‘Estadão’ ouviu embaixadores sobre os fatos mais relevantes da história entre Brasília e Washington; lista inclui o envolvimento americano no golpe militar de 1964
BRASÍLIA E SÃO PAULO - A aproximação entre os então presidentes Getúlio Vargas e Franklin D. Roosevelt, que culminaria no engajamento brasileiro na Segunda Guerra Mundial e na construção da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), é o fato mais relevante dos 202 anos de relações diplomáticas entre o Brasil e os Estados Unidos, segundo embaixadores ouvidos pelo Estadão.
A pedido do jornal, dez diplomatas brasileiros de carreira, entre eles ex-chanceleres e ex-embaixadores com atuação destacada nos EUA e olhar histórico para a política externa brasileira, além de um acadêmico de pesquisa reconhecida entre os dois países, traçaram um panorama dos momentos mais relevantes da história conjunta.
Cada um dos 11 consultados indicou de forma livre sua lista com até cinco eventos, fatos ou acordos mais importantes.
O envolvimento do Brasil no maior conflito bélico do século 20, com envio da Força Expedicionária Brasileira (FEB) lutando em solo europeu contra o nazifascismo, foi o fato histórico mais citado, por exatos 90% dos entrevistados.
Eles também lembraram da cessão, para operações dos Aliados, da base Natal (RN), onde Vargas e Roosevelt se encontraram pessoalmente, em janeiro de 1943, para discutir detalhes da participação brasileira na guerra.
Em 1936, Roosevelt foi o primeiro presidente em exercício dos EUA a visitar o País. Em 1940, o governo americano concederia o financiamento de US$ 20 milhões para criação da CSN, em Volta Redonda (RJ). Um ano depois, antes de ingressar na guerra, o Brasil autorizaria os EUA a usarem suas bases litorâneas para patrulhamento no Atlântico e suprimento de tropas.
Em 1942, foram assinados os Acordos de Washington, com financiamento americano à industrialização brasileira e modernização militar, em troca do fornecimento de matérias-primas brasileiras ao esforço de guerra. Meses depois, o Brasil declararia guerra à Alemanha e à Itália, após ter embarcações torpedeadas.
Para os embaixadores, o episódio marcou o alinhamento político e militar entre Brasil e EUA e fortaleceu a cooperação econômica e industrial no pós-guerra. Além disso, abriu espaço para participação do Brasil, com destaque, nos primeiros anos de funcionamento das Nações Unidas.
Em seguida, aparecem como episódios mais marcantes: o reconhecimento da independência brasileira pelos EUA, em 1824, lembrado por 73% dos entrevistados; o apoio americano no golpe militar de 1964 e a aproximação diplomática promovida pelo Barão do Rio Branco, ambos mencionados por 64% deles.
No embalo da proclamação da Doutrina Monroe, em 1823, os EUA reconheceram a independência brasileira de maneira “precoce”, enquanto o processo ainda era “frágil”, tendo sido o segundo país a fazê-lo, logo após a Argentina, lembraram diferentes diplomatas.
Outro fato que mereceu destaque foi a “aliança não escrita” promovida pelo Barão do Rio Branco na chefia do Itamaraty, com o deslocamento do eixo de relações da Europa para Washington. Houve na ocasião a nomeação de Joaquim Nabuco como primeiro embaixador brasileiro nos EUA e a elevação da representação do País para categoria de embaixada, a primeira no mundo, em 1905.
“O próprio Barão se orgulhava de haver transferido de Londres para Washington o eixo diplomático. Na época, aliás, e desde mais ou menos 1870, o mercado norte-americano tinha se tornado o principal para as exportações do País, absorvendo cerca de 36% do total (os principais produtos eram café, borracha, cacau). Mais tarde, os americanos suplantariam os britânicos e se converteriam nos maiores investidores em nossa economia, posição que ocupam até nossos dias”, lembra Rubens Ricupero.
“Do ponto de vista político-diplomático, a relação com os Estados Unidos era vista como uma ‘relação especial’, uma ‘aliança não-escrita’, devido à sua importância preponderante, sendo atacada pelos críticos como um ‘alinhamento automático’ do Brasil às posturas norte-americanas durante a Guerra Fria. Essa situação se prolongou durante boa parte do século 20 até 1961, quando foi abandonada pelo presidente Jânio Quadros, que adotou a chamada Política Externa Independente.”
Os diplomatas também listaram como um dos principais momentos da história o apoio do golpe militar de 1964 no Brasil, com alinhamento diplomático e auxílio econômico fornecido por Washington nos primeiros ao regime militar até 1967.
Houve envolvimento americano ainda na crise política, com a missão secreta de Robert Kennedy a Brasília, em dezembro de 1962. O enviado do presidente John F. Kennedy esteve com o presidente João Goulart, numa evidência de desconfiança entre os governos e divergências sobre nacionalização de empresas e reformas de base. O presidente nunca veio. Os EUA apoiaram grupos de oposição.
Em 2 de abril de 1964, dois dias após o golpe contra Goulart, Washington reconheceu o governo provisório de Ranieri Mazilli. O governo do general Castello Branco romperia com Cuba, em 1965, o Brasil assumiu o comando de um tropa, com envio de mais de 1 mil soldados, para intervenção americana na República Dominicana.
Em menor nível de consenso, os embaixadores também citaram como momentos relevantes aspectos econômicos da cooperação no pós guerra, como a construção da siderurgia brasileira em Volta Redonda (RJ), a contribuição para criação da Embrapa e o estabelecimento da comissão mista entre os países, além da Operação Pan-Americana, a intervenção da Marinha dos EUA na Revolta da Armada, em favor do governo Floriano Peixoto, e a denúncia do acordo militar pelo governo do general Ernesto Geisel.
Os embaixadores também foram instados a opinar sobre o patamar atual das relações entre as duas maiores democracias do hemisfério. Iniciados no ano passado, os choques políticos entre os governos Lula e Trump foram classificados como o momento de maior estresse institucional entre os países, ao longo de dois séculos.
Eles citaram o momento “desafiador” e a possibilidade de “interferência” eleitoral na disputa pela presidência da República, em outubro, a partir de ações do governo Trump.
“A relação com os Estados Unidos é de fundamental importância tanto do ponto de vista econômico quanto político, mas deve se basear nos princípios do respeito mútuo, na não intervenção e na autodeterminação”, diz o ex-ministro Celso Amorim, principal conselheiro internacional de Lula.




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