Al Gore, cofundador da Generation Investment Management: “Segurança energética e segurança climática agora são exatamente a mesma coisa” Copyright: World Economic Forum/Jason Alden A turbulência desencadeada pela guerra no Oriente Médio neste ano abriu, parad…

A turbulência desencadeada pela guerra no Oriente Médio neste ano abriu, paradoxalmente, uma oportunidade para a transição energética. A escassez de petróleo e derivados em países importadores fez com que governos ao redor do mundo passassem a buscar alternativas energéticas, transformando segurança energética e segurança climática agora “exatamente na mesma coisa”.

Essa é a avaliação do ex-vice-presidente americano Al Gore, fundador da gestora Generation Investment Management, que há dez anos faz uma análise anual das tendências da economia sustentável. Em entrevista ao Valor, ele ressaltou que as tecnologias verdes estão se tornando mais baratas que as fósseis, o que está destravando investimentos na transição.

Segundo dados reunidos pela gestora, os investimentos em energia renovável somaram US$ 2,2 trilhões em 2025, o dobro dos aportes em fósseis no mesmo ano. “2026 será visto no futuro como um verdadeiro ponto de virada”, disse.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Valor: O novo relatório da Generation destaca como a guerra no Irã está empurrando os países para a transição energética, mais pela segurança energética do que por questões climáticas. Esse choque do petróleo pode ser suficiente para destravar os investimentos necessários para a transição verde?

Al Gore: Este choque do petróleo é o segundo desse tipo pelo qual o mundo passa em apenas quatro anos, e serviu como um lembrete de que a dependência de petróleo, gás e carvão é perigosa para a população mundial, para a economia mundial e para países em desenvolvimento que são os mais vulneráveis às consequências da crise climática e do aumento do custo de vida. Fomos enganados pela falsa promessa de escavar e extrair formas de vida mortas do solo e queimá-las para fornecer energia, lançando resíduos gasosos na atmosfera, como se fosse um esgoto a céu aberto, independentemente das consequências para as famílias de baixa renda, para as gerações futuras, e para a própria natureza, da qual dependemos mais do que nos permitimos perceber. E as temperaturas continuam a subir. Portanto, segurança energética e segurança climática agora são exatamente a mesma coisa.

Valor: Quais são os avanços concretos até agora?

Al Gore: Temos a sorte de estar testemunhando um desenvolvimento da fonte de eletricidade mais barata da história na forma de energia solar. E a única coisa cujo preço cai mais rápido do que os painéis solares são as baterias, que possibilitam usar a energia do sol quando o sol se põe, e a do vento quando ele não está soprando. Temos o que precisamos para resolver esta crise - e incluiria a agricultura regenerativa e tecnologias complexas, como o aço verde, além de veículos elétricos. Neste ano, um em cada quatro carros novos vendidos no mundo será elétrico. O dinheiro que gastamos nessas tecnologias limpas cria três vezes mais empregos em comparação com os gastos com fósseis, proporcionalmente. Pela primeira vez, o mundo está gastando duas vezes mais em energia renovável do que em energia fóssil. Pela primeira vez, o aumento na oferta de energia renovável tornou-se maior do que o aumento geral na energia usada pela economia global. A África está instalando 100 mil painéis solares por dia. Globalmente, 86% de toda a nova energia instalada no ano passado foi renovável. E, para os que estão preocupados com os EUA sob sua liderança atual, 91% de toda a nova energia instalada no país no ano passado foi renovável. Este ano de 2026, acredito, será visto no futuro como um verdadeiro ponto de virada.

Valor: Ao mesmo tempo, há países insistindo nos combustíveis fósseis. A Austrália anunciou investimento em refinaria. No Brasil, o governo está apoiando o esforço da Petrobras para perfurar novos poços na Margem Equatorial. Há risco de a guerra destravar uma onda de aportes em combustíveis fósseis, apenas longe do Oriente Médio?

Al Gore: Os investimentos em combustíveis fósseis vão continuar, embora nós [na Generation Investment Management] não os façamos. A transição é massiva e levará tempo. Mesmo com todo o progresso, o mundo ainda depende de combustíveis fósseis para 80% da energia que consome. Estamos em uma época de mudança histórica, mas não devemos nos iludir achando que isso vai acontecer da noite para o dia. Contudo, devemos nos sentir estimulados pelo fato de estar acontecendo rapidamente, em parte devido a essa guerra trágica no Oriente Médio. Não tenho nenhum comentário a fazer sobre as políticas no Brasil, porque não sou brasileiro e, especialmente em um momento tão sensível em que o Brasil está tendo eleições. Mas, como estamos presentes no Brasil como empresa, noto com muito orgulho o progresso feito pelo povo brasileiro por tantos anos e décadas. Como as duas maiores nações do Hemisfério Ocidental, os EUA e o Brasil têm uma responsabilidade especial de fazer escolhas sensatas.

Fomos enganados pela falsa promessa de escavar e extrair formas de vida mortas do solo e queimá-las para fornecer energia” — Al Gore Valor: O relatório da Generation menciona que a China terá um papel central na transição verde por ter construído uma capacidade de fornecer produtos e tecnologia de energia limpa ao mundo. Por que as potências ocidentais não conseguiram se tornar essa potência verde?

