Poucas empresas contam tanto da história industrial argentina quanto a Techint. E poucas provocam reações tão polarizadas. Para uns, é o retrato do capital...

Poucas empresas contam tanto da história industrial argentina quanto a Techint. E poucas provocam reações tão polarizadas. Para uns, é o retrato do capitalismo de compadrio; para outros, uma das raras multinacionais latino-americanas capazes de competir em produtos de alta tecnologia. O debate atual, inflamado pelos ataques de Javier Milei a Paolo Rocca, costuma misturar duas perguntas que precisam ser separadas.

A Techint nasce em Milão, em 1945, pelas mãos de Agostino Rocca, engenheiro que havia dirigido a siderurgia estatal italiana. No ano seguinte, ele se instala em Buenos Aires. Os primeiros grandes contratos vieram das obras de infraestrutura do peronismo, como o gasoduto entre Comodoro Rivadavia e Buenos Aires. Em 1954, a empresa começa a fabricar tubos sem costura em Campana, a futura Siderca, e nos anos 1960 entra nos laminados a frio com a Propulsora Siderúrgica, em Ensenada.

Ou seja, a Techint cresceu dentro do modelo de substituição de importações: proteção tarifária, regimes de promoção industrial e compras de estatais como YPF e Gas del Estado.

A virada dos anos 1990

O paradoxo é que a Techint também saiu vencedora da liberalização de Menem. Paolo Rocca, à frente do negócio de tubos desde 1990, assumiu o comando do grupo numa década de forte expansão para os aços planos, impulsionada sobretudo pela privatização da Somisa, em 1992. Vieram depois a Tenaris e a Ternium, com operações no México, Brasil, Colômbia e Estados Unidos. Hoje a Techint integra o grupo das 30 maiores produtoras de aço do mundo, e cerca de 85% dos negócios de Rocca vêm da siderurgia.

Os privilégios são um tema legítimo

Concentração de mercado, preços internos acima da paridade internacional, uso intensivo de medidas antidumping e proximidade com governos de todas as cores são críticas legítimas. O próprio Paolo Rocca foi processado em 2018 no caso dos Cuadernos. Discutir tudo isso é saudável e necessário.

O pano de fundo é uma siderurgia em retração. Em 2024, a Ternium despachou 513 mil toneladas a menos, queda de 23% sobre 2023. Na Acindar, da ArcelorMittal, a produção da planta de Villa Constitución caiu pela metade, de 1,2 milhão para 600 mil toneladas anuais. E, enquanto a Argentina abre, os Estados Unidos de Trump aplicam tarifas de 50% sobre o aço importado de todas as origens, inclusive argentino.

O argumento de Milei tem um ponto: tubos 25% mais baratos melhoram a rentabilidade de um projeto exportador. Mas a conta não termina aí. Tubos sem costura para petróleo e gás estão entre os produtos mais complexos da pauta argentina. Capacidades produtivas desse tipo, engenharia, fornecedores, mão de obra qualificada, levam décadas para ser construídas e podem desaparecer em poucos anos. O risco é uma Argentina que exporta gás de Vaca Muerta por dutos importados: mais renda de recursos naturais, menos complexidade econômica.

Nenhuma grande economia industrializada se desenvolveu só pela abertura irrestrita. Estados Unidos, Alemanha, Japão, Coreia do Sul e China usaram, em diferentes momentos e intensidades, proteção, crédito direcionado e coordenação estatal. A lição coreana, como mostrou Alice Amsden, não é a proteção em si, mas a proteção condicionada: apoio temporário em troca de metas de exportação, investimento e preço. O contrário do protecionismo cartorial não é a abertura sem estratégia, e sim a disciplina de desempenho.