No Brasil, Europa e Estados Unidos, segmento aparece como mais uma forma de tentar manter o cliente vinculado à instituição financeira

O celular virou a mais nova fronteira de disputa dos bancos pelo relacionamento com o cliente. No Brasil, o Nubank  aposta no NuCel. No exterior, instituições como Revolut, Monzo, N26, Klarna, Cash App e Starling também passaram a oferecer planos móveis ou eSIMs de viagem, transformando uma despesa recorrente do consumidor em mais um ponto de