Estudo feito em 22 UTIs brasileiras indica que banho diário com clorexidina pode diminuir a presença de bactérias resistentes em pacientes internados
Priorizar nos meus resultados Google A guerra contra as chamadas bactérias resistentes, capazes de escapar da ação dos antibióticos mais comuns, também pode ser travada com medidas tão pequenas quanto esses microrganismos invisíveis. Uma delas é dar banho nos pacientes que estão em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) com um sabão à base de clorexidina, um antisséptico capaz de reduzir a presença de bactérias na pele.
É o que mostra um novo estudo conduzido pelo Hcor, no âmbito do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS), do Ministério da Saúde, que foi publicado recentemente na revista científica The Lancet Regional Health – Americas. Os pesquisadores avaliaram se uma medida simples como substituir o banho tradicional pelo uso diário de clorexidina poderia ajudar a conter a disseminação de microrganismos difíceis de combater dentro das UTIs.
A pesquisa avaliou cerca de 16 mil pacientes em 22 UTIs brasileiras ao longo de um ano e meio e é considerado um dos maiores estudos clínicos já realizados no Brasil sobre resistência antimicrobiana, considerada uma das principais ameaças à saúde global pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
O estudo, batizado de CLEAN-IT, mostrou que o banho diário com clorexidina reduziu em 27% a detecção de bactérias multirresistentes em pacientes internados em UTIs. Além disso, a medida também esteve associada a um menor uso de antibióticos de última linha, medicamentos reservados para situações em que outras opções já não funcionam.
Os resultados fazem parte do projeto Impacto-MR, plataforma colaborativa lançada em 2018 para pesquisas voltadas ao combate às bactérias multirresistentes. No triênio 2024–2026, além do Hcor, também permanecem conduzindo o projeto o Hospital Sírio Libanês, o Hospital BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo e o Einstein Hospital Israelita.
“O estudo mostra que, em um país com um sistema de saúde extremamente complexo como o nosso, que envolve tanto a rede pública quanto a privada e tem dimensões continentais, é possível levar uma intervenção relativamente simples para a vida real, porque o banho já faz parte da rotina dos pacientes internados. Na prática, estaríamos apenas substituindo um produto por outro”, comenta Bruno Tomazini, médico intensivista e responsável pelo projeto Impacto-MR nas frentes do Hcor e do Hospital Sírio Libanês.
O CLEAN-IT acompanhou 16 mil pacientes internados em 22 UTIs brasileiras entre 1º de agosto de 2022 e 31 de dezembro de 2023. As unidades foram sorteadas para alternar períodos em que os pacientes recebiam banho diário com clorexidina e períodos em que era mantida a rotina habitual, com água e sabão. Após cada fase, houve um intervalo de um mês antes da troca de estratégia.
A clorexidina é um antisséptico amplamente usado na medicina para reduzir a quantidade de bactérias na pele antes de procedimentos cirúrgicos. Quem vai passar por uma cirurgia cardíaca ou abdominal, por exemplo, costuma tomar um banho com esse produto antes da operação para diminuir o risco de infecções.
“O desafio era saber se esse benefício também poderia ser obtido em pacientes internados na UTI, um ambiente muito mais complexo, onde estão os doentes mais graves e circulam as bactérias mais resistentes”, explica Tomazini.
Pesquisas realizadas na Europa e nos Estados Unidos já haviam mostrado que a estratégia reduzia infecções da corrente sanguínea relacionadas a cateteres. Mas esse é apenas um dos muitos tipos de infecção que podem acometer pacientes críticos.
Por isso, o CLEAN-IT buscou responder uma pergunta mais ampla: será que o banho com clorexidina conseguiria reduzir diferentes infecções e diminuir a circulação de bactérias resistentes?
Segundo Tomazini, os pesquisadores utilizaram uma metodologia para garantir que os resultados não fossem influenciados por outras medidas adotadas pelos hospitais durante o período de acompanhamento. A única mudança foi substituir o sabonete comum pelo sabonete com clorexidina, uma estratégia muito mais barata do que o uso de lenços umedecidos com o mesmo antisséptico, utilizados em alguns países.
O principal desfecho analisado foi a ocorrência de três infecções hospitalares relacionadas ao uso de dispositivos médicos, consideradas indicadores padronizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa):
Esses diagnósticos seguem critérios rigorosos. “No dia a dia, um médico pode dizer para a família que o paciente está com um começo de pneumonia. Mas, para afirmar tecnicamente que se trata de uma pneumonia associada ao respirador, por exemplo, é preciso cumprir uma série de critérios definidos pela Anvisa. Do ponto de vista médico e epidemiológico, essas infecções têm nome, sobrenome, CPF e RG“, compara Tomazini.
Nesse desfecho principal, não houve diferença entre os pacientes que tomaram banho com água e sabão e aqueles que receberam clorexidina. Mas, segundo o pesquisador, essas infecções representam apenas “a ponta do iceberg“. “São três infecções dentro de um universo gigantesco. Por isso, também analisamos outros indicadores”.
Os chamados exames de cultura microbiológica entraram nessa lista. Sempre que um paciente apresenta sinais de infecção, os médicos coletam sangue, urina ou secreções para identificar se há crescimento de bactérias ou fungos e descobrir quais antibióticos funcionam contra aquele microrganismo.
Foi justamente aí que surgiu um dos principais achados do estudo. Os pacientes que receberam banho com clorexidina apresentaram 27% menos culturas positivas para bactérias resistentes aos antibióticos. Em outras palavras, entre aqueles que precisaram fazer esses exames, houve uma redução de quase um terço na identificação de microrganismos multirresistentes, sugerindo menor circulação dessas bactérias dentro das UTIs.
Na prática, quando um paciente grave apresenta sinais de infecção, os médicos iniciam antibióticos imediatamente, antes mesmo de o resultado da cultura ficar pronto. Quando o exame identifica a bactéria, o tratamento pode ser ajustado; se o resultado é negativo, muitas vezes o antibiótico é suspenso.
Nas UTIs que adotaram o banho com clorexidina, houve redução no uso de antibióticos, especialmente daqueles classificados pela OMS como de “reserva”, medicamentos destinados às infecções mais graves e difíceis de tratar.
Para os pesquisadores, os dois resultados estão diretamente relacionados. Com menos circulação de bactérias resistentes, diminui também a necessidade de recorrer aos antibióticos mais potentes.




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