Presidente defendeu o Pix, cobrou regras para plataformas digitais e pediu governança internacional para a inteligência artificial.
O presidente Lula (PT) afirmou nesta terça (22), na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, que o Brasil não aceitará pressões para privatizar o Pix. Ao defender o sistema público de pagamentos, Lula disse que ele ampliou a inclusão financeira para milhões de brasileiros.
“Não vamos ceder às pressões de multinacionais que querem privatizar o nosso PIX, uma infraestrutura de pagamentos pública e gratuita que fez da inclusão financeira uma realidade para milhões de brasileiros”, declarou o presidente no plenário da ONU, em Nova York.
Lula também voltou a cobrar regulação das grandes empresas de tecnologia e regras internacionais para a inteligência artificial. “Vivemos uma revolução tecnológica sem precedentes, com grandes riscos e oportunidades. Um punhado de tecno-oligarcas quer ressuscitar uma versão de neoliberalismo digital, sem regras nem transparência”, disse.
O presidente detonou empresas que não assumem os impactos de seus produtos sobre os usuários. “Empresas que conhecem os riscos de seus produtos transferem para as famílias a impossível tarefa de enfrentar os algoritmos”, afirmou.
Na defesa de mecanismos globais de controle, Lula afirmou que poucos países e empresas não podem concentrar o desenvolvimento e o comando da inteligência artificial (IA). A posição brasileira prevê participação dos governos, proteção de dados e de direitos individuais e responsabilização por crimes no ambiente digital.
O governo brasileiro também defende que a tecnologia contribua para educação, saúde e desenvolvimento econômico, sem ampliar a distância entre países ricos e pobres. Lula argumenta que a inteligência artificial deve reduzir desigualdades e não alimentar conflitos.
O debate internacional sobre o tema cresceu nos últimos anos. Em 2023, representantes de 28 países, incluindo Brasil, Estados Unidos e China, participaram no Reino Unido da primeira Cúpula de Segurança da Inteligência Artificial e aprovaram a Declaração de Bletchley, voltada à cooperação diante dos riscos da tecnologia.
Mais de 100 países participaram da Cúpula de Ação sobre Inteligência Artificial, em Paris, em 2025. Em julho deste ano, a ONU realizou em Genebra o primeiro Diálogo Global sobre Governança da Inteligência Artificial, criado para discutir regras, riscos e cooperação entre os países.
No mesmo discurso, Lula atacou as plataformas de apostas online. “A indústria bilionária das bets transforma o vício em lucro. Sua disseminação vertiginosa está endividando e destruindo lares. O Brasil não vai tolerar esse modelo de negócio”, afirmou.
O Brasil abriu o debate de líderes da Assembleia Geral, como estabelece a tradição da organização. O evento anual reúne representantes dos 193 países membros da ONU, e os Estados Unidos discursam logo após a fala brasileira.
Leia o discurso de Lula na íntegra:
Meus cumprimentos ao Presidente da Assembleia Geral, Embaixador Khalilur Rahman, de Bangladesh.
Saúdo cada um dos Chefes de Estado e de Governo e delegadas e delegados presentes.
Dirijo-me em particular ao Secretário-Geral das Nações Unidas.
Ao longo de seus dois mandatos, António Guterres foi testemunha direta dos crescentes desmandos das superpotências.
Esta é a décima ocasião em que abro o Debate Geral desta Assembleia.
Desde que ocupei pela primeira vez esta tribuna, em 2003, este é o momento mais crítico das Nações Unidas.
O sentimento que me move hoje é o da indignação.
A ONU está falhando em uma das suas missões mais elevadas: a de livrar a humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa. Sua capacidade de proteger os mais vulneráveis – os que não têm exército, nem arsenais – nunca foi tão pequena.
Somos todos reféns do imobilismo de um Conselho de Segurança que não cumpre o seu papel. Em 1946, já na primeira sessão desta Assembleia, o Brasil alertava para o alto preço que a comunidade internacional pagaria pelo direito de veto. Esse vício de origem da Carta da ONU conferiu às grandes potências o privilégio da insensatez.




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