Picape lidera o mercado brasileiro desde 2021 e reúne versatilidade para trabalho e lazer, baixo custo de propriedade e uma estratégia comercial que os concorrentes ainda não conseguiram replicar, dizem especialistas
Há cinco anos, a Fiat Strada ocupa um lugar que, à primeira vista, parece improvável no mercado brasileiro: o topo absoluto do ranking de vendas. Desde 2021, a picape supera hatches, SUVs e outros carros de passeio e se mantém como o veículo mais emplacado do País. Como ela consegue tal feito? O segredo, dizem os especialistas consultados pelo Jornal do Carro, não está em uma única característica.
Para Milad Kalume Neto, da K.Lume Consultoria, o sucesso da Strada é resultado de uma combinação de fatores que permite à picape atender públicos bastante diferentes. De um lado, há versões voltadas ao trabalho; de outro, configurações mais equipadas para quem pretende usar o veículo no dia a dia e no lazer.
"Não vejo um único ponto, mas alguns que, somados, fazem o sucesso da Strada", afirma Kalume. "Ela possibilita uma variedade de usos, variando entre trabalho e lazer. Possui versões para o trabalho destinado a empresas e versões com maior conforto e tecnologia destinado ao uso pessoal."
A estratégia se reflete na própria gama. A Strada oferece opções mais simples e outras mais equipadas, carrocerias de duas ou quatro portas e motores diferentes. Em outras palavras, a Fiat consegue vender desde uma ferramenta para o pequeno empresário até um veículo para uma família que quer combinar o uso urbano com a praticidade da caçamba.
Essa transformação é apontada pelos dois especialistas como um dos principais motivos para que a picape esteja tanto tempo na liderança.
Segundo o consultor, "ela conseguiu preservar o seu DNA ao longo do tempo, servindo principalmente como ferramenta de trabalho e foi sofisticando o produto até virar uma alternativa de uso pessoal."
Murilo Briganti, da Bright Consulting, faz uma leitura semelhante. Para ele, a Fiat conseguiu evoluir a picape sem abandonar justamente as qualidades que fizeram o modelo se tornar popular.
"A Strada deixou de ser só ferramenta de trabalho e virou também carro de dia a dia, sem abrir mão de robustez, boa liquidez no usado e uma rede de concessionárias espalhada pelo país", afirma.
Essa capacidade de conversar com públicos diferentes é um dos grandes trunfos da picape. Enquanto as versões de entrada atraem profissionais e empresas que precisam de um veículo para trabalhar, as configurações cabine dupla ajudam a ampliar o alcance entre pessoas físicas.
"Um carro que serve tanto para o pequeno empresário quanto para quem só precisa de um veículo versátil no dia a dia", resume Briganti.
Preço é importante, mas os especialistas destacam que o custo de propriedade pesa ainda mais para boa parte dos compradores.
Kalume aponta três fatores principais para explicar a liderança: "ampla rede de concessionários, baixo custo operacional e bom mercado".
A Strada combina manutenção simples, robustez e facilidade para encontrar peças e mão de obra. Além disso, a picape tem alta aceitação no mercado de usados, o que ajuda a preservar seu valor.
"Entendo que a alta aceitação no mercado secundário, que eleva o valor de revenda, é um dos fatores principais do sucesso", afirma Kalume. "O veículo possui baixa desvalorização, então o cliente compra já tendo um entendimento de que vai perder, relativamente, pouco e que terá boa liquidez com o produto."
Para quem utiliza o veículo profissionalmente, essa conta se torna ainda mais relevante. Um veículo parado para manutenção representa perda de dinheiro. Por isso, ter acesso fácil a peças, oficinas e assistência é parte importante da decisão.
Briganti ressalta que a facilidade de manutenção se tornou uma vantagem difícil de ser reproduzida pelos concorrentes.
Segundo ele, esse conjunto de fatores explica por que a Strada continua atraente mesmo para quem não busca o veículo mais tecnológico ou sofisticado do mercado. "O grande trunfo sempre foi a versão de entrada, que historicamente respondeu por cerca de dois terços das vendas: custo-benefício forte, preço acessível, manutenção simples, baixo custo de propriedade."
A venda direta, para locadoras e demais empresas, também é um fator importante por trás dos números da Strada. Embora a picape seja bastante visível nas ruas e também tenha conquistado compradores particulares, uma parcela significativa dos emplacamentos vem de empresas, pequenos empreendedores, produtores rurais e frotistas. "Os dados indicam que a maior parte das vendas nos últimos anos ocorre via vendas diretas", afirma Kalume.
Segundo Briganti, esse peso é ainda maior em 2026. "A venda direta sempre foi alta — historicamente acima de 60%, e em 2026 já passa de 70%."
Isso ajuda a entender como a Strada consegue alcançar volumes de venda superiores aos de muitos carros de passeio.


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