“Cabos submarinos são infraestruturas críticas, mas ainda não reconhecidas como tal” diz José Sousa Barros. E afinal asseguram quase 100% da ligação de dados entre continentes.

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Com o Smart Atlantic Cable, Portugal vai ser dos primeiros países, em termos mundiais, a ter a capacidade de detectar sismos e tsunamis em alto-mar e transmitir essa informação quase instantaneamente pra terra. Além de estudar as alterações climáticas, etc., toda essa informação é transportada em tempo real pra terra. Um sismo igual ao de 1969, se calhar, vai lhe dar a hipótese de receber um aviso de dezenas de segundos. Se calhar, quase um minuto.

Eu vi um artigo que falava disso.

A dizer: "Proteja-se, dentro de um minuto vai chegar um grandalhão mesmo."

Em termos de tsunamis, se calhar, dá-lhe meia hora.

Hoje trago mais uma estreia e vou falar de cabos submarinos. Não andamos por eles, mas é graças a eles que temos internet. A rede mundial escoa 98% do tráfego de internet no mundo. Voz, dados, imagens, vídeos, mensagens, jogos, informação e aplicações. Já dizia Sir Arthur C. Clarke, escritor britânico de ficção científica e autor visionário de "2001: Uma Odisseia no Espaço" e também do conceito dos satélites pra telecomunicações. É verdade que um cabo submarino não é uma coisa que qualquer um possa ver, como uma ponte gigantesca ou um arranha-céus ou um navio. Faz o seu trabalho na escuridão das profundezas, num mundo inimaginável, na escuridão, frio e pressão eternos, povoado por criaturas que nenhum homem poderia ter concebido no delírio mais desenfreado. Contudo, desempenham uma função vital, como a dos nervos no corpo humano. É uma parte essencial do sistema mundial das comunicações que, se alguma vez falhasse, nos atiraria instantaneamente de volta pro isolamento dos nossos antepassados. Os cabos marinhos são, de fato, a espinha dorsal do sistema de comunicação global moderno. E 10% da sua rede mundial passa pelo nosso país, graças à nossa localização geoestratégica preferencial na interligação entre Europa, África e Américas. Pra saber mais, convidei o José Sousa Barros, ele é engenheiro de telecomunicações e eletrônica e é presidente do Conselho Consultivo do Observatório dos Ecossistemas e Infraestruturas Digitais, que há décadas se dedica a este tema. Olá, senhor engenheiro, e bem-haja por ter aceitado este meu convite. Bem-vindo à Rádio Observador.

Muito obrigado, é um prazer.

É ótimo estar aqui consigo. O senhor é engenheiro de telecomunicações e eletrônica, tirado no Técnico, uma grande escola, a minha escola também. Trabalhou na Marconi, depois na Telecom, depois na Anacom. Já reformado, participa neste grupo de trabalho internacional sobre cabos da última geração, que além de telecomunicações, também são usados pela comunidade científica, porque com estes novos cabos podem transmitir informações sobre terremotos originados no mar, sobre tsunamis e tudo. Isso é muito curioso. Como voluntário, não tem largado esta atividade. Trabalha em vários councils e Smart Cables, JTF, na PQI, Portuguese Quantum Institute, na Portugal Data Center Association e nesse Observatório dos Ecossistemas e Infraestruturas Digitais. Nunca largou isto porque, de facto.

Mas estou ocupado e gosto de me ocupar com estas coisas.

Claro que sim. É muito bonito. Aliás, em conversa consigo ao telefone antes, já tínhamos mencionado Sir Arthur Clarke, um visionário, este homem do Renascimento, que também tem uma grande admiração por ele. E falou dos cabos submarinos.

Tenho, até porque ele foi o pai dos satélites geoestacionários. Foi ele que teve a ideia e depois foi posta em prática, e que revolucionaram as comunicações entre os continentes. Os satélites tiveram o seu grande sucesso mais ou menos até o final dos anos 80 e começaram a decair a sua importância por causa dos cabos submarinos de fibra ótica.

Porque a velocidade de comunicação dos satélites é muito mais lenta que um cabo, uma fibra ótica.

O problema é que o satélite está a 36 mil km e funciona como um espelho, digamos assim, como um repetidor entre duas estações terrenas.

De cada terra. De uma estação envia para o satélite, o satélite envia pra outra.

Por exemplo, consegue-se interligar Sintra ao Japão, consegue-se interligar Sintra, por exemplo, ao Brasil ou à parte central dos Estados Unidos.

Passando por um satélite.

Não é o mesmo satélite que faz estas ligações, mas o conceito é esse. Para o serviço telefônico e para a televisão, e ainda em sistemas analógicos, o satélite era perfeito. Por exemplo, eu tenho a ideia que dos meus tempos da Marconi, que nos anos 80, princípio dos anos 90, o satélite assegurava perto de 90% da interligação intercontinental. E o resto é que era feito por cabo submarino ou sistema terrestre.

Depois, com a digitalização, a transmissão do satélite tornou-se digital, mas tinha, além do seu delay, do atraso, que os cabos submarinos não introduziam, tinha outro problema, que era a largura de banda, que era restrita.

Isto tem a ver com aquela analogia que costuma fazer da autoestrada, que tem seis faixas ou tem duas. Quando tem duas, pode passar pouco tráfego.

O cabo submarino tinha 10 faixas.