Barragem seca da usina hidrelétrica de Guatapé, no Departamento de Antioquia, na Colômbia: El Niño costuma trazer problemas para sistema elétrico do país Esteban Vanegas/Bloomberg Governos latino-americanos aceleram planos de contingência diante de um El Niño…

Governos latino-americanos aceleram planos de contingência diante de um El Niño que pode se tornar um dos mais fortes já registrados. Mas, de um país para o outro da região, o mesmo fenômeno impõe desafios diferentes, que vão de enchentes e deslizamentos a secas e pressão sobre sistemas elétricos, segundo especialistas.

“Não existe um padrão único de impactos do El Niño para toda a América Latina, e é importante enfatizar isso”, diz Bárbara Tapia Cortés, chefe de Pesquisa e Informação Climática da Organização Meteorológica Mundial (OMM).

Em análise divulgada em 3 de setembro, a OMM afirmou que o El Niño está firmemente estabelecido e deve se intensificar até se tornar “muito forte” nos próximos meses. As previsões indicam ainda probabilidade próxima de 100% de que o fenômeno persista até fevereiro de 2027. Em 10 de setembro, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) atualizou para 75% a probabilidade de que, entre outubro e dezembro, o El Niño atinja um patamar de intensidade que superaria todos os episódios anteriores da série histórica iniciada em 1950, ante a estimativa de 69% do mês anterior.

Cortés explica que, diante do que se sabe até o momento, o sul do Brasil e partes do sudeste da América do Sul, incluindo Paraguai, Uruguai e o norte da Argentina, provavelmente terão chuvas acima da média e maior risco de inundações nos próximos meses. Enquanto isso, partes da Colômbia, Venezuela e Guianas, além de áreas da Amazônia podem enfrentar menos chuva e temperaturas excepcionalmente altas. “Os efeitos dependem da região, da estação e da interação com outros fatores climáticos”, afirma a especialista.

Essa distinção é especialmente importante para o Peru e o Equador. Segundo Cortés, os efeitos sobre a intensidade das chuvas nesses países dependem fortemente da evolução das condições oceânicas próximas às suas costas, inclusive na região conhecida como “Niño 1+2” - a área da costa do Pacífico na qual a temperatura pode subir ou baixar rapidamente antes das outras regiões. Em julho, a temperatura nessa área ficou 2,9°C acima da média, informou o NOAA, algo que leva a crer que ambas as nações podem receber fortes chuvas, principalmente, em suas áreas costeiras.

Nesse cenário, em 1º de setembro, o governo do Peru já declarou estado de emergência por 60 dias em 893 distritos diante do risco iminente de chuvas intensas associadas ao El Niño. O decreto autoriza governos regionais e locais a adotar medidas extraordinárias de redução de riscos, resposta e recuperação, incluindo obras preventivas, sob coordenação do Instituto Nacional de Defesa Civil (Indeci). As intervenções, porém, deverão ser financiadas com os orçamentos já disponíveis dos órgãos envolvidos, sem recursos adicionais do Tesouro peruano.

Cada El Niño reedita a mesma falha sem nenhum avanço para uma solução estrutural” — Germán Poveda A dimensão da ameaça já vinha sendo mapeada pelo Indeci, que identificou 536 “pontos críticos” particularmente vulneráveis aos efeitos do fenômeno e estimou que cerca de 1,2 milhão de pessoas poderiam ser afetadas, com base nos impactos registrados em episódios anteriores do El Niño.

Para além da antecipação dos problemas de infraestrutura, o ministro do Trabalho peruano, Jaun Sheput, afirmou em 4 de setembro, em sessão do Conselho Nacional de Trabalho, que pretende dar prioridade a estratégias para mitigar os efeitos do El Niño sobre o emprego, com identificação antecipada das regiões e atividades de maior risco no país e a criação de cargos temporários nas áreas mais vulneráveis.

Os preparativos começaram ainda antes da posse da presidente Keiko Fujimori. Em 15 de julho, o Congresso aprovou uma ampliação de US$ 2,8 bilhões no Orçamento, com a previsão de que parte dos recursos seja destinada a obras de prevenção de inundações relacionadas ao El Niño. Depois da aprovação, o então ministro da Economia do país, Rodolfo Acuña Namihas, atualizou para aproximadamente US$ 895 milhões os recursos que seriam utilizados para enfrentar o fenômeno - valor, entretanto, que representa um quinto das perdas econômicas estimadas pela Credicorp Capital Asset Management, que projetou que o El Niño pode custar cerca de US$ 4 bilhões ao Peru entre 2026 e 2027.

No vizinho Equador, onde o aquecimento das águas do Pacífico também eleva a preocupação com chuvas intensas e inundações, o governo de Daniel Noboa lançou em 5 de setembro o “Alístate Ecuador”, uma plataforma digital que reúne em um mapa informações sobre as áreas do país mais expostas aos impactos do El Niño, além de abrigos temporários, voluntários da Defesa Civil, depósitos de suprimentos e locais onde kits de assistência humanitária já foram posicionados.

