Trio levou sucessos de diferentes fases ao Sunset e recebeu Duquesa para "Big D", "Voo 1360" e "Queda Livre"
Os Garotin chegaram ao Palco Sunset do Rock in Rio 2026 às 17h50 de sexta-feira, 11 de setembro, num horário em que boa parte da Cidade do Rock ainda estava absorvida pela programação de K-pop no Palco Mundo. O trio de São Gonçalo precisava disputar atenção com um público jovem que passaria horas guardando posição para Hwasa, Alok e Stray Kids, mas respondeu montando um ambiente próprio. Anchietx, Cupertino e Léo Guima apareceram de óculos escuros e alfaiataria brilhante, diante de uma banda de dez músicos e de uma escadaria coberta por glitter prateado. Nos telões, estruturas douradas completavam uma composição que transformava o Sunset numa mistura de baile black, salão de gala e festa gonçalense.
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A escolha visual dizia bastante sobre o momento do trio. Os Garotin poderiam subir ao palco apenas sustentados pelo discurso da "nova música brasileira", rótulo que costuma servir para colocar artistas muito diferentes dentro do mesmo pacote. Preferiram mostrar com clareza de onde vêm musicalmente. Soul, funk, R&B, MPB e referências de baile conviviam desde a abertura com "Garota", seguida por "Hoje Eu Vou Me Dar Bem", "Fantástica", "Curva Escura" e "Estranha Vontade Louca". O figurino dava acabamento à festa sem engessar os três, que dançavam, trocavam posições e assumiam os vocais de acordo com a personalidade de cada faixa.
O começo teve um pequeno problema de equilíbrio entre vozes e instrumental. Num grupo formado por três cantores com timbres e maneiras muito próprias de frasear, perder parte dessa definição compromete justamente uma de suas melhores qualidades. O ajuste veio ainda na primeira parte e, quando o som assentou, ficou mais fácil perceber o trabalho vocal que sustenta Os Garotin para além do groove. A banda grande também passou a trabalhar a favor deles, acrescentando metais, baixo e bateria sem transformar os arranjos numa massa excessiva.
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O grande mérito da apresentação foi entender que tocar soul e R&B num festival exige mais do que reproduzir bons arranjos. Essas músicas pedem movimento, troca entre músicos e alguma sensação de festa acontecendo no instante. Os Garotin incorporaram esse princípio ao show inteiro. Em vez de apresentar uma faixa, parar, conversar e iniciar outra do zero, o trio manteve uma pulsação que fazia os diferentes momentos parecerem partes da mesma noite.
Esse comportamento aparece de maneira muito clara em "Calor do Momento", "Se Joga" e "Nossa Resenha". São músicas que ocupam regiões diferentes do repertório, mas funcionam ao vivo porque os três sabem alternar protagonismo. Quando um assume a frente, os outros continuam movimentando palco, backing vocals e respostas. Essa divisão evita que a apresentação dependa de uma única figura central e reforça o que torna o grupo tão bom ao vivo: Os Garotin funcionam como trio de verdade.
"Nossa Resenha" carrega ainda a memória da gravação com Caetano Veloso e uma forte relação com o Rio de Janeiro. A faixa fala de circulação pela cidade, Lapa, samba, funk e encontros, referências que ganham outra leitura quando cantadas por três artistas de São Gonçalo diante de um dos maiores festivais do país. O salto de escala não exige que eles apaguem a origem suburbana para parecer maiores. O Sunset fica grande justamente porque aquela identidade chega intacta.
O palco também recebeu um tratamento muito diferente da informalidade que costuma acompanhar a ideia de "baile". A alfaiataria com brilho, os óculos escuros, a escada prateada e as projeções douradas conferiam solenidade sem eliminar o balanço. Era como se o trio tivesse levado a elegância dos antigos bailes black para um espaço de festival, mantendo no corpo a descontração que impede o conceito de virar fantasia de época.
Quando Duquesa apareceu, cerca de vinte minutos depois do começo, a apresentação ganhou outra força. A rapper entrou primeiro para "Big D!!!!!" e depois seguiu com "Voo 1360", ocupando o palco sem alterar completamente a banda ou forçar Os Garotin a assumir uma linguagem que não lhes pertence. A escolha foi inteligente porque permitiu que o show abrisse espaço para o universo dela em vez de colocar a convidada apenas cantando versos dentro de músicas do trio.
