Antes da visita do Papa, Santuário de Lourdes vai cobrir permanentemente obras de Marko Rupnik, julgado pelo Vaticano por violação. Fátima tem painel de Rupnik, mas não pondera removê-lo nem cobri-lo.

Quem entra no Santuário de Lourdes, no sul de França, através da ampla esplanada principal e caminha em direção à Basílica de Nossa Senhora do Rosário, que preside ao recinto, depara-se de imediato com um conjunto de imponentes painéis de mosaico coloridos, representando várias cenas bíblicas, que se destacam na fachada da igreja. Mas quando, no final do mês, o Papa Leão XIV visitar o santuário, um dos mais importantes lugares de peregrinação católicos de todo o mundo, não os vai ver: o bispo local anunciou que as obras de arte, da autoria do controverso padre jesuíta e artista Marko Rupnik, celebridade do universo católico que caiu em desgraça depois de ter sido denunciado por abusos sexuais cometidos contra várias mulheres, serão cobertas para a visita do Papa e ficarão permanentemente tapadas depois dela.

A decisão, anunciada recentemente pelo bispo de Tarbes e Lourdes, Jean-Marc Micas, numa entrevista à Paris Match, a poucas semanas da chegada de Leão XIV a França, levanta novas questões sobre a investigação do Vaticano ao caso de Marko Rupnik, que se arrasta desde 2023 e que continua sem desenvolvimentos conhecidos, o que tem contribuído para aumentar a frustração das vítimas.

Recentemente, várias das mulheres que denunciaram Rupnik acusaram o Vaticano de falta de transparência em torno do caso. Sobretudo depois de, em Roma, ter começado a circular a informação de que o padre esloveno teria sido absolvido — o que obrigou o Vaticano a desmentir o rumor. Mas a decisão do bispo francês também levanta outra pergunta: com a possibilidade de uma visita do Papa a Portugal no próximo ano a tornar-se cada vez mais concreta, especialmente depois da formalização do convite por parte do Presidente da República, a questão vai colocar-se também ao Santuário de Fátima, que alberga um enorme painel dourado feito por Rupnik na Basílica da Santíssima Trindade, que já motivou polémica no passado. Ao Observador, o santuário garante que não está a ponderar removê-lo nem cobri-lo.

O caso de Marko Rupnik, conhecido como o “Me Too do Vaticano”, acendeu na Igreja Católica o complexo debate em torno da velha questão sobre a separação entre obra e artista. Conhecido pelos seus grandes painéis de mosaicos coloridos e dourados representando cenas bíblicas, Rupnik consagrou-se, ao longo das últimas décadas, como um dos mais importantes artistas plásticos do universo religioso, concebendo e instalando obras em cerca de 200 igrejas e capelas em todo o mundo, incluindo alguns dos principais lugares de culto do universo católico, como o Vaticano, os santuários de Lourdes, Fátima e Aparecida ou a catedral de Madrid.

Rupnik começou a consolidar a sua carreira como artista plástico na década de 1980, por volta dos 30 anos de idade, quando começou a atrair jovens aprendizes para o seu estúdio, onde desenvolveu um estilo próprio e reconhecível de arte sacra em mosaico. Foi nessa altura que fez as suas primeiras vítimas, como contou o Observador neste artigo de 2023. Tanto no seu estúdio como numa comunidade religiosa feminina onde representava o arcebispo de Ljubljana, Rupnik terá abusado sexualmente e psicologicamente de várias mulheres. De acordo com os relatos das vítimas, os abusos cometidos pelo sacerdote esloveno começavam com conversas de teor sexual e jogos eróticos justificados com teologia — e terminavam com violações. Rupnik chegaria, por exemplo, a forçar jovens mulheres a fazerem sexo a três, justificando os atos sexuais com uma evocação da Santíssima Trindade.

Marko Rupnik, o padre-celebridade acusado de abusar de mais de 20 mulheres — e que o Papa quer investigar

As primeiras denúncias contra Rupnik terão sido feitas pelas jovens freiras ainda na década de 1990, mas não terão tido qualquer impacto. O sacerdote esloveno continuou a subir na carreira, fundando um instituto de arte, teologia e cultura em Roma, o Centro Aletti, que se tornaria um dos mais influentes pólos culturais da cidade — e onde, mais tarde, também haveria denúncias de abusos. Aliás, a fixação de Rupnik em Roma terá sido, em parte, uma forma discreta de a hierarquia da Igreja o afastar da Eslovénia, onde se multiplicavam as queixas de abusos. Em simultâneo com estes relatos, que terão sido mantidos em segredo pela hierarquia eclesiástica, Rupnik viria também a ser brevemente excomungado, em 2019, depois de ter absolvido em confissão uma mulher com quem tinha tido relações sexuais, delito grave para o direito canónico. A excomunhão foi levantada pouco depois.

