Liliana Reis admite que a China não tem interesse num fim rápido para a guerra na Ucrânia. O conflito desgasta o poder militar ocidental e aumenta a forte dependência de Moscovo face a Pequim.

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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Hoje contamos com a Liliana Reis, especialista em relações internacionais, para ajudar a explicar os principais conflitos que vão marcando a atualidade a nível internacional. Liliana Reis, bem-vinda, obrigado por ter aceitado o nosso convite.

Bom dia, Vasco, e a todos os ouvintes.

Eu queria começar com uma questão que diz respeito à União Europeia. Está a ser avançado esta manhã que a Islândia vai rejeitar voltar à mesa das negociações para aderir à União Europeia. Houve um referendo e está a avançar na imprensa do país que vai vencer o "não" nesse referendo. Liliana Reis, eu pergunto-lhe o que isto diz sobre a capacidade da União Europeia para agir como um bloco e, neste momento, para atrair os países da Europa que não fazem parte desse bloco?

Há aqui duas questões que me parecem importantes relativamente à capacidade de atração de novos Estados membros para a União Europeia. Se nós observamos, por um lado, no leste da Europa e nos Balcãs, aliás, não apenas com a Ucrânia, mas também com a Moldova, uma tentativa de aceleração do processo de adesão por parte dos próprios Estados candidatos à União Europeia e também nos Balcãs, como eu referia, aquilo que se observa, por outro lado, em relação à Islândia, é uma posição paradoxal. Neste momento, a capacidade de atração da União Europeia é muito maior entre aqueles Estados candidatos que têm efetivamente alguns problemas e algumas dificuldades, eu já não diria apenas do ponto de vista securitário, como é o caso óbvio da Ucrânia e da Moldova, naturalmente, por causa de Transnístria, e os Balcãs, mas não tem essa mesma capacidade de atração em possíveis Estados que não têm efetivamente, ou não partilham dessas mesmas dificuldades, como é o caso da Islândia. Mas isso também revela algo mais. Revela que efetivamente a União Europeia, devido ao desgaste que tem sofrido nos últimos quase cinco anos de guerra na Ucrânia e posições muito contraditórias entre os vários governos. É que nós, se até 2022 falávamos muito mais de Bruxelas para nos referirmos à União Europeia, neste momento, se repararmos, mesmo nas análises que temos feito ao longo dos meses no Gabinete de Guerra, falamos muito mais das posições das capitais. Falamos mais de Paris, Roma, Berlim. Aliás, até falamos na coligação de vontades e adicionamos também Londres nesta equação. E por isso, aquilo que me parece é que efetivamente esse desgaste, até das próprias opiniões públicas dentro dos Estados-membros, pode levar a que outros Estados, como a Islândia, vejam que a adesão, porventura, neste momento de maior fragilidade, não será uma boa opção.

Entretanto, as autoridades ucranianas elevaram ontem para 37 o número de pessoas que morreram no ataque russo contra um armazém perto de Kiev. Liliana Reis, estamos aqui a falar de um dos maiores ataques das últimas semanas por parte de Moscovo. Isto quer dizer que estamos a olhar para um intensificar do conflito na Ucrânia?

Naturalmente. Aliás, aquilo que nós observamos através deste ataque, ou a leitura que podemos fazer, é que possivelmente ataques semelhantes possam vir a tornarem-se mais regulares até ao final do ano. Aliás, a maior parte da imprensa internacional, depois da visita do diretor da CIA, de Ratcliffe, esta semana, alertam para essa possibilidade. Provavelmente, depois dessa visita e dos Estados Unidos terem transmitido uma mensagem de que é porventura a hora de avançar para negociações, por um lado, e por outro lado, também um aviso para que não se escale a guerra para um Estado-membro da Aliança Atlântica. Essa leitura foi efetivamente a leitura mais unânime entre os analistas internacionais, até porque há vários Estados, sobretudo os Estados do Báltica, Estónia, a Lituânia e a Letónia, que começam a temer o que é que Vladimir Putin possa vir a estar a equacionar para o Báltico. Neste momento, e depois deste alerta do diretor da CIA, o que provavelmente o Kremlin está a tentar fazer é efetivamente escalar a guerra na Ucrânia, em solo ucraniano, para que, do ponto de vista negocial, tenha uma posição de maior força. Agora, nós também não conseguimos neste momento antecipar se efetivamente esta visita do diretor da CIA foi suficientemente dissuasora para Vladimir Putin não ensaiar qualquer tipo de ataque, e pode ser efetivamente um ataque não através da guerra convencional, como observamos na Ucrânia, ataques com mísseis e drones, mas pode efetivamente traduzir-se em ataques cibernéticos O que não deixa de ter curiosidade, estávamos a falar há pouco da União Europeia e da Islândia não ter, porventura, qualquer tipo de vontade de aderir à nossa organização em breve. Não deixa de ser também verdadeiramente assinalável que dois dos estados do Báltico, nomeadamente a Estónia, que tem a chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, e a Lituânia, que tem o comissário da defesa da União Europeia, sejam, porventura, dois dos estados, simultaneamente da União Europeia e da Aliança Atlântica, que correm maior risco de escalada de conflito para lá da Ucrânia. Eu tenho vindo a observar, sobretudo nesta última semana, que a maior parte dos comentadores focaram-se na questão do artigo quinto do Tratado do Atlântico Norte e na capacidade de Vladimir Putin testar a Aliança Atlântica, mas não é apenas testar a Aliança Atlântica, é também testar a União Europeia e simultaneamente a sua cláusula de assistência mútua constante no Tratado de Lisboa e mais, e duas das principais figuras deste quadro institucional da União Europeia, uma ligada à política externa e o outro ligado à defesa.