Al Gore: Vou dar o exemplo do meu país. Trump disse em sua campanha há dois anos a executivos de empresas de combustíveis fósseis que se eles lhe dessem US$ 1 bilhão, ele mudaria políticas para torná-las exatamente como eles quisessem. A influência de grandes somas de dinheiro no sistema político dos EUA enfraqueceu o funcionamento da democracia representativa a um grau perigoso. Os EUA falharam em continuar no caminho certo quando Trump se tornou presidente, porque ele mobilizou o dinheiro dos que estão no comando dos combustíveis fósseis, e muitos deles também são influentes na área de alta tecnologia. Mas as previsões estão apontando para aqueles que anseiam por uma mudança nos EUA a acreditam que as eleições [para o Congresso americano], que acontecem em apenas algumas semanas, podem marcar um ponto de virada positivo na direção certa no Congresso. Trump é impopular mesmo entre quem votou nele na última eleição.

Valor: Considerando uma possível vitória dos democratas no Congresso, que tipo de mudança podemos esperar em termos de políticas para combustíveis fósseis nos EUA?

Al Gore: Uma alteração no controle do Congresso tornará possível projetar mudanças significativas nas políticas dos EUA. Mas o presidente mantém o poder de vetar medidas do Congresso. A influência de Trump continuará bastante forte mesmo após a eleição de novembro, ainda que os democratas conquistem o controle da Câmara e do Senado. No entanto, isso vai desacelerar os danos que Trump está causando e vai preparar o terreno para o que esperamos que seja uma mudança nas políticas do Executivo dois anos depois. O fato de essas novas formas de energia renovável serem não apenas mais limpas, mas também mais baratas, fez toda a diferença. Os fluxos de capital [para a transição verde] estavam congelados enquanto as fontes de energia sujas eram mais baratas, graças, em parte, a subsídios. Agora que as novas formas de energia limpa são mais baratas, esses fluxos de capital estão sendo descongelados e fluindo duas vezes mais para novas tecnologias sustentáveis do que para as tecnologias sujas.

Valor: O relatório menciona o exemplo de países africanos importando tecnologias de energia limpa da China. A transição energética pode levar a outra dependência?

Al Gore: Estamos vendo vários estudos de especialistas mostrando que é viável que nações como Estados Unidos e Brasil fabriquem seus próprios painéis solares. Muitos países estão começando a fazê-lo. A luz do sol não precisa passar pelo Estreito de Ormuz, e o vento não precisa de escolta naval para chegar ao seu destino. Há cinco dias, a Tailândia anunciou que está abandonando seu compromisso com o gás natural liquefeito e mudando para a eletricidade solar como sua principal fonte de energia daqui para a frente. No mês passado, o presidente da Coreia disse que esta guerra demonstra que a transição à sustentabilidade não é mais algo que possamos adiar, e que precisamos torná-la prioridade. O primeiro-ministro do Nepal disse que a tragédia no Himalaia é um sinal de alerta e que o mundo precisa resolver a crise climática. Agora que temos as ferramentas para isso, precisamos seguir em frente.

Valor: A ascensão da China como um fornecedor de tecnologia para vários setores tem alimentado medidas protecionistas. A intensificação do protecionismo global pode desacelerar a transição energética?

Al Gore: Como o sol e o vento estão em toda parte, é menos possível que oligarcas controlem quem recebe energia e quem não recebe. Creio que a junção da segurança energética com a segurança climática como um único desafio torna muito mais provável que o mundo todo se mobilize para enfrentá-lo. A China tomou o que muitos economistas consideram uma decisão sábia ao investir pesadamente nessas tecnologias limpas que, obviamente, terão muito mais demanda nos próximos anos. Mas não há nenhuma barreira para que os EUA e o Brasil também façam investimentos em tecnologias limpas, e ambos os países já estão fazendo. Nos EUA, estamos investindo apesar de Trump tentar convencer o país do contrário.

Valor: Desde a COP30, as discussões sobre o clima estão mais focadas em implementação. Como o senhor vê o propósito das COPs hoje?

Al Gore: Acho que as COPs ainda são essenciais para o sucesso dos esforços do mundo para resolver a crise climática. Quando a ONU foi estabelecida no fim da Segunda Guerra Mundial, foi criada de forma que, infelizmente, tornou-a um tanto fraca, sujeita aos caprichos das grandes potências. Isso era o melhor que se podia fazer em 1945. Mas a ONU tem feito um bom trabalho ao organizar as COPs todos os anos. Este ano, na Turquia, o foco será em acelerar a eletrificação, o que é digno. No ano seguinte, a COP32 será na Etiópia. É boa notícia de que a China pediu para sediar a COP33. A China tomou a decisão de usar sua influência a favor do progresso climático, algo que não estava disposta a fazer no passado, a menos que os EUA sentassem com ela. Se eles sediarem a COP33, exibirão ao mundo o progresso fantástico que esperam alcançar até lá.