Nada disto impediu, contudo, que Rupnik fosse convidado, já em 2020, para pregar o retiro de Quaresma do Papa e da Cúria Romana, alcançando uma das maiores honras que podem ser dadas a um pregador no contexto católico. Foi só em dezembro de 2022 que a polémica estalou, quando na blogosfera eclesiástica italiana começou a circular a informação de que Rupnik tinha sido alvo de uma investigação interna por ter abusado sexualmente, psicologicamente e espiritualmente de várias mulheres de uma comunidade religiosa na Eslovénia. Contudo, a investigação feita pelos jesuítas a pedido do Vaticano, a partir de uma queixa feita em 2021, não avançara porque os casos estavam prescritos.

Ainda assim, a partir do momento da divulgação da notícia, o caso precipitou-se: nos meses seguintes, a Companhia de Jesus reabriu o caso e deu origem a um processo que acabaria com a expulsão de Rupnik, que encontrou refúgio como padre diocesano na sua Eslovénia natal; a diocese de Roma abriu uma investigação às alegações entretanto surgidas relacionadas com o Centro Aletti; e, após um conjunto de pronunciamentos polémicos do Vaticano que pareciam defender Rupnik, e depois de a Comissão Pontifícia para a Proteção de Menores o ter pressionado nesse sentido, o Papa Francisco decidiu, em 2023, levantar o prazo de prescrição dos crimes para permitir que Rupnik fosse investigado num processo canónico no Vaticano.

O direito canónico é o único que ainda poderá julgar e punir Rupnik, uma vez que, do ponto de vista civil, o prazo de prescrição impede que o sistema judicial esloveno investigue os casos.

A decisão de Francisco deu início a uma complexa maratona judicial canónica, marcada por dúvidas sobre a jurisdição a aplicar a Rupnik e sobre o tipo de investigação que poderia efetivamente ser feita. Tudo teve de ser gerido com pinças, porque, para o Vaticano, este não é só mais um caso: tanto no contexto global (o Me Too em Hollywood) como no contexto particular da Igreja (marcado pela crise dos abusos de menores), o modo como Roma conduzir a investigação a Rupnik é lido como um teste fundamental à eficácia das transformações implementadas pelo Papa Francisco para prevenir os abusos, reforçar a responsabilização e combater as assimetrias de poder e autoridade que facilitam os abusos psicológicos e sexuais na Igreja. Em paralelo, porém, muitos no meio católico começaram a fazer a pergunta que já tinha marcado o debate do Me Too em Hollywood: o que fazer, agora, com as obras de arte de Rupnik?

Em Lourdes, esta pergunta ressoou com especial intensidade, já que é impossível que os gigantes painéis de mosaico que adornam a fachada da basílica passem despercebidos. O bispo local, Jean-Marc Micas, admitiu em 2023 estar a ponderar a remoção dos painéis. A decisão foi implementada de forma gradual. Em 2024, o santuário anunciou que os painéis deixariam de ser iluminados à noite, durante as procissões de velas. No ano seguinte, ano jubilar, os painéis das portas foram cobertos. Agora, com a visita de Leão XIV a aproximar-se, Micas confirmou que a totalidade das obras de Rupnik no santuário vai ser permanentemente coberta.

“Pareceu-nos absolutamente evidente que era necessário, de uma forma ou de outra, ocultar os mosaicos durante a duração da estadia e eles permanecerão cobertos após a sua visita”, disse Micas à Paris Match, sublinhando que o próprio Papa Leão XIV tem estado especialmente empenhado neste tema. “No ano passado, no mês de junho, tive a oportunidade de o encontrar pessoalmente. Ele fez-me imediatamente a pergunta sobre a forma como Lourdes estava a tratar este assunto, para me manifestar o seu apoio quanto à forma como abordámos as coisas. Notou que, da sua parte, tinha dado a instrução à comunicação da Santa Sé para não voltar a ilustrar as publicações com os mosaicos de Rupnik. Na verdade, ele está muito determinado neste dossiê.”

