Se você acompanha o FlatOut, já me viu fazendo analogias com carros e guitarras. Eu gosto dos dois, tenho os dois e compreendo estes dois universos. Eles são mais semelhantes do que pode parecer. Guitarras antigas também são colecionáveis e valorizadas. Mais …

Se você acompanha o FlatOut, já me viu fazendo analogias com carros e guitarras. Eu gosto dos dois, tenho os dois e compreendo estes dois universos. Eles são mais semelhantes do que pode parecer. Guitarras antigas também são colecionáveis e valorizadas. Mais que as novas. A razão é a mesma: nostalgia e a percepção de que antigamente essas coisas eram melhores. Elas também passaram por uma commoditização e também tiveram uma invasão asiática com preços acessíveis e produtos que cumprem sua função básica com eficiência e chegaram ao ponto em que modelos japoneses e coreanos são mais confiáveis e tem tanta ou até mais qualidade que as marcas ocidentais.

Foi isso, aliás, que fez as guitarras antigas ganharem ainda mais valor. Aconteceu ainda nos anos 1970, mais ou menos quando os entusiastas mais atentos entenderam que aqueles carros velhos teriam valor em breve. E como qualquer objeto colecionável e inflacionado, o mercado começa a especular. Às vezes tem fundamento — pense nas Ferrari 250 GTO, por exemplo —, mas muitas vezes essa especulação é fruto de distorção psicológica, muito motivada por vaidade, um pouco de malandragem, mas também pela falta de uma referência confiável de preços.

Mas você quer comprar ou vender um Maverick GT 1974. Como se faz para descobrir quanto vale um desse?

Funciona assim: o dono do Maverick de R$ 190.000 (que o mercado real em dinheiro só pagaria R$ 120.000) cansa de esperar e aceita uma troca direta por outro clássico que o outro sujeito também anunciou por R$ 190.000 (mas que também só vale R$ 120.000). Nenhum centavo muda de mãos. Nenhuma liquidez real é gerada. Mas os dois voltam para casa com o ego intacto e convictos de que são donos de um carro de R$ 190.000 Na economia, isso se chama inflação de permuta, e ela serve apenas para manter a bolha flutuando. Acontece o mesmo com guitarras e relógios — com o agravante que uma guitarra antiga ou um relógio colecionável podem custar até mais caro que um novo.

Para piorar, o mercado também se alimenta de boatos. Se corre a notícia de que alguém pagou uma fortuna recorde por um exemplar impecável em uma venda privada, todo proprietário de carro semelhante passa a usar esse teto do mundo como sua nova base. Por conveniência — ou ilusão — ele ignora se o comprador rico pagou tanto pela conveniência extrema de levar um carro pronto de concurso, com histórico e com procedência imaculada. Ou que, simplesmente, pode ser um rico excêntrico sem a menor noção de valor de mercado — e eles existem. E aí exceção vira a regra.

A especulação, a permuta inflacionada e os boatos de valores inventados criam uma bolha: os carros giram com inflação de permuta, os compradores reais guardam o dinheiro e os vendedores que não querem trocas, preferem ver o carro acumular poeira na garagem a dar o braço a torcer e admitir que aquele valor é especulativo e eles erraram a conta.

É por isso que, tanto no Brasil quanto no resto do mundo, um forte balizador de preços são os leilões de clássicos. Toda vez que uma notícia sobre um carro a venda em leilão aparece no Zero a 300, ou cada vez que acompanhamos os leilões brasileiros pessoalmente, o motivo é entender quanto estes carros estão custando no mundo real.

E justamente por ser público, o preço é confiável. Nos EUA e na Europa os leilões são privados não é preciso concessão do Estado para organizar um leilão — apenas uma licença de leiloeiro, algo que exige adesão aos padrões de compliance anti-lavagem de dinheiro, corrupção e financiamento ao terrorismo. Na Europa e no Reino Unido, diretivas rígidas como a 5AMLD tratam as grandes casas de leilão com o mesmo rigor aplicado a bancos e demais instituições financeiras. Isso significa que, para bater o martelo acima de 10.000 euros, existe um processo que obriga a identificação do dono real do dinheiro, por trás de qualquer empresa de fachada ou fundo de investimento.