Segundo a Secretaria Nacional de Gestão de Riscos, o sistema, que também reúne o histórico de eventos associados ao El Niño entre 2010 e 2026, tem como objetivo auxiliar na antecipação de ações e na redução de impactos negativos. A chefe da pasta, Carolina Lozano, disse à imprensa estimar que cerca de 1,3 milhão de pessoas podem ser expostas aos efeitos do evento climático. Nessa esteira, ela informou que o governo destinou US$ 650 milhões para o El Niño, dos quais 70% são para prevenção e os outros 30%, para resposta.

Antes disso, a gestão Noboa já havia anunciado um trabalho conjunto com o coordenador residente da ONU no Equador para elaborar e aplicar medidas específicas para segurança alimentar diante do El Niño. A iniciativa ocorreu depois de o país ter elevado, em 29 de agosto, o nível do fenômeno para o estado de alerta vermelho em todo o território equatoriano.

Se Lima e Quito se preparam principalmente para os riscos de chuvas intensas e inundações, na Colômbia, os efeitos do el Niño já são sentidos na redução da disponibilidade de água e na pressão sobre o sistema energético, segundo Germán Poveda, hidrólogo e ex-professor da Universidade Nacional da Colômbia. Poveda explica que, hoje, o país gera entre 70% e 80% de sua eletricidade a partir da água, o que, de acordo com ele, “transforma cada El Niño em uma ameaça direta ao sistema elétrico”, em razão das secas.

Não à toa, o governo de Abelardo de la Espriella apresentou no fim de semana o “Plano Energía YA” com foco em mitigar os riscos no abastecimento elétrico durante o El Niño. Entre as medidas anunciadas estão ações para incentivar a economia de energia entre consumidores, com desconto na conta de quem reduzir o consumo mensal em mais de 10% e imposição de taxas extras para aqueles que, em contrapartida, aumentarem o consumo em 10%. Além disso, o plano prevê o aumento da geração térmica necessária durante o período de seca, de modo a reduzir a dependência dos reservatórios de água do país.

Apesar das ações governamentais, Poveda considera que a Colômbia está apenas “marginalmente” mais preparada do que em El Niños anteriores. “O problema de fundo é estrutural: a Colômbia teve décadas para diversificar sua matriz energética em direção à energia solar e eólica, recursos que o país possui em abundância e que não dependem do regime de chuvas, e o avanço foi insuficiente”, diz o hidrólogo. “Cada El Niño reedita a mesma vulnerabilidade sem que a solução estrutural avance no ritmo necessário. Eu chamo isso de repetição do ‘ciclo hidro-lógico’”, completa.

No Panamá, a temporada de seca pode ultrapassar as fronteiras nacionais e afetar o comércio global diante da ameaça de redução dos níveis dos reservatórios de água doce que abastecem o Canal do Panamá. Como as eclusas (estruturas que funcionam como elevadores para embarcações) consomem principalmente a água do Lago Gatún para elevar e rebaixar os navios durante a travessia na hidrovia, a redução das chuvas associada ao El Niño faz com que a Autoridade do Canal, comandada por Ilya Espino de Marotta, restrinja o número de navios que trafegam ali, bem como a carga máxima permitida, a fim de conservar água e manter a passagem em operação.

Por isso, desde 4 de setembro, a Autoridade do Canal já limitou o número de travessias para 34 com o objetivo de preservar água, ao passo em que também aposta no projeto de longo prazo do reservatório do Rio Indio, estimado em US$ 1,5 bilhão, como solução para ampliar a segurança hídrica. Em entrevista ao Financial Times, Marotta também adiantou que as travessias podem ser reduzidas a apenas 27 “no pior cenário possível”.

Já no Brasil, a dimensão continental do país faz com que as duas vertentes do El Niño coexistam ao mesmo tempo: enquanto o sul se prepara para excesso de chuva, enchentes e deslizamentos, áreas do norte, nordeste e centro-oeste enfrentam perspectiva de estiagem mais severa, calor e incêndios.

Apesar das dificuldades, José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), avalia que o país chega ao atual El Niño mais preparado do que ao episódio de 2023-2024. “Agora existe uma preparação muito maior”, afirma. Ele destaca a criação de um grupo de trabalho na Casa Civil e a antecipação de medidas de combate a incêndios por Estados como Mato Grosso e Amazonas.”

No fim de julho, o governo brasileiro liberou R$ 1,3 bilhão para ações de enfrentamento aos efeitos do fenômeno climático. Desse montante, R$ 998 milhões serão destinados a ações nas áreas de abastecimento de alimentos, segurança alimentar, saúde e monitoramento hidrológico. O restante será utilizado para financiar ações de prevenção e combate a incêndios florestais, além de reforçar a fiscalização ambiental. “Muitos governos trabalharam [no passado] mais com recuperação do que com prevenção, e isso é algo que estamos vendo de diferente este ano”, diz Marengo.