Confronto entre candidatos tem servido mais para fornecer conteúdo para as campanhas feitas nas redes sociais. Leia na Gazeta do Povo.

Dê de presentePrefira a Gazeta no GoogleLula e Bolsonaro em 2022: debates seguem relevantes como geradores de conteúdo para as campanhas nas redes sociais. (Foto: EFE/ Sebastiao Moreira)Ouça este conteúdo

Uma eleição presidencial é construída com meses de acordos e alianças, propaganda, economia, rejeição, militância e, sobretudo, com tudo aquilo que o eleitor acredita quando chega à urna. Mas há momentos em que algumas horas diante das câmeras parecem capazes de embaralhar tudo isso — especialmente quando a disputa está apertada, e milhões de indecisos ainda procuram uma razão para escolher um lado.

São momentos como os debates eleitorais, uma das estratégias mais antigas das campanhas. É no debate que as ideias são confrontadas, as ausências são notadas, os ânimos se acirram e o que era para ser uma discussão verbal pode escalar para ataques físicos. Dada essa importância, uma pergunta se impõe: um candidato pode ganhar uma eleição em duas horas de debate na televisão?

A resposta parece óbvia: provavelmente não. Mas a realidade é bem mais complexa do que isso, já que o debate não termina quando as luzes se apagam e os candidatos deixam o estúdio. Ele continua nos jornais, nos comentários dos analistas e, principalmente, nos cortes que chegam aos celulares dos eleitores.

Por isso, o que pode decidir uma eleição não é exatamente o debate em si, mas sim quem conseguiu transformar sua versão do debate na história que todo mundo vai lembrar e contar no dia seguinte.

Debate com candidatos em São Paulo é marcado por agressão física, ataques verbais e poucas propostasEm 1989, debate presidencial colocou Lula e Collor frente a frenteO Brasil já teve uma eleição em que essa pergunta deixou de ser apenas uma hipótese retórica. Em dezembro de 1989, Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva disputavam uma das eleições presidenciais mais importantes e apertadas da história brasileira. Os dois se enfrentaram duas vezes na televisão.

No segundo debate, realizado no dia 14 daquele mês, Collor e Lula ficaram frente a frente por duas horas e meia. Nem todos os eleitores assistiram ao debate na íntegra. No dia seguinte, porém, partes da discussão foram editadas e exibidas em horário nobre no Jornal Nacional, da TV Globo. Collor seria eleito presidente, com 53% dos votos válidos contra 47% de Lula.

A edição do debate motivou um pedido público de desculpas por parte da emissora. A Globo reconheceu que tentar resumir um debate como se faz com os melhores momentos de uma partida de futebol foi um erro e um risco inaceitável para o jornalismo.

O confronto entrou para a história, mas a pergunta permanece: um debate pode realmente decidir uma eleição? Ou o que decide é aquilo que acontece com o debate depois que ele termina?

John Kennedy e Richard Nixon protagonizaram, em 26 de setembro de 1960, o primeiro debate presidencial transmitido nacionalmente pela televisão americana. Nixon tinha experiência política e era vice-presidente; Kennedy era mais jovem e relativamente menos experiente.

A narrativa histórica ficou famosa: quem ouviu o debate pelo rádio teria percebido Nixon como vencedor; quem assistiu pela televisão teria ficado mais impressionado com Kennedy. Aparência, postura, iluminação, suor, expressão corporal e domínio da câmera passaram a fazer parte da avaliação política.

Esse episódio é frequentemente apontado como um momento fundador da política televisiva moderna. Mais do que as propostas, a postura dos candidatos na frente das câmeras teve um peso inédito junto aos eleitores. Kennedy pode ter ganho aquela eleição não apenas pelo debate, mas é inegável que o confronto teve influência entre os eleitores.

Em 1976, o democrata Jimmy Carter havia vencido as eleições presidenciais nos EUA contra o então presidente, o republicano Gerald Ford. Quatro anos depois, ele iria experimentar o mesmo sentimento de seu antecessor ao ser derrotado pelo ex-ator Ronald Reagan.

Eles se enfrentaram em um único debate, uma semana antes da eleição, e o resultado do pleito não mostra o quão competitiva estava a disputa. Pelo menos até o encontro televisionado dos adversários.

A performance de Reagan foi considerada muito superior à de Carter. Nas considerações finais do encontro, o republicano foi o último a falar, e lançou uma série de questionamentos aos eleitores americanos. As perguntas, feitas diretamente para os telespectadores, praticamente fizeram a campanha de seu adversário derreter diante das câmeras.

“Todos vocês irão às urnas e tomarão uma decisão. Acho que, ao tomarem essa decisão, seria bom se perguntassem a si mesmos: vocês estão em melhor situação do que estavam há 4 anos? É mais fácil para vocês irem às lojas e comprarem coisas do que era há 4 anos? Há mais ou menos desemprego no país do que havia há 4 anos? Os Estados Unidos são tão respeitados no mundo todo quanto eram? Vocês sentem que nossa segurança é tão sólida, que somos tão fortes quanto éramos há 4 anos?”, questionou Reagan

Depois do debate, a disputa, que antes estava acirrada, mudou rapidamente. Reagan venceu a eleição de forma esmagadora, com 44 estados contra 6 de Carter, cujo governo enfrentava inflação, crise econômica, a crise dos reféns no Irã e um forte desgaste interno.

Exemplos como os anteriores mostram a força que a TV tinha décadas atrás na decisão de voto dos eleitores. Mas e hoje, com as eleições tão focadas nas redes sociais, os debates ainda são relevantes?

A pesquisa Panorama Eleitoral Brasileiro, realizada pelo Instituto Informa e divulgada em reportagem da revista Veja mostra que sim. Segundo o levantamento, realizado entre 21 de maio e 7 de junho de 2026, com 2.419 entrevistas em todo o país, 53% dos entrevistados afirmaram que os debates e as entrevistas ao vivo têm potencial para chamar a atenção ou levá-los a reconsiderar a escolha de um candidato. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com 95% de nível de confiança.

Para o relações públicas, especialista em opinião pública e professor da PUC-PR Marcos José Zablonsky, essa importância se deve mais pelo que o debate representa atualmente, e menos pelo que esse embate entre candidatos já foi um dia.