Em editorial, a Globo tenta se defender do conluio com a Lava Jato e lavar sua reputação no episódio mais corrupto da história do jornalismo brasileiro. Em tom grandiloquente, curiosamente confessional, o texto diz que “há anos, quando confrontado com escânda…

Em editorial, a Globo tenta se defender do conluio com a Lava Jato e lavar sua reputação no episódio mais corrupto da história do jornalismo brasileiro.

Vamos relembrar alguns fatos. Não muitos.

No terceiro volume do livro “A Globo”, de Ernesto Rodrigues, lê-se o seguinte: a emissora se definiu como “grande parceira” da Lava Jato pela jornalista Silvia Faria, em conversa com um dos procuradores de Curitiba. Quem contou foi ela, à época já na condição de diretora de jornalismo da emissora, substituindo Ali Kamel, então promovido a diretor-geral de jornalismo e esportes.

Transcrevo um trecho que resume o objetivo comum dessa parceria: a caçada a Lula. O espírito de vingança está aqui.

“O Lula, a gente sabia, já tinha escapado do Mensalão, foi ali um acordo político, dada a altíssima popularidade dele na ocasião, e que não se quis avançar para investigar o Lula, e todos nós sabíamos disso. Ele não foi investigado porque nenhum partido quis colocar o Lula na CPI. Várias vezes a gente conversou com a liderança do PSDB, que era o arqui-inimigo do PT, e achavam que a crise institucional ia ser um preço muito alto a pagar para pegar o Lula. E aí passou, não foi pego”. Silvia estava convencida, na época de sua entrevista, dezembro de 2018, de que Lula, depois de ter “escapado da vez anterior” [Mensalão], andava de jatinho de empreiteiras “pra lá e pra cá”, fazia “negócios” com elas ganhando “absurdos” com palestras, e integrava “um sindicato” que tinha “um projeto de poder de vinte anos”, e um sistema de corrupção “muito sofisticado e feito para durar muito tempo e muito entranhado”, montado deliberadamente com a “divisão da Petrobras de forma organizada, racional, por partidos”.

A dificuldade para o que ela chamou de “pegar” o ex-presidente se devia, ela disse, à “máquina de comunicação até assustadora” construída a partir do “discurso petista da perseguição política” que, para Silvia, convencia muita gente de que Lula era “um perseguido pela elite branca e pela mídia conservadora”. Silvia acrescentou: “E a figura do Lula em si sempre escapando, sempre dizendo que não sabia de nada. O Palocci acusado: ‘Ah, o Lula não sabia de nada’. O Dirceu acusado: ‘Ah, o Lula não sabia de nada’. Ele nunca sabia de nada. Isso não é crível”.

Também é bom lembrar que João Roberto Marinho, um dos dos donos da Globo, e membros do corpo editorial se encontravam frequentemente com os procuradores, como demonstraram os diálogos da Vaza Jato. Dallagnol aparece ansioso num bate papo de 2015: “Conseguiram pensar na pauta da minha conversa com o Roberto Marinho, na próxima semana? Os pedidos que posso fazer e alternativas que posso colocar na mesa, para apoio da Globo?”

No dia 5 de março de 2016, Dallagnol dialogava com o repórter Vladimir Neto, autor de uma hagiografia de Sergio Moro, pedindo assessoria: “Vc acha que temos que fazer nota sobre a condução coercitiva?”

Valdimir responde: “Não… Pra q? Não vejo o q vcs poderiam ganhar com isso”. Dallagnol: “Rsrs entendi o recado”. Vladimir: “O CF foi muito bem na coletiva ao abordar esse ponto”. O “CF” era o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, o “Carequinha”.

De onde veio isso tem mais. É qualquer coisa, menos “jornalismo profissional”. A Globo tem um enorme talento para tratar o público como idiota. Faz isso há décadas. Foram mais de 50 anos para o mea culpa pequenino, falsiane, do apoio ao golpe de 64. No caso da Lava Jato, não virá nunca porque a Globo é a Lava Jato.