Casal formou uma das parcerias mais importantes da fotografia no Brasil
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Rodrigo Moura Curador, editor e crítico de arte. É autor da monografia "Lorenzato" (Ubu, 2022) e curador da mostra "Mestre Didi: Invenção e Ancestralidade na Arte Afro-brasileira" (Itaú Cultural, 2026)
[RESUMO] A exposição "To Love" apresenta o encontro amoroso e artístico, corajoso e nada óbvio, de Claudia Andujar e George Love, que ampliaram as possibilidades da fotografia como linguagem artística. Solarizações, exposições duplas e prolongadas, filmes infravermelhos e alterações no processamento químico estão entre os recursos explorados por ambos, destaca crítico de arte.
Eu ia saindo de fininho da casa de Claudia Andujar depois de um longo dia de trabalho, lá pelos idos de 2014, quando ela me lembrou de olhar os livros que doaria, para ver se algum seria do meu interesse.
Deixei então o famoso apartamento da rua São Carlos do Pinhal com uma pilha debaixo do braço. Além de uma primeira edição de "The Americans", do fotógrafo Robert Frank, com o carimbo de Andujar na folha de rosto, me chamaram a atenção outros dois volumes.
Um deles era "The Bikeriders" (1968), de Danny Lyon, que documenta uma gangue de motociclistas de Chicago nos anos 1960 e recentemente virou filme —"Clube dos Vândalos" (2023). O outro, uma monografia da editora Prestel, especializada em livros de arte, sobre a série "Fotoformas", de Geraldo de Barros, ponto alto da vanguarda construtiva brasileira.
Com Lyon, Andujar integrou a efervescente cena norte-americana da fotografia nos anos 1960. Nathan Lyons, que foi curador da George Eastman House, incluiu Lyon e Andujar, respectivamente, em duas exposições sucessivas por ele organizadas: "Toward a Social Landscape" (1966) e "Photography in the Twentieth Century" (1967).
Geraldo de Barros abriu caminho para a fotografia de arte no Brasil quando exibiu a série "Fotoformas" de maneira pioneira, em 1951, no Masp (o museu que mais tarde seria tão importante na história de Andujar).
A síntese entre uma fotografia documental radical, em que o fotógrafo se aproxima vitalmente de seu objeto, e a imagem experimental, na qual a forma interroga o caráter realista da fotografia e a afirma como materialidade em si mesma, sempre me pareceu um ingrediente fundamental no trabalho de Andujar.
É essa tensão que está em relevo na inovadora exposição "To Love", na galeria Vermelho, em São Paulo, com curadoria de Eder Chiodetto. A mostra se concentra na colaboração entre Andujar e George Love (1937–1995), fotógrafo americano radicado em São Paulo, casados e parceiros artísticos nas décadas de 1960 e 1970.
A exposição é composta quase inteiramente de ampliações contemporâneas de grande formato, produzidas a partir dos arquivos dos dois fotógrafos.
Representada pela Vermelho desde 2003, Andujar mantém com a galeria uma parceria duradoura, pautada pelo compromisso ético de destinar parte da renda obtida com a venda de sua obra sobre os yanomami a iniciativas voltadas a esse povo.
"To Love" marca também o início da representação do Arquivo George Love pela galeria —e faz sentido que essa estreia se dê em diálogo com Andujar.
O caráter afetivo da parceria entre os fotógrafos aparece logo numa das paredes de entrada, com retratos tanto de um quanto do outro. Embora ambos sejam creditados a Love, pode-se especular que o retrato dele próprio tenha sido tomado por Andujar com a câmera dele.




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