Falta cerca de um ano para o pontapé inicial da Copa do Mundo Feminina de 2027, sediada no Brasil. Será a 10a edição do Mundial e, pela primeira vez, a competição será disputada na América do Sul.A equipe comandada por uma nova geração, que reúne nomes experientes como Marta e jovens promessas como Tainá Maranhão, representa o presente do futebol feminino brasileiro. Mas a trajetória que levou o país a sediar uma Copa do Mundo começou muito antes, graças às at
Falta cerca de um ano para o pontapé inicial da Copa do Mundo Feminina de 2027, sediada no Brasil. Será a 10ª edição do Mundial e, pela primeira vez, a competição será disputada na América do Sul.
A equipe comandada por uma nova geração, que reúne nomes experientes como Marta e jovens promessas como Tainá Maranhão, representa o presente do futebol feminino brasileiro. Mas a trajetória que levou o país a sediar uma Copa do Mundo começou muito antes, graças às atletas que enfrentaram preconceitos, falta de estrutura e pouca visibilidade para abrir caminho para as gerações seguintes.
Entre essas pioneiras está Cenira Sampaio. Ex-meia e um dos grandes nomes da história do futebol feminino brasileiro, ela foi capitã da Seleção Brasileira nas duas primeiras edições da Copa do Mundo Feminina, disputadas em 1991, na China, e em 1995, na Suécia.
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Hoje, aos 61 anos, Cenira conta que começou a jogar bola aos 7 anos de idade, na rua, com os irmãos.
“Eu sempre joguei bola com meus irmãos, meus parentes. Eu comecei com 7 anos jogando bola na rua, foi assim que tudo começou”, conta.
No Brasil, entre 1941 e 1979, as mulheres foram proibidas de jogar futebol. Em 1941, durante o Estado Novo, foi publicado o Decreto-Lei nº 3.199, de 14 de abril, que dizia, em seu artigo 54, que: "Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país".
Em 1965, já durante a Ditadura Militar, foram detalhados os esportes considerados “incompatíveis” para as mulheres: lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, polo aquático, polo, rugby, halterofilismo e beisebol.
Foi nesse contexto de proibição que Cenira deu seus primeiros chutes na bola, apoiada por sua mãe. “Minha mãe sempre incentivou, meu pai não gostava, queria que eu jogasse basquete. Eu joguei um pouquinho de basquete, mas eu gostava mais de futebol.”
Em 1979, o decreto que proibia a prática do esporte por mulheres foi revogado, culminando na regulamentação da modalidade em 1983.
Cenira conta que começou jogando futebol de areia pelo Leminho. Durante um campeonato disputado em Cabo Frio, o proprietário do Esporte Clube Radar, impressionado com o desempenho das atletas após uma derrota para o Leminho, convidou a equipe para integrar o recém-criado departamento de futebol feminino do clube. Foi nesse momento que a ex-jogadora fez a transição da areia para o campo, iniciando a trajetória que a levaria à Seleção Brasileira. O Radar foi apenas o primeiro clube de sua carreira de sucesso, com passagens por Flamengo, Vasco, Corinthians, Portuguesa, Palmeiras e São Paulo.
A ex-jogadora lembra que, apesar de o Brasil ter participado da edição experimental do Mundial, em 1988, ela não foi convocada. A oportunidade veio três anos depois, quando disputou a primeira Copa do Mundo Feminina oficial da Fifa, realizada na China, em 1991, carregando a braçadeira de capitã da Seleção Brasileira.
"Em 1988 já teve uma experimental, mas eu não fui. Em 1991 foi oficial mesmo. Eu fui a primeira capitã na China", relembra.
Quatro anos depois, Cenira voltou a defender a Seleção na Copa do Mundo de 1995, disputada na Suécia. Ela destaca o orgulho de ter participado do início da trajetória da equipe em competições internacionais.
Naquela época, porém, a realidade era muito diferente da estrutura encontrada pelas atletas atualmente. Segundo Cenira, a falta de investimento fazia parte da rotina das jogadoras.
"Antigamente, a gente jogava praticamente em campo de areia. A gente treinava o dia inteiro, comprava nossa própria marmita para poder se alimentar. Era totalmente diferente de hoje."
Mesmo diante das dificuldades, o futebol transformou sua vida. Cenira conta que foi por meio do esporte que conseguiu concluir a graduação em Educação Física e conhecer diversos países.
"Graças a Deus, foi o futebol que me permitiu fazer a minha faculdade e conhecer cinco continentes."
Para Cenira, ela e as demais atletas de sua geração tiveram um papel fundamental para que o futebol feminino conquistasse espaço no Brasil. Embora considere que ainda falte reconhecimento às pioneiras, ela acredita que o trabalho realizado abriu caminho para as novas gerações.


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