A nítida intenção de Trump é seguir presente na política depois que deixar a Casa Branca

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As eleições de meio de mandato em novembro nos Estados Unidos definirão os rumos dos partidos Republicano e Democrata, com profundo impacto em 2028. Enquanto os Republicanos se consolidam em torno do legado de Trump, os Democratas buscam mesclar posições tradicionais com a crescente força da esquerda. As pesquisas atuais indicam uma possível virada democrata no Congresso, mas ambos os partidos enfrentam reestruturações e desafios internos que prometem moldar a política americana para a próxima década.

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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

Louco por um palco que o ponha no centro das atenções, o presidente Donald Trump inventou de fazer, pouco antes das eleições de meio de mandato, uma convenção do Partido Republicano. Esse tipo de encontro é normalmente reservado à consagração de candidatos à Presidência. Nos dias 9 e 10 de setembro, a turma MAGA, com seus bonés e jaquetas brilhantes, compareceu a um auditório no Texas para aplaudir os nomes que estarão nas urnas em novembro — e o próprio Trump, que discursou nas duas noites. Muito se falou sobre a utilidade da convenção, ainda mais em tempo de baixa popularidade do governo, e alguns aspirantes a vagas no Congresso optaram por se ausentar. Mas, para Trump, foi uma chance e tanto de enlaçar com mais alguns nós as amarras de seu domínio sobre a legenda — uma das ferramentas com que, impedido de disputar de novo a Casa Branca, pretende garantir seu legado para além do fim do mandato.

Se os republicanos planejam fincar nas midterms a linha mestra do futuro do trumpismo sem Trump, o Partido Democrata também tem lá suas segundas intenções. Ainda se recuperando do baque da derrota há dois anos, a sigla está se contorcendo para mesclar posições tradicionais com as tintas mais à esquerda de uma turma de pretendentes ao Congresso empurrada pelos eleitores mais jovens. Os democratas, a seu modo, vivem momento parecido. A julgar pela tendência atual, o resultado mais marcante das eleições que se aproximam será, mais até que a renovada composição do Legislativo, a nova formatação dos dois partidos que dominam a política americana — e, claro, seu impacto em 2028.

As pesquisas de intenção de voto no momento não favorecem os republicanos — sempre lembrando que nos Estados Unidos elas têm falhado com frequência. Presidentes com aprovação baixa tendem a sair das eleições para o Congresso com minoria em pelo menos uma das casas e a popularidade de Trump oscila entre 37% e 41%, puxada para baixo pela persistente alta de preços. Com números parecidos, George W. Bush perdeu a maioria na Câmara e no Senado em 2006. O próprio Trump, com 44% de aprovação no meio do primeiro mandato, em 2018, viu os republicanos virarem minoria entre os deputados.

No mais recente modelo do analista Nate Silver, que agrega pesquisas de todo o país, o Partido Democrata tem 86% de chance de retomar a maioria na Câmara e 59% de possibilidade de fazer o mesmo no Senado, onde precisa de pelo menos quatro cadeiras a mais. Corridas competitivas em estados em que Trump venceu por margens folgadas em 2024, como Texas, Ohio, Alasca e Iowa, reforçam essas previsões. Mesmo nesse cenário otimista, no entanto, os democratas sentem os efeitos das disputas internas e da resistência em mexer em princípios e caciques estabelecidos.

O declínio do ex-presidente Joe Biden e da ex-presidente da Câmara dos Deputados Nancy Pelosi deixou um vácuo ainda não preenchido na liderança. Enquanto isso, ganha espaço a ala mais à esquerda do partido, ela própria dividida entre os Socialistas Democráticos da América (DSA, na sigla em inglês), onde pontificam a deputada Alexandria Ocasio-Cortez e o prefeito nova-iorquino Zohran Mamdani, e um grupo de “progressistas” — todos no mesmo balaio de “comunistas insanos” de Trump. O nome mais proferido com maiúsculas pelo presidente é o do médico Abdul El-Sayed, filho de egípcios, que venceu a primária democrata para o Senado em Michigan prometendo serviço de saúde grátis para todos e o fim do ICE, a polícia imigratória. Em um mês, a vantagem de El-­Sayed para o republicano Mike Rogers foi de 1,6 para 2,9 pontos.

Os analistas ressaltam que essa ala esquerda do partido sempre existiu, sempre fez barulho — e sempre foi minoritária porque, na hora do vamos ver, os eleitores optam pelo conhecido. “Tenta-se achar um movimento análogo ao MAGA entre os democratas, mas ele não se concretiza. Os radicais simplesmente não têm poder”, afirma Elaine Kamarck, diretora do Centro de Gestão Pública da Brookings Institution. Mas, neste momento de busca de uma imagem nova que suplante o desastre de 2024, parece inevitável que, passadas as midterms, a liderança venha a incorporar ao menos porções amenizadas do discurso “radical” na corrida pelo que importa: a Casa Branca.

Do lado republicano, a nítida intenção de Trump é seguir presente na política depois que deixar a Casa Branca. Em nome desse projeto, jogou todas as suas cartas na derrota nas primárias de dois senadores e um deputado republicanos que lhe faziam oposição e empurrou para a frente quase todas as candidaturas que endossou. Cabem na mesma caixa de continuação as seguidas tentativas de impedir a votação pelo correio a pretexto de evitar fraudes (e de quebra desanimar eleitores democratas, menos passionais que os seus, a sair de casa para votar). Ou a insistência, na contramão da maioria, em não impor controles ao avanço da inteligência artificial para não perder a corrida com a China, peça-­chave de seu ideário.

A vitória dos republicanos nas midterms é, obviamente, importantíssima para Trump, visto que a votação ditará os passos do governo federal nos próximos dois anos. Da eleição de novembro sairá ou uma maioria afinada com a imposição de uma agenda legislativa conservadora, ou uma oposição com poder para deslanchar investigações sobre a guerra no Irã, casos de corrupção do Executivo e outros pepinos (“Se perdemos a eleição vou sofrer impeachment”, já avisou o presidente). Em qualquer caso, tanto o tom do vermelho republicano quanto o do azul democrata ganharão novos matizes — e é com essa pintura renovada que irão para a guerra em 2028.

Publicado em VEJA de 18 de setembro de 2026, edição nº 3013