No dia em que comemoramos os 57 anos da Revolta de Stonewall, protagonizada por muitas pessoas trans e marco dos protestos em prol do respeito à diversidade sexual e de gênero no mundo, é importante avaliarmos não apenas as conquistas das últimas décadas, mas…

Para entendermos os novos discursos críticos às identidades, temos que ver o que aconteceu na intelectualidade liberal dos Estados Unidos após a primeira eleição de Donald Trump, em 2016. Uma série de importantes intelectuais progressistas passou a responsabilizar o excessivo foco nas identidades negras e LGBTQIAPN+ pela vitória da extrema direita no país – ideia que logo foi muito utilizada no Brasil, vide a última eleição municipal de São Paulo e a caracterização da deputada Erika Hilton como melhor cabo eleitoral de Flávio Bolsonaro. Um dos primeiros a lançar essa ideia foi Mark Lilla, professor de humanidades na Universidade de Columbia. Ele defendeu o abandono das pautas identitárias em um artigo de enorme repercussão publicado no jornal The New York Times. Logo depois, escreveu um livro sobre o mesmo tema, traduzido no Brasil em 2018, com o título O progressista de ontem e do amanhã, publicado pela Companhia das Letras.

Mas, para atacar as pessoas trans, Zanello desenvolve ideias aparentemente mais sofisticadas que as dos demais autores aqui citados. Ela diz que as pessoas trans passam por uma socialização primária com o gênero ao qual foram identificadas e uma socialização secundária a partir do processo de transição. E essa socialização primária não desapareceria da subjetividade da pessoa, pois ficaria um resíduo. E qual é o objetivo dessa teoria? Dizer, por exemplo, que Erika Hilton não é mulher porque foi socializada como homem. E mesmo que hoje se identifique como uma mulher, algo de masculino permaneceria nela. É isso que dá margem para argumentar que ela é agressiva (como um homem) e não pode ser presidenta da Comissão das Mulheres da Câmara dos Deputados.

Já escrevi alguns artigos acadêmicos sobre essas novas obras e estou escrevendo um livro para cartografar e analisar de forma mais sistemática cada uma delas, refletindo sobre quais foram as condições de emergência desses novos saberes. Ao que parece, o processo de subjetivação que marcou os últimos anos – com a proliferação de muito discurso de ódio, falta de empatia para com as diferenças e ascensão da extrema direita – criou uma profunda dessensibilização para com o outro, que marca não apenas as vidas dos adeptos de perspectivas conservadoras. Ao mesmo tempo, essas obras são reativas aos ativismos e saberes negros, decoloniais, queer e trans que deixaram de problematizar apenas as próprias identidades subalternas e passaram a criticar as normas – sejam elas a colonialidade, a branquitude ou a cisgeneridade. E esse impulso crítico, fortemente influenciado pelas cotas no ensino superior, é entendido por esses intelectuais como a imposição de um pensamento único que estaria assolando a pluralidade em nossas universidades. Essa ideia passa a ser defendida exatamente quando as instituições de ensino atingem um grau de pluralidade de pensamentos nunca antes visto. Isso explica, ao menos em parte, o surgimento do manifesto intitulado Em defesa do pluralismo e da liberdade acadêmica, assinado e/ou apoiado por várias autorias do país aqui citadas. Ali fica nítido o alinhamento do campo anti-identitário que esboço aqui.

Tudo isso nos mostra que, nos próximos anos, além de enfrentar a extrema direita e suas pautas anti-identidades subalternizadas, teremos mais um imenso desafio. O que está em jogo é uma nova versão de uma disputa epistemológica sobre o que entendemos sobre raça, gênero e sexo. Ou seja, novas revoltas, dentro e fora das universidades, serão mais do que necessárias, e elas precisarão ser, cada vez mais, interseccionais. A luta continua.

Leandro Colling é professor titular da UFBA, e integrante do Núcleo de Pesquisa e Extensão em Culturas, Gêneros e Sexualidades (NuCuS-UFBA).

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