Duquesa trabalha com uma presença muito mais frontal. Enquanto Anchietx, Cupertino e Léo Guima distribuem o protagonismo e constroem boa parte do charme da apresentação pela troca entre os três, ela entra com uma postura concentrada, rima precisa e maior agressividade na emissão. Esse contraste altera o baile sem desmontá-lo. O público percebe a mudança imediatamente, e as duas músicas funcionam como um pequeno bloco dentro da apresentação.
A participação também deixa uma sensação de que poderia durar mais. Depois de "Voo 1360", Duquesa deixa o palco e Os Garotin chegam a avisar ao público que ela voltaria. O convite anunciado para o festival criava expectativa por uma presença mais extensa, sobretudo porque a combinação funcionou tão bem logo de saída. Em vez de prejudicar o show, a ausência cria uma promessa que só seria resolvida no encerramento.
O encontro ganha ainda uma camada geracional. Os Garotin se consolidaram rapidamente a partir de 2019 e chegaram ao Grammy Latino com o álbum "Os Garotin de São Gonçalo", enquanto Duquesa ocupa posição cada vez maior dentro do rap brasileiro contemporâneo. São artistas jovens, vindos de cenas diferentes e já capazes de movimentar públicos próprios. Colocá-los juntos faz sentido musicalmente antes de fazer sentido como estratégia de festival.
Depois da primeira saída de Duquesa, o trio retomou o baile com "Calor do Momento", "Se Joga" e "Nossa Resenha" antes de abrir espaço para um dos momentos individuais mais bonitos do set. Léo Guima assumiu "Carinha de Neném", reduzindo temporariamente a movimentação coletiva e deixando a voz conduzir a música. A alternância funciona bem e isso acontece porque chega depois de uma sequência muito carregada de groove e devolve atenção para a qualidade vocal que sustenta os três integrantes.
Logo depois, "Zero a Cem" mostrou o quanto determinadas músicas já escaparam da fase de "aposta". O coro veio forte do público e criou um dos momentos em que o trio precisou trabalhar menos para conquistar resposta. Lançada no primeiro ciclo de Os Garotin, a faixa acompanhou o crescimento deles e hoje possui reconhecimento suficiente para mudar o comportamento de uma plateia grande poucos segundos depois da introdução.
Esse trecho ajuda a dimensionar como a carreira avançou rapidamente. Há poucos anos, Anchietx, Cupertino e Léo Guima ainda construíam seus trabalhos individuais e começavam a entender Os Garotin como grupo. Em 2024, o primeiro álbum levou o Grammy Latino de Melhor Álbum de Pop Contemporâneo em Língua Portuguesa. Dois anos depois, o Sunset recebia um show com produção própria, repertório suficiente para uma hora e uma plateia que já sabia cantar parte relevante dele.
A evolução fica ainda mais evidente porque a apresentação não depende apenas das músicas do primeiro disco. O material de "Força da Juventude", lançado em 2026, ocupa espaço real dentro do set e impede que a estreia naquele palco funcione como comemoração atrasada do Grammy. Há passado suficiente para produzir reconhecimento e presente suficiente para mostrar que o repertório continua crescendo.
"Soul Brasileiro" talvez seja a música que melhor traduz a proposta artística atual do trio. A gravação de estúdio conta com Lenine e Hamilton de Holanda e inclui uma citação a "Jack Soul Brasileiro", canção de Lenine que já brincava com a ideia de absorver referências estrangeiras sem apagar sotaque, ritmo e identidade locais. No Rock in Rio, a música acerta como declaração sem precisar interromper o baile para explicá-la.
Os Garotin conhecem profundamente soul e R&B, mas o interesse deles nunca parece ser reconstruir uma Motown brasileira ou provar fidelidade a modelos norte-americanos. O baixo pode vir dessa tradição, os metais podem apontar para funk e soul, enquanto melodias, violão, samba, MPB e maneiras brasileiras de cantar entram naturalmente no mesmo arranjo. Essa mistura fica muito mais clara ao vivo porque os instrumentos deixam expostas as costuras entre as referências.




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