, confirmou recentemente a formação do fenômeno e estima 63% de probabilidade de que ele atinja intensidade muito forte entre o fim de 2026 e o início de 2027.

Para o Brasil, a pergunta decisiva é como seus efeitos encontrarão um país profundamente desigual, urbanizado e vulnerável a enchentes, deslizamentos, secas e crises hídricas.

Sua economia é altamente dependente do clima e dos recursos naturais, tanto para a produção agropecuária quanto para a geração de energia. E a resposta para essa questão passa necessariamente pela mata atlântica.

O bioma ocupa cerca de 15% do território nacional, está presente em 17 estados e abriga mais de 70% da população brasileira. É também onde se concentra grande parte da infraestrutura econômica do país, metade da produção agropecuária e de alimentos e 9 das 12 regiões hidrográficas brasileiras.

Quando eventos climáticos extremos acontecem, causam grandes impactos justamente na região onde vivem, trabalham e circulam a maioria dos brasileiros.

Costumamos tratar a floresta como patrimônio ambiental ou reserva de biodiversidade. Ela também é isso, mas exerce uma função menos visível e igualmente estratégica: atua como um sistema natural de proteção e adaptação. A mata atlântica é uma das nossas linhas de defesa climática.

Florestas ajudam a regular a temperatura, protegem nascentes, favorecem a infiltração da água no solo, reduzem processos erosivos e contribuem para a estabilidade de encostas.

Em períodos de chuva intensa, amortece o escoamento superficial que alimenta enchentes e deslizamentos. Em estiagens, colaboram para manter a disponibilidade hídrica. Não impedem eventos extremos, mas diminuem sua capacidade de causar danos e aumentam a velocidade para se recuperar.

Mas a mata atlântica chega a este novo ciclo de extremos climáticos muito fragmentada. Restam cerca de 24% de sua cobertura florestal original, sendo que pouco mais da metade disso (12,4%), corresponde a florestas maduras, justamente as áreas de maior importância para a biodiversidade e o estoque de carbono.