Patrick Stewart está com os olhos marejados, e a culpa é minha. O ano era 2014 e o ator, ao lado de James McAvoy, visitava o Brasil para divulgar "X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido". Como moderador da coletiva, os dois pediram para conversar

Patrick Stewart está com os olhos marejados, e a culpa é minha. O ano era 2014 e o ator, ao lado de James McAvoy, visitava o Brasil para divulgar "X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido". Como moderador da coletiva, os dois pediram para conversar comigo antes do trabalho. Foi quando Sir Patrick comenta, quase ao acaso: "Sabe, essa não é minha primeira vez no Brasil, mas não lembro exatamente onde me apresentei".

No intervalo entre coletiva e entrevistas, eu corro para fuçar em arquivos de jornal e descubro uma notícia, de maio de 1962: a atriz Vivien Leigh incluiu São Paulo e Rio de Janeiro em sua turnê mundial com a Old Vic Company, trupe do famoso teatro londrino, apresentando peças de seu repertório, inclusive Shakespeare. Entre eles, um jovem Patrick Stewart. Quando lhe digo que seu palco fora o Teatro Municipal, ele respondo, quase num sussurro: "Obrigado".

Hoje, incontáveis fãs ao redor do mundo também choram. Patrick Stewart, o homem que emprestou classe e elegância shakespeareanas à cultura pop, nos deixou aos 86 anos. De sua origem nos palcos e na TV britânica, ele alcançou fama mundial ao interpretar o capitão Jean-Luc Picard em "Star Trek: A Nova Geração" e ao personificar à perfeição o professor Charles Xavier na série "X-Men".

Seu ecletismo foi muito além dos ícones pop. Ele foi Ahab em uma minissérie de TV que adaptou "Moby Dick". Interpretou Leodegrance, pai da Rainha Guenevere, no excepcional "Excalibur". Foi Gurney, mentor de Paul Atreides na versão de David Lynch para "Duna". Personificou Ebenezer Scrooge em uma versão na virada do século de "Um Conto de Natal". Antes disso, claro, havia Shakespeare.

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Stewart estreou nos palcos em 1959 como parte de uma contagem de "Cyrano de Bergerac", mas sua carreira decolou em 1966, após sua viagem pelo mundo ao lado de Vivien Leigh, quando ele se tornou parte da Royal Shakespeare Company, fazendo parte da trupe por quase duas décadas. A obra do bardo foi praticamente gabaritada pelo ator, que interpretou suas palavras em peças como "O Mercador de Veneza", "Hamlet", "A Megera Domada", "Rei Lear", "Macbeth" e "Sonho de Uma Noite de Verão".

Enquanto Stewart lapidava seus músculos dramáticos nos palcos - um relacionamento encerrado em 2016 quando estrelou a montagem de "Terra de Ninguém", de Harold Pinter, ao lado do amigo Ian McKellen -, a TV e o cinema também abraçaram seu imenso talento. Na tela grande sua estreia foi em 1975 com "Hedda", adaptação da peça de 1891 de Henrik Ibsen. Apesar de preferir o teatro clássico a outros gêneros, Stewart logo se mostrou simpático ao mundo da fantasia e da ficção científica ao trabalhar em "Excalibur" (1981), "Duna" (1984) e "Força Sinistra" (1985).

Mesmo que a fatia mais generosa de seu trabalho até então fosse na TV britânica - o que é compreensível devido a seus compromissos no teatro - a mudança para o outro lado do Atlântico era inevitável e se consilidou em 1987, quando ele encabeçou o elenco de uma das apostas mais arriscadas na TV ianque. "Star Trek: A Nova Geração" foi recebido com indiferença pelos fãs da série original, mas logo conquistou seu lugar entre as grandes obras da ficção científica contemporânea.

