Artigo de Paulo Henrique Arantes contrapõe Michelle Bolsonaro e Padre Júlio Lancellotti ao discutir religião, política e desigualdade no Brasil.
Por Paulo Henrique Arantes
O mais interessante no “fenômeno” Michelle é que a família a que ela pertence constitui um exemplo de desestruturação e desamor, como não poderia deixar de ser qualquer grupo encabeçado por Jair Bolsonaro. Até vídeo em rede social confrontando um enteado ela posta se isso atender à sua estratégia eleitoral. No lar bolsonarista ninguém respeita ninguém, ninguém confia em ninguém, ninguém suporta ninguém, como resta público, evidente e notório. Não há escrutínio moral que avalize a família Bolsonaro.
De outra parte, é assustador que pessoas que se dizem aferradas à palavra de Deus nutram tanto ódio por cristãos sensíveis ao sofrimento humano, como é o Padre Júlio Lancellotti, alguém que se ocupa de levar uma dose de conforto aos desafortunados.
O episódio mais recente de perseguição ao Padre Júlio foi a criação de uma CPI na Câmara Municipal de São Paulo para investigar ONGs que, ao lado dele, realizam serviços sociais na capital. O autor do pedido foi o vereador Rubinho Nunes, do União Brasil e integrante do bloco conservador ligado ao bolsonarismo. A lista original de vereadores paulistanos que assinaram o requerimento para abrir a investigação contou com forte apoio de parlamentares declaradamente bolsonaristas, de PL, Republicanos e PP. Diante da enorme repercussão negativa e da pressão da Igreja Católica, diversos parlamentares recuaram e retiraram suas assinaturas. A CPI não emplacou.
Embora Michelle Bolsonaro não tenha assinado diretamente ações locais na capital paulista, os atores políticos envolvidos na perseguição ao Padre Júlio pertencem ao mesmo ecossistema político dela, defendem a mesma agenda conservadora e para amenizar o sofrimento dos miseráveis nada fazem nem jamais fizeram.
As perseguições e as fake news sobre o Padre Júlio Lancellotti não vêm de hoje. Em 2020, e novamente no início de 2024, criminosos de falsa fé tentaram emplacar um vídeo gravado de uma tela de computador onde um homem, supostamente o sacerdote católico, realizava atos sexuais. Políticos ligados ao MBL e parlamentares municipais paulistas tentaram utilizar o material para impulsionar denúncias e criar uma CPI. Tratava-se de uma gravação fraudulenta e manipulada, sem qualquer comprovação de materialidade ou autenticidade. A Arquidiocese de São Paulo arquivou formalmente as investigações internas após o Ministério Público do Estado de São Paulo e a Justiça paulista atestarem a falsidade da acusação.
A figura do Padre Júlio Lancellotti emerge quando se fala de Michelle Bolsonaro porque o contraste entre ambos é demonstrativo da verdadeira polarização em voga no Brasil. Ela, pré-candidata ao Senado ou outro cargo qualquer, possui as qualidades que inspiram aqueles que, historicamente, semeiam e perpetuam nossas desigualdades, nossos preconceitos e nossa hipocrisia. Ele, livre de aspirações eleitorais, representa um país que pratica uma religiosidade proativa pelos excluídos, por sua dignidade na Terra antes da salvação nos céus.




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