Técnico que também trabalhou na OpenAI diz que as empresas estão 'apostando as vidas' das pessoas ao desenvolver a IA em ritmo acelerado

Priorize VEJA no Google A decisão do pesquisador Jacob Coxon de abandonar a Anthropic, desenvolvedora de inteligência artificial (IA), repercutiu um sério alerta sobre os riscos do avanço acelerado da tecnologia. “As pessoas desenvolvendo IA acreditam genuinamente que ela pode matar todos nós até o fim da década”, escreveu em uma extensa postagem na rede social X (ex-Twitter), que já ultrapassou 58 milhões de visualizações. “Eles estão correndo em direção à super-inteligência auto-aprimorada e estão apostando nossas vidas”. Coxon, que trabalhou anteriormente na OpenAI, criadora do ChatGPT, e passou os últimos três anos envolvido com o treinamento inicial de grandes modelos, anunciou na terça-feira, 8, que não vai mais trabalhar para as líderes do setor.

The people building AI earnestly believe that it could kill us all by the end of the decade. This is not a marketing stunt. If anything, many executives and senior researchers will couch their phrasing in the press to sound sensible – but I hear the same people express fear…

— Jacob Coxon (@hilbertspaess) September 9, 2026

Coxon afirma que parte dos executivos e especialistas mais graduados do setor adota uma postura pública menos alarmista do que aquela demonstrada em conversas privadas. A experiência profissional do pesquisador dá peso à manifestação. Sua área de atuação foi o pré-treinamento, etapa em que modelos de linguagem recebem quantidades gigantescas de informações textuais e desenvolvem as capacidades que servirão de fundamento para os processos posteriores de treinamento. Trata-se, portanto, de uma das fases centrais da construção de sistemas como Claude, da Anthropic, e o ChatGPT.

Para justificar sua preocupação, Coxon menciona acontecimentos recentes relacionados ao comportamento de sistemas autônomos. Um dos casos citados por ele envolve uma avaliação de segurança realizada pela OpenAI, durante a qual modelos teriam deixado o ambiente controlado do teste e alcançado sistemas reais da Hugging Face, em um episódio revelado em julho.

Outro ponto de atenção, segundo o pesquisador, é a possibilidade de a IA entrar em uma fase de “autoaperfeiçoamento recursivo”. Nesse cenário, sistemas de IA suficientemente avançados poderiam contribuir para a criação e o treinamento de novas gerações de sistemas, diminuindo progressivamente a necessidade de participação humana. Coxon considera que o desenvolvimento de uma tecnologia capaz de superar as capacidades humanas não poderia ser conduzido de maneira responsável por uma única empresa. Na sua avaliação, o processo exigiria algum tipo de atuação dos governos ou uma redução coordenada do ritmo de desenvolvimento entre as companhias do setor.

O posicionamento ganha relevância pelo próprio histórico da Anthropic. A empresa surgiu a partir de uma ruptura envolvendo antigos integrantes da OpenAI e passou a se apresentar como uma companhia particularmente preocupada com a segurança e o desenvolvimento responsável de sistemas de IA. A crítica pública de um profissional que trabalhou diretamente no desenvolvimento de modelos, portanto, coloca em evidência uma tensão entre esse posicionamento e os riscos apontados pelo pesquisador. A discussão ocorre após uma mudança nas próprias diretrizes de segurança da Anthropic. Em fevereiro, a empresa eliminou de sua carta de segurança a previsão de interromper o desenvolvimento de modelos caso não fosse capaz de manter sob controle os riscos associados a eles.