Um relatório de inteligência produzido em 2020 pela Secretaria de Operações Integradas (Seopi), vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, comandado à época por André Mendonça, realizou um amplo levantamento sobre o movimento antifascista no Bras…
Um relatório de inteligência produzido em 2020 pela Secretaria de Operações Integradas (Seopi), vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, comandado à época por André Mendonça, realizou um amplo levantamento sobre o movimento antifascista no Brasil e identificou centenas de servidores da área de segurança pública associados à mobilização.
Entre os nomes no material estava o do policial civil gaúcho Leonel Gutierres Radde, então escrivão lotado na Delegacia de Homicídios de Porto Alegre. Hoje, Radde é deputado estadual pelo PT do Rio Grande do Sul. O documento acompanhava manifestações, publicações em redes sociais, vídeos, grupos e outros materiais relacionados ao movimento e dedicava uma seção específica aos policiais do estado.
O levantamento ganhou posteriormente relevância no âmbito da ADPF 722, decisão do Supremo Tribunal Federal que julgou inconstitucional a produção de dossiês pelo Ministério da Justiça contra servidores públicos e professores críticos ao governo. A documentação relacionada ao caso mostra que o Ministério Público Federal chegou a instaurar uma Notícia de Fato para buscar informações sobre a atuação da secretaria, questionando, entre outros pontos, a finalidade, a motivação e o fato que teria dado origem ao relatório.
O relatório foi produzido em 2020, quando manifestações favoráveis e contrárias ao governo de Jair Bolsonaro se multiplicaram em diferentes cidades. O documento registra atos em São Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Novo Hamburgo e outras cidades.
Também acompanha confrontos entre manifestantes pró e contra Bolsonaro, mobilizações em defesa da democracia e manifestações relacionadas à pandemia de Covid-19.
A inteligência não se limitou aos atos de rua. O material mostra o acompanhamento de páginas, vídeos, redes sociais, grupos de mensagens e publicações associadas ao movimento.
Um dos focos foi a participação de torcidas organizadas. O relatório cita grupos ligados a Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Flamengo, Vasco, Botafogo, Fluminense, Atlético-MG e Grêmio. No caso gaúcho, há registro de uma manifestação do Grêmio Antifascista realizada em Porto Alegre em 1º de maio de 2020.
Foram identificados 579 servidores ligados à área de segurança pública e relacionados a antifascistas, distribuídos por diferentes estados.
A estrutura mostra que se tratava de um mapeamento nacional. Há seções destinadas a estados como Acre, Alagoas, Amazonas, Bahia, Ceará, Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Pará, Paraíba, Pernambuco, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Sergipe, São Paulo e Tocantins. Também aparecem categorias referentes à Polícia Rodoviária Federal, Polícia Federal e formadores de opinião.
A referência nominal mais importante está na página 8 do relatório, dentro da cronologia dos acontecimentos acompanhados pela inteligência. Há uma denúncia apresentada em 27 de maio de 2020 pelo então deputado estadual gaúcho Ruy Irigaray (PL) contra Radde.
Ele é identificado como “Escrivão de Polícia Sgt Leonel Gutierres Radde” e como servidor lotado na Delegacia de Homicídios de Porto Alegre.
A representação foi encaminhada ao procurador-geral de Justiça do Rio Grande do Sul e à Polícia Civil.
Na denúncia, o parlamentar apresentava o movimento Antifa como uma organização extremista e fazia uma série de acusações contra seus integrantes. Radde era o principal personagem.
Segundo a denúncia, o policial utilizaria suas redes sociais para divulgar eventos ligados aos antifascistas. O parlamentar atribuía às atividades do movimento a promoção de “ódio, agressão e desordem” e acusava Radde de utilizar sua condição de agente público para “incitar e estimular” ações que classificava como antidemocráticas e criminosas. Irigaray ainda questionava publicações de Radde envolvendo armas e afirmava que o policial estaria descumprindo seu papel institucional.
A representação anexava uma série de materiais extraídos das redes sociais de Radde. Entre eles estava uma publicação de 24 de maio de 2020 na qual o policial fazia referência aos “Antifas de POA” e afirmava que o grupo havia feito recuar uma “caravana da morte” que, segundo ele, defendia o fim da democracia.
Também foram anexados vídeos publicados no YouTube de Radde, incluindo conteúdos com críticas a Eduardo Bolsonaro. Outro vídeo tinha o título “Estou lançando hoje o projeto: Faça um Neonazista Famoso!”. Na publicação, Radde convidava seus seguidores a enviar fotografias e informações sobre pessoas que identificassem como neonazistas, com a intenção de expô-las.
Em outra postagem, relacionada a uma live denominada “Café com Notícias”, o policial afirmava: “Avante, Antifas! Sigamos na luta pela democracia. Hoje, em Porto Alegre.”
Também aparece no material uma publicação de terceiro que fazia críticas a Radde e o acusava de criar grupos e páginas para atacar apoiadores do então presidente Jair Bolsonaro. Essa publicação, contudo, é apenas reproduzida no anexo e não representa uma conclusão oficial sobre o policial.
O relatório utilizou diferentes fontes para identificar policiais e agentes de segurança associados ao movimento antifascista.
Um dos elementos recorrentes é o “Manifesto Antifascismo” de 5 de junho de 2020. Nas diferentes seções estaduais, o documento apresenta a categoria “Agentes da Segurança Pública que assinaram o Manifesto de 05JUN2020”.




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