O sucesso veio, em grande parte, da seriedade com que Stewart abordou o papel de Jean-Luc Picard, comandante da espaçonave Enterprise. Indiferente ao impacto cultural de "Star Trek", o ator acreditava que a série não teria fôlego e logo ele estaria de volta aos palcos britânicos. Sua postura trouxe uma conexão inesperada com o público, e Stewart terminou interrpretando Picard ao longo de inacreditáveis 176 episódios. Não ficou por aí.

Inicialmente incomodado com o linguagar pseudo científico de "Star Trek", o ator posteriormente abraçou seus status como ícone pop. "A Nova Geração" saltou da telinha para o cinema em 1994, e Picard encabeçou mais três filmes: "Primeiro Contato" (1996), "Insurreição" (1998) e "Nêmesis" (2002), e voltou ao streaming em três temporadas de "Star Trek: Picard" entre 2020 e 2023. Em 2011, Patrick Stewart apontou "Star Trek" como o ápice de sua carreira: "O fato é que meus anos interpretando reis, imperadores, príncipes e heróis trágicos na Royal Shakespeare Company foram tão somente uma preparação para sentar na cadeira de comando da Enterprise".

Não contente em se tornar um ícone da cultura pop, Patrick Stewart dobrou a aposta ao assumir o papel do mutante Charles Xavier em "X-Men", de 2000. Sua decisão foi em parte pela vontade de trabalhar com o diretor Bryan Singer, e também pela oportunidade de dividir a cena com seu amigo Ian McKellen - que, ironicamente, foi contra Stewart deixar o teatro para fazer "Star Trek", mas depois voltou atrás em sua opinião.

Depois da primeira aventura, embrionária para que a Marvel depois se tornasse um colosso nos cinemas, Stewart fez mais seis filmes da série - "X2", "O Confronto Final", "X-Men Origens: Wolverine", "Wolverine Imortal", "Dias de Um Futuro Esquecido" e "Logan", que lhe conferiu um destino trágico em 2017. Ainda assim, ele voltou a interpretar o professor Xavier no universo cinematográfico Marvel em "Doutor Estranho no Multiverso da Loucura". "Vingadores: Doutor Destino", que estreia no final do ano, marca também seu último trabalho.

Sua jornada pelo cinema de entretenimento nem sempre foi deliberada. "A Nova Geração" o manteve por muito tempo fora dos palcos, e conseguir outros papeis se tornou um desafio porque, nos anos 1980 até meados da década seguinte, estar atrelado a um personagem tão emblemático diminuia as chances de exercitar os músculos dramáticos em outros gêneros. Essa limitação também contribuiu para que ele entrasse no universo dos "X-Men" e, curiosamente, fizeram seu nome rodar o planeta.

Justamente por isso Stewart agarrava qualquer oportunidade de quebrar essa caixa com afinco. Em 2003, fez um diretor de ópera gay na última temporada da série "Frasier". Fez uma versão de si mesmo estranhamente obcecada por mnudez na série "Extras", de Ricky Gervais e Stephen Merchant. Interpretou um skinhead no barra-pesada "Sala Verde" (2015). Foi John Bosley no malfadado reboot de "As Panteras" dirigido por Elizabeth Banks em 2019.

Fora das telas, era ativista pelos direitos humanos, colocou sua voz pela defesa dos animais, de refugiados, de sobreviventes da violência doméstica, de veteranos que sofriam de distúrbios mentais ao voltar para casa. Uma vida como ator, fosse nos palcos, combatendo o ódio contra mutantes e explorando o grande desconhecido à bordo da Enterprise, lhe conferiram sensibilidade e nobreza para enxergar um mundo em que todos somos iguais.

Ah, e como bom britânico, era fanático por futebol. Fez questão de conhecer o técnico Felipão em 2014 e era torcedor do Huddersfield Town. Quando visitei as filmagens de "X2" em Vancouver, isso lá atrás em 2003, as entrevistas com o elenco dependiam de quem tinha disponibilidade no set. Já meu papo com Patrick Stewart foi encaixado no intervalo da partida do campeonato inglês que ele, assistindo em seu trailer, não podia perder.

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