"Não bebi com Paulo Mendes Campos."
Não escrevi o grande romance brasileiro.
Também não escrevi o pequeno, o que talvez seja mais grave.
Não ganhei o Jabuti, o Camões, o Pulitzer. Nem sequer um prêmio cuja cerimônia fosse realizada numa padaria.
Nunca recebi um telefonema da Academia Brasileira de Letras perguntando o número do meu manequim.
Não fui traduzido para vinte idiomas.
Não morei numa água-furtada em Paris escrevendo um livro genial enquanto devia três meses de aluguel.
Não discuti literatura com Borges num café de Buenos Aires.
Não bebi com Paulo Mendes Campos.
Não joguei frescobol com Millôr Fernandes.
Não tive uma frase roubada por Nelson Rodrigues, principalmente porque ele morreu antes que eu pudesse escrevê-la.
Nunca encontrei Kafka numa repartição pública, embora tenha encontrado repartições públicas suficientes para compreender Kafka.
Não publiquei uma crônica que tenha derrubado um ministro.
Não fui correspondente de guerra.
Não redigi a manchete que parou o país.
Nenhum presidente da república perdeu o sono por minha causa.
Nenhum general mandou recolher meus livros.
Nenhuma das minhas obras precisou ser escondida debaixo do colchão. (Algumas, infelizmente, poderiam ter sido).
Não criei um best-seller.
Não precisei fugir de leitores numa livraria.


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