Nessa cadeia, os conhecimentos obtidos em cada fase orientam e podem modificar as decisões das etapas seguintes

Nessa cadeia, os conhecimentos obtidos em cada fase orientam e podem modificar as decisões das etapas seguintes

Christine Sandu (via Unsplash) - 16.jan.2026

25.out.2026 (domingo) - 6h40 Priorize o Poder no Google

Por João Batista CalixtoO desenvolvimento de um novo medicamento está entre os empreendimentos científicos e tecnológicos mais complexos. Transformar uma hipótese sobre uma doença em um produto capaz de beneficiar pacientes exige mais do que identificar uma molécula biologicamente ativa.

É necessário demonstrar progressivamente sua atividade farmacológica, propriedades adequadas para o desenvolvimento. Além da segurança e capacidade de produzir benefício clínico.

Essa trajetória integra química medicinal, biologia molecular e celular, farmacologia, toxicologia, farmacocinética, formulação, escalonamento. E ainda são necessárias etapas como a pesquisa clínica e as exigências regulatórias.

Pesquisa não clínica e clínica não são etapas independentes, mas partes de uma única cadeia de desenvolvimento. Nessa cadeia, os conhecimentos obtidos em cada fase orientam e podem modificar as decisões das etapas seguintes. Cientificamente, fazem parte de um contínuo.

Antes da exposição humana, a pesquisa não clínica procura responder questões essenciais como: a molécula funciona? Qual é seu mecanismo de ação? Qual é a relação dose–efeito? Como é absorvida, distribuída, metabolizada e eliminada? Qual é sua exposição sistêmica? Quais são seus efeitos desejáveis e indesejáveis? Quais são seus limites de segurança?

A seleção do candidato começa muito antes dos estudos toxicológicos regulatórios. É necessário validar o alvo, desenvolver ensaios confiáveis, identificar moléculas ativas (hits), transformá-los em moléculas líderes (leads). E mais: otimizar suas características por química medicinal e relações estrutura–atividade (candidato a medicamento).

E a transição para a clínica é um dos momentos mais delicados e desafiadores do processo. Antes de administrar uma nova molécula a seres humanos, é necessário construir um conjunto coerente de informações farmacológicas, farmacocinéticas e toxicológicas. E é necessário e seguir as determinações da Anvisa, FDA e EMA

As boas práticas de laboratório estabelecem requisitos para planejamento, execução, monitoramento, registro, relato e arquivamento dos estudos não clínicos de segurança. Esses estudos integram farmacologia, toxicologia e toxicocinética, relacionando dose e exposição nos diferentes modelos.

O objetivo não é demonstrar que o medicamento será seguro no ser humano. Isso somente a experiência clínica pode estabelecer.

O objetivo é reduzir o risco da primeira exposição humana. E além disso, fornecer base científica para a escolha da dose inicial e o monitoramento dos participantes.

A fase clínica I, geralmente realizada em voluntários sadios, procura caracterizar tolerabilidade, farmacocinética, efeitos farmacológicos e, quando possível, relações dose–resposta.

Essa etapa não começa do zero. É continuação direta dos estudos não clínicos. Dados de eficácia, segurança, farmacocinética e toxicocinética obtidos em animais são imprescindíveis para interpretar os dados humanos

E os mecanismos moleculares e biomarcadores identificados experimentalmente podem ser avaliados clinicamente. Eventos observados na clínica também podem eventualmente, levar a novos estudos não clínicos.

A fase II desloca o foco para pacientes. E busca demonstrar preliminarmente a eficácia e definir a dose.

Na fase III, busca-se ampliar o número de participantes e confirmar eficácia e segurança em condições próximas da utilização clínica.

E essa retroalimentação caracteriza a medicina translacional: do laboratório para o paciente e do paciente de volta ao laboratório.

A elevada taxa de insucesso mostra que tradução entre essas etapas continua sendo um dos maiores desafios da inovação farmacêutica.

O Brasil dispõe de competência científica, biodiversidade, universidades, institutos de pesquisa, hospitais e empresas farmacêuticas capazes de atuar em diferentes etapas do desenvolvimento de um novo medicamento.