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Numa sala de orientação de trabalho de conclusão, a cena se repete todo semestre: o estudante de Sistemas de Informação chega com um aplicat...
"Eu quero fazer um aplicativo"
A distinção mais usada no mundo para separar essas coisas está no Manual de Frascati, o documento da OCDE que define o que conta como pesquisa e desenvolvimento para fins de estatística e de política pública (OECD, 2015). Ele separa três atividades: a pesquisa básica, que busca conhecimento novo sobre os fundamentos dos fenômenos sem mirar uma aplicação particular; a pesquisa aplicada, que também busca conhecimento novo, mas dirigido a um objetivo prático específico; e o desenvolvimento experimental, que usa conhecimento existente para produzir ou melhorar produtos e processos. E fixa cinco critérios para uma atividade contar como P&D: ela precisa ser nova, criativa, incerta quanto ao resultado, sistemática e transferível ou reprodutível.
Antes de mostrar como transformar um em outro, vale olhar de perto os dois métodos que o estudante e o orientador estão, sem saber, defendendo.
Dois métodos, uma bomba d'água e uma nave
Cento e dezesseis anos depois, em abril de 1970, três astronautas da Apollo 13 estavam trancados no módulo lunar de uma nave avariada, e o dióxido de carbono subia. O módulo lunar tinha filtros cilíndricos para duas pessoas; o módulo de comando, inutilizado, tinha filtros quadrados em abundância. Quadrado não entra em redondo. A equipe em solo tinha algumas horas e uma restrição absoluta: qualquer solução precisava ser montada com o que já estava dentro da nave. O resultado foi um adaptador feito de sacos plásticos, cartões plastificados de um manual de bordo, mangueiras das roupas espaciais e muita fita adesiva, com as instruções transmitidas por rádio (National Air and Space Museum, [s. d.]). Funcionou.
Ninguém em Houston testou uma hipótese sobre a natureza. Eles resolveram um problema mal compreendido, sob prazo, com os recursos disponíveis, e a solução foi "boa o suficiente" no único sentido que importava. É a definição de Billy Koen para o método de engenharia: o uso de heurísticas para provocar a melhor mudança possível numa situação mal compreendida, dentro dos recursos disponíveis (Koen, 2003). Heurística, para Koen, é qualquer regra que ajuda a decidir sem garantir o acerto: "faça um protótipo antes", "dê margem de segurança", "aloque recursos para o ponto fraco", "na dúvida, use o que já funcionou". O cientista quer estar certo; o engenheiro quer entregar.
Fonte: elaborado pelo autor com base em Popper (2013), Koen (2003), Snow (1855) e National Air and Space Museum ([s. d.]).
A ponte: design science
Tipos de pesquisa: três botões, não uma gaveta
Todo manual de metodologia traz uma classificação de pesquisas, e todo estudante tenta decorá-la como se fosse uma lista de gavetas onde o trabalho precisa caber inteiro. Não é. A classificação mais difundida no Brasil, a de Antonio Carlos Gil, organiza as pesquisas por três critérios independentes (Gil, 2022): quanto à finalidade (básica ou aplicada), quanto aos objetivos (exploratória, descritiva ou explicativa) e quanto aos procedimentos (bibliográfica, documental, experimental, levantamento, estudo de caso, pesquisa-ação e outras). São três botões giratórios, e toda pesquisa tem os três em alguma posição ao mesmo tempo.
Fonte: elaborado pelo autor com base em Gil (2022).Nota: a design science research não consta da classificação de Gil; ela é tratada aqui como procedimento por Dresch, Lacerda e Antunes Júnior (2015).
Experimente: monte o seu tipo de pesquisa
Pesquisa básica, exploratória, bibliográfica
Quanto à finalidade, busca conhecimento novo sem mirar, de saída, uma aplicação específica. Quanto ao objetivo, quer se familiarizar com um problema ainda pouco conhecido e levantar hipóteses. Quanto ao procedimento, os dados vêm de material já publicado.
Exemplo em sistemas de informação: Revisão sistemática do que se sabe sobre o abandono de aplicativos de saúde nos primeiros trinta dias de uso.
Em quem confiar: a fonte é o alicerce
Três camadas de distância do fato
Revisado por pares não é sinônimo de verdadeiro
Fonte: elaborado pelo autor com base em Van Noorden (2023).Nota: a análise original considera países com mais de 100 mil artigos publicados no período; o Brasil não figura entre os oito primeiros.




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