Entretanto, o líder da China, Xi Jinping, partiu esta manhã pro Quirguistão. Vai participar na Cimeira da Organização de Cooperação de Xangai, mas acima de tudo vai encontrar-se com o presidente russo Vladimir Putin. Isto pode significar também uma aproximação entre China e Rússia?

O que nós temos vindo a observar relativamente às sucessivas cimeiras da Organização da Cooperação de Xangai é que há uma evolução significativa não apenas do ponto de vista bilateral, mas também multilateral. Esta, porventura, reveste-se de particular importância. Ainda há pouco falava da visita de Radcliffe à Rússia. Repare que acontece mesmo antes desta deslocação e deste encontro entre Xi Jinping e Vladimir Putin. Nós temos aqui questões do ponto de vista multilateral que me parecem bastante relevantes, nomeadamente de que forma é que o Irão, a Rússia e a China poderão estar a concertar-se do ponto de vista económico, do ponto de vista energético, do ponto de vista da defesa, mas também do ponto de vista político, mas também a questão do encontro bilateral entre Xi Jinping e Vladimir Putin parece-me de particular importância neste momento, porque poderemos perceber de que forma é que a China poderá transmitir efetivamente à Rússia um apoio relativamente à Ucrânia. Ou seja, pode transmitir que a Rússia pode continuar a combater, mas que a sua capacidade de sustentar uma guerra prolongada depende muito mais da própria China, do seu mercado, da tecnologia, dos componentes, da maquinaria industrial e também dos canais financeiros, que a China forneça a Vladimir Putin. O que me parece é que a China tem interesse que Putin termine rapidamente com a guerra na Ucrânia, uma vez que, se nós repararmos, produz uma série de vantagens estratégicas. Repare que mantém os Estados Unidos concentrados, por um lado, no Médio Oriente e na Europa, por outro lado, desgasta os estoques militares ocidentais, quer da Europa, quer também dos Estados Unidos, Europa na Ucrânia e Estados Unidos, sobretudo neste momento, no Irão e no Médio Oriente, aprofunda também a dependência russa da China e enfraquece a arquitetura de segurança euro-atlântica. Agora, vamos ver o que é que naturalmente sairá ao nível das declarações da cimeira e se houver anúncios significativos ao nível da energia, como também é esperado, ao nível do projeto do gasoduto Siberian Force 2, poderá aprofundar efetivamente uma cooperação ao nível da China e da Rússia, o que neste momento não é nada bom para os interesses quer dos europeus, quer dos Estados Unidos.

Temos ainda tempo para olhar para o conflito no Médio Oriente. Eu queria falar, Liliana Reis, sobre um pedido do presidente do Irão, que apela ao povo que aceite as consequências económicas da guerra. Eu queria perguntar se Donald Trump pode contar com alguma espécie de tensão interna no Irão que o ajude a vencer esta guerra.

Isso é cada vez mais claro. Aliás, as dificuldades económicas que o Irão neste momento atravessa, podem efetivamente mobilizar a população iraniana para uma contestação ao regime mais acentuada, ainda que nós saibamos que em regimes não democráticos, essa contestação e essa capacidade de mobilização da opinião pública não tem nunca os mesmos resultados, pelo menos, que terá num Estado democrático. Agora, também é importante assinalar que o líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, publicou logo hoje de manhã uma mensagem dirigida particularmente aos governantes do Golfo, em que apelava à unidade do mundo muçulmano contra o verdadeiro inimigo A mensagem de Khamenei fala de defesa mútua, de soberania, de cooperação entre os países muçulmanos. Provavelmente para antecipar esta possível contestação interna, neste momento, Mostafa Khamenei também quer, pelo menos ensaiar ou tentar, uma união do mundo muçulmano, até porque aquilo que começa a perceber é que vários Estados árabes do Golfo se transformaram numa plataforma também operacional dos Estados Unidos. Aliás, por isso é que também nas últimas semanas vimos ataques a bases norte-americanas em Estados do Golfo. Esta comunicação do líder supremo, por um lado, e por outro lado, as informações que temos de uma contestação cada vez maior a nível interno, faz-nos crer que efetivamente o Irão está a tentar por todos os meios conseguir segurar os seus interesses. Agora repara, há pouco falávamos também da Cimeira da Organização da Cooperação de Xangai. Há aqui outra questão que me parece importante: é que o Irão também faz parte, e veremos se há uma convergência estratégica crescente, ou se irá haver uma convergência estratégica crescente entre o Irão, a China e a Rússia, e se porventura apresentarão mecanismos de coordenação, não apenas econômico, como eu falava, mas também político. Naturalmente, sem uma estratégia operacional conjunta, isso duvido, até porque a China não tem qualquer tipo de interesse nessa estratégia operacional conjunta, mas se houver convergência estratégica do ponto de vista político, isso também fortalecerá, naturalmente, o Irão para as próximas semanas.

Liliana Reis, muito obrigado por ter estado com a Rádio Observador.

Muito obrigada e um bom domingo para o Vasco e para todos os ouvintes.

Muito obrigado, igualmente, Liliana Reis. Aproveito para dizer que este episódio fica disponível já daqui a pouco em podcast.