Há uma figura para ser acompanhada com atenção diante do agravamento da crise humanitária em Cuba e da possibilidade de que alguma mudança ocorra na ilha: Rosa María Payá, 37, líder da diáspora cubana nos Estados Unidos , desde 2013 em Miami , na Flórida. Leia mais (08/01/2026 - 23h00)

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1º.ago.2026 às 23h00

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Há uma figura para ser acompanhada com atenção diante do agravamento da crise humanitária em Cuba e da possibilidade de que alguma mudança ocorra na ilha: Rosa María Payá, 37, líder da diáspora cubana nos Estados Unidos, desde 2013 em Miami, na Flórida.

Apoiadora de Donald Trump e próxima ao secretário de Estado, Marco Rúbio, Rosa María carrega na história da família a luta pela abertura política. Seu pai era Oswaldo Payá Sardiñas, quiçá o maior opositor do regime castrista que vivia na ilha, não no exílio, como tornou-se comum. Ele morreu em 2012 em um acidente de trânsito, aos 60 anos.

Um ano depois, Rosa María e a família se exilaram em Miami, o bastião da comunidade cubana nos EUA. As circunstâncias da morte de seu pai são nebulosas. A família acusa o regime de ter provocado o acidente, e um relatório da CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos) indicou responsabilidade do Estado.

Hoje Rosa María faz parte da mesma comissão. Por indicação de Rubio, ela assumiu em janeiro passado uma das sete cadeiras de comissários da CIDH. Uma das figuras mais jovens entre as vozes protagonistas da diáspora cubana, e uma das poucas que nasceu de fato na ilha (em vez de ter nascido nos EUA de pais exilados), ela é uma —se não a— das mais próximas à Casa Branca.

Seu pai liderou o que ficou conhecido como Projeto Varela, um pedido popular com mais de 35 mil assinaturas no início dos anos 2000. A iniciativa queria um referendo para transformar em lei direitos que são previstos na Constituição, mas não exercidos, como o direito à liberdade de expressão, de imprensa e de associação. A repressão silenciou a mobilização.

Oswaldo ganhou prêmios internacionais e se tornou mundialmente conhecido. Ele dizia não apoiar o embargo exercido sobre Cuba. Rosa María tem posição distinta. Em entrevista à Folha, ela refuta a ideia de que a crise humanitária arrasadora na ilha seja intensificada pelas sanções americanas.

Neste ano, ela liderou a assinatura de um acordo entre diferentes grupos da diáspora para tentar chegar a um consenso para uma transição democrática na ilha em caso de queda do regime. Algo raro, dado que a oposição cubana fracassou diversas vezes em se unificar.

A senhora acha que a pressão que os EUA exercem afeta apenas o regime ou também as pessoas? Temos muitos relatos de fome. Há contradição nesta pressão econômica? O que essencialmente afeta a vida dos cubanos e o que levou nossas famílias a viver a catástrofe humanitária que está acontecendo em Cuba é o regime cubano. Essa crise não começou em 3 de janeiro com as restrições ao petróleo.

Até 3 de janeiro [dia da captura do ditador Nicolás Maduro], o regime cubano estava recebendo centenas de milhares de barris de petróleo da Venezuela, que foram usados para enriquecer o conglomerado militar da Gaesa [Grupo de Administração Empresarial S.A., liderado pelos militares, com controle de empresas de turismo, estações de gás, supermercado, transferência de dinheiro e outros], que hoje possui bilhões de dólares.

Não podemos cair em dissonâncias cognitivas quando sabemos que há um regime cujas empresas, que são praticamente privadas, têm bilhões de dólares, e o povo está passando fome, não tem medicamentos, não tem energia e, além disso, está sob os níveis de repressão mais altos que já viveu ou tão altos quanto os vividos nesses 67 anos.

A resposta mais clara a essa realidade foi dada pelo próprio povo, que sai para protestar todos os dias, embora não vejamos protestos massivos porque cortam a eletricidade e porque o regime sai para prender e bater nos manifestantes. E o povo não está gritando "abaixo o embargo", está gritando "abaixo a ditadura".

Como fazer a mudança? Com uma invasão militar, com uma revolta social? Vimos os cubanos saírem às ruas de forma épica em julho de 2021 e sofrerem os níveis repressivos mais elevados da história, com milhares de prisioneiros políticos e praticamente nenhuma solidariedade internacional.

O que está acontecendo hoje, que é qualitativamente diferente, é o que nós identificamos como os três elementos que se combinam e que podem provocar a mudança de sistema.

O primeiro é a demanda por mudança sistêmica. Os cubanos não têm eleições livres há mais de 70 anos. Se há algo que neste momento é eloquente e inegável é que a população está exigindo uma mudança e deve ser protagonista dela.