O DNA de alguns dos últimos neandertais da Europa Ocidental indica que, pouco antes de desaparecerem, esses primos extintos da humanidade não eram um povo fragmentado e com dificuldades para se perpetuar, ao contrário do que sugeriam dados obtidos antes sobre a espécie. Leia mais (06/28/2026 - 06h00)

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O DNA de alguns dos últimos neandertais da Europa Ocidental indica que, pouco antes de desaparecerem, esses primos extintos da humanidade não eram um povo fragmentado e com dificuldades para se perpetuar, ao contrário do que sugeriam dados obtidos antes sobre a espécie.

Em vez disso, seu material genético indica que se tratava de uma população saudável, que se reproduzia normalmente –embora não haja sinais de que, naquela época e lugar, eles estivessem se miscigenando com os Homo sapiens que já tinham chegado ao território europeu milênios antes.

Os dados, apresentados em artigo que saiu no último dia 24 no periódico científico britânico Nature, são uma peça importante para o quebra-cabeças da extinção dos neandertais, cuja herança genômica ainda pode ser encontrada no DNA da maioria dos seres humanos vivos hoje.

De quebra, os autores do estudo também conseguiram obter uma sequência de alta qualidade do genoma de um membro da espécie do sexo feminino, que viveu na Bélgica há 45 mil anos. É apenas a quinta biblioteca genômica desse tipo —há dados de DNA de muitos outros neandertais, mas bem menos completos.

"Até agora, a maioria das questões sobre a diversidade regional dos neandertais tinha sido difícil de investigar", explicou a primeira autora da pesquisa, Alba Bossoms Mesa, doutoranda do Instituto Max Planck de Antropologia Evolucionista, na Alemanha.

"Agora que geramos dados genéticos de múltiplos indivíduos das atuais Bélgica e França, conseguimos examinar as populações neandertais tardias com muito mais detalhes", declarou ela em comunicado oficial.

A visão sobre o que teria acontecido com os Homo neanderthalensis, que estavam entre os parentes mais próximos dos seres humanos de anatomia moderna quando desapareceram há 40 mil anos, passou por mudanças rápidas nas últimas décadas, em grande parte graças ao avanço da tecnologia de análise do DNA antigo.

Na virada deste século, a perspectiva predominante entre os paleoantropólogos era a de que esses hominínios (membros do grupo de primatas mais próximo de nós e que também nos inclui) tinham comportamento e cognição relativamente primitivos perto dos do Homo sapiens.

A chegada dos primeiros membros da nossa espécie aos territórios deles na Europa e no Oriente Médio teria produzido um cenário de competição e/ou conflito, levando-os à extinção em poucos milênios. Segundo essa visão, todas as pessoas vivas hoje descenderiam exclusivamente dos H. sapiens de origem africana que colonizaram todo o planeta.

A partir de 2010, porém, a "leitura" do primeiro genoma razoavelmente completo de um neandertal e sua comparação com o das pessoas de hoje demonstrou que as espécies de hominínios tinham se misturado em algum momento da Era do Gelo, fazendo com que cerca de 2% do DNA das pessoas de hoje que têm origem não africana fosse derivado dos neandertais.

A continuidade dos estudos demonstrou que esse tipo de evento aconteceu múltiplas vezes ao longo de vários milhares de anos, e que o H. sapiens também tinha se miscigenado com pelo menos uma outra espécie de hominínio, os denisovanos.

As novas descobertas levaram os pesquisadores a investigar cenários mais complexos como possível explicação para o fim dos neandertais enquanto espécie distinta da nossa. Uma hipótese que também surgiu a partir dos dados de DNA é que mudanças ambientais, ou mesmo a competição com os seres humanos de anatomia moderna, teriam levado à fragmentação e ao encolhimento das populações da espécie, que já seriam relativamente pequenas e isoladas mesmo antes da chegada do H. sapiens aos mesmos habitats.

No caso de um neandertal da Rússia, por exemplo, os cientistas identificaram alto grau de consanguinidade –o indivíduo parece ter sido gerado pela união de dois meio-irmãos. Essa falta de opção de parceiros é letal para as populações no longo prazo, já que as uniões consanguíneas aumentam muito o risco de doenças genéticas e mortalidade infantil.

No novo estudo, porém, a análise do material genético de 27 neandertais tardios não mostrou nada parecido com o caso do indivíduo russo.