Na entrevista, o bispo francês reconheceu que a ideia de remover ou cobrir as obras não lhe passou pela cabeça em 2022, quando surgiram as primeiras notícias sobre os abusos de Rupnik. Nessa altura, assumiu o bispo, “ninguém questionava as obras de Rupnik”. “Sabia-se que ele era acusado, mas não havia qualquer questão em relação às suas obras”, acrescentou. “Foi só após alguns meses de presença aqui que fui fortemente interpelado por uma vítima de violência sexual a propósito destes mosaicos.”

O encontro com uma vítima de abusos ajudou o bispo a compreender que “estes mosaicos constituem um verdadeiro obstáculo para um certo número de pessoas a quem a mensagem de Lourdes se destina, e que já não podem vir ao santuário por causa da sua presença”. Por isso, acrescentou Micas, “de uma forma ou de outra, é preciso remover este obstáculo”. Antes, noutra entrevista, o bispo já tinha abordado a complexidade do debate. Se, por um lado, “nenhum ser humano se resume jamais ao seu pecado, às suas faltas ou aos seus crimes, por maiores que sejam”, por outro lado a discussão sobre a separação entre obra e artista não parte das mesmas premissas num museu e numa igreja. Em Lourdes, sublinhou, há “pessoas que vêm em busca de consolação e se deparam com a imagem do agressor que perturbou e destruiu as suas vidas”.

Perante um debate particularmente sensível, a decisão não foi imediatamente remover os painéis. Primeiro, o bispo e o reitor do santuário de Lourdes decidiram criar uma comissão para debater o assunto, composta por especialistas que “trariam argumentos contraditórios, mas não num registo afetivo”, para uma discussão “verdadeiramente fundamentada na razão”.

Como previsto, os especialistas, uns em arte sacra e outros em Direito, trouxeram opiniões contraditórias. “Alguns diziam que era evidente que se deviam retirar os mosaicos, e outros que, pelo contrário, não se devia tocar neles”, explicou o bispo à Paris Match. “Segundo estes últimos, uma obra de arte é uma obra de arte, devendo ser distinguida do seu autor, que pertenceria ao domínio público.” O ano jubilar de 2025 trouxe um desafio particular, uma vez que, nesses anos de especial celebração para a Igreja Católica, “as portas das igrejas e das catedrais têm um alcance simbólico extremamente forte”. Em anos jubilares, os católicos são convidados a peregrinar a Roma ou às suas catedrais para atravessar as portas santas — e, em Lourdes, essas portas estavam decoradas com painéis de Rupnik.

“As vítimas tinham-nos feito compreender claramente que estes mosaicos nas portas de Lourdes as impediam de vir procurar a consolação a que têm direito. Era preciso que as portas se abrissem para todos, sem exceção”, disse Micas, explicando a decisão de começar por cobrir as portas em 2025. Agora, a um mês da chegada do Papa Leão XIV a Lourdes, o bispo adiantou que a totalidade dos painéis de Rupnik no santuário será coberta. “Ele não os verá”, assegurou. Leão XIV chega a Paris no dia 25 de setembro, para uma visita apostólica que incluirá um encontro com Macron no Eliseu, uma visita à sede da Unesco, celebrações em Notre-Dame e na Praça da Concórdia, vários encontros e celebrações no santuário de Lourdes e ainda uma passagem a Metz, visita particularmente simbólica para colocar as origens da paz europeia na agenda.

Mas o Santuário de Lourdes não é o único lugar de referência do universo católico a ver-se confrontado com o dilema à volta das obras de Rupnik. O Santuário de Aparecida, o mais importante lugar de culto católico do Brasil, estava precisamente a meio da instalação de enormes painéis concebidos por Rupnik na fachada da basílica quando as primeiras notícias sobre o caso vieram a público. A primeira das quatro fachadas tinha acabado de ser inaugurada e, durante algum tempo, houve incerteza sobre se a execução da maior obra de Rupnik seria concluída, com a instalação das restantes três fachadas. Enquanto em Lourdes a Igreja se esforçava por romper a associação com Rupnik, no Brasil a decisão acabaria por ser no sentido de avançar com os trabalhos.

A questão coloca-se, também, em Portugal. No Santuário de Fátima, que se junta a Lourdes e a Aparecida na lista dos mais importantes santuários católicos do mundo, também há uma importante obra de Rupnik envolvida em polémica: o imponente painel de mosaico dourado que adorna o presbitério da Basílica da Santíssima Trindade, com dez metros de altura e cinquenta de largura. Desenhado por Rupnik e executado pelos artistas do Centro Aletti, o painel é uma das obras mais impactantes de todo o recinto e um dos principais ícones do santuário.