Nos EUA, o cerne do controle responde à agência governamental de combate a crimes financeiros, cruzando dados de compradores com listas internacionais de sanções e pessoas politicamente expostas. Ninguém entra com malas de dinheiro vivo ou contas secretas; todo o dinheiro dos leilões é rastreado.

No Brasil, embora o leiloeiro não opere sob o mesmo modelo corporativo das gigantes estrangeiras, as regras são igualmente rigorosas — e com o peso do Estado. Por ser uma função delegada pela Junta Comercial e dotada de fé pública, o leiloeiro oficial responde legalmente por cada linha da sua ata de leilão — que é um documento público. Fraudar um valor ou inventar um lance na ata significa perder a matrícula e responder por crime de falsidade ideológica.

Além disso, eles são classificados como agentes obrigados pela Lei de Lavagem de Dinheiro. Isso significa que eles são monitorados pelo COAF e obrigados a reportar imediatamente qualquer movimentação suspeita, como tentativas de pagamento com malas de dinheiro vivo ou lances incompatíveis com a renda do comprador. Por isso, seja pela força do compliance bancário internacional que caça a origem do dinheiro lá fora, seja pelo rigor fiscal e jurídico da Junta Comercial e do COAF aqui dentro, o preço de arremate no leilão é o único que carrega um certificado de depósito real. E é por isso que ele é uma referência global de preços de carros clássicos.

Também é por isso que estamos começando nossa série sobre os leilões brasileiros. Tal como fazemos todo início de ano com os leilões estrangeiros, também vamos acompanhar os carros mais caros e os destaques em leilões nacionais — os leilões de clássicos, claro. Vamos começar pelo leilão realizado durante o Brazil Classics Show, em Araxá/MG, o evento que concentra os carros mais raros e valiosos do país e, por isso, onde costumam aparecer os lotes mais valiosos do nosso mercado.

Como de praxe, vamos conhecer os cinco carros mais caros leiloados, mas também veremos alguns modelos que valem uma menção mais analítica. Aqui está a lista:

Os Mercedes R129 sempre foram valorizados acima da média dos modelos da marca — mesmo quando chegaram ao ponto mais baixo da desvalorização, no final dos anos 2000. O modelo teve uma valorização crescente desde a pandemia e agora um bom exemplar com o motor V8 5.0 (500SL ou SL500, depende do ano) gira na casa dos R$ 250.000 a R$ 300.000.

O carro tinha lance inicial de R$ 165.000 e escalou rapidamente: em apenas 15 lances bateu os R$ 380.000 e foi arrematado.

Este é um carro que fala por si. Não há muitos Ford Bronco no Brasil — muito menos os de quarta geração, que foram produzidos entre 1987 e 1991. Some esta raridade ao apelo que as picapes e SUV americanos sempre tiveram e você tem a receita para um leilão disputado.

Apesar de parecer uma série especial, o Bronco Eddie Bauer era a versão de topo do modelo, desenvolvida em parceria com a marca de lifestyle aventureiro que lhe dá o nome, e se diferenciava por ter a pintura em dois tons, cores exclusivas, estribos, retrovisores cromados, rodas de alumínio forjado, volante de couro, cruise control, um conjunto de luzes de cortesia por toda a cabine, console de teto com bússola e termômetro e tapetes acarpetados.

Sob o capô, o Eddie Bauer vinha com o motor V8 302, mas este exemplar tem o motor Windsor 351 oferecido como opcional, com 201 hp a 4.000 rpm e 42 kgfm a 2.000 rpm. Sem restauração, com quilometragem relativamente baixa, ele tinha preço inicial de R$ 225.000 e recebeu 23 lances até ser arrematado por R$ 335.000.

Este foi uma surpresa até mesmo para a organização do leilão. Você sabe, a janela dos 30 anos colocou os holofotes sobre os carros dos anos 1990, e os modelos pré-guerra andavam em baixa entre os colecionadores mais novos. Mas considerando que o Brazil Classics Show é o encontro onde estes modelo