Documento também descreve falhas de manutenção, cultura operacional e descumprimento de procedimentos

Compartilhar matériaUm outro avião da Voepass entrou em condição de stall — quando a aeronave perde sustentação — cerca de oito meses antes do acidente que matou 62 pessoas em Vinhedo (SP), mas conseguiu recuperar o controle e prosseguir o voo.

O episódio aconteceu em dezembro de 2023 e não foi comunicado nem à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) nem ao Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), como determinam os protocolos de segurança.

A informação consta no relatório final do Cenipa, ao qual a CNN Brasil teve acesso em primeira mão. Segundo o documento, o órgão tomou conhecimento do episódio apenas durante a investigação do acidente com o voo 2283 e confrontou a companhia aérea sobre a omissão.

De acordo com o relatório, o caso anterior apresentava características semelhantes às verificadas no acidente de Vinhedo e poderia ter contribuído para a adoção de medidas preventivas, caso tivesse sido formalmente reportado aos órgãos responsáveis.

Além desse episódio, o relatório traz uma série de apontamentos sobre falhas operacionais identificadas na Voepass durante a investigação.

Entre elas, o documento cita a realização de serviços de manutenção por mecânicos sem a devida supervisão, contrariando procedimentos previstos para esse tipo de atividade.

O Cenipa também aponta que, diante das condições meteorológicas previstas para o horário da decolagem, a aeronave não deveria ter sido despachada para o voo. A investigação concluiu que a previsão de formação de gelo e de chuva exigia uma avaliação operacional mais conservadora.

Outro ponto destacado é a existência de uma cultura organizacional que favorecia a repetição de falhas operacionais. Segundo o relatório, a investigação identificou reincidência de procedimentos inadequados em voos anteriores, indicando que determinados desvios haviam se tornado recorrentes dentro da operação da companhia.

Na avaliação do Cenipa, esse conjunto de fatores evidencia fragilidades na gestão operacional e nos processos internos da empresa, reforçando que o acidente não deve ser analisado apenas sob a ótica dos acontecimentos do voo 2283, mas também à luz de problemas identificados anteriormente durante a operação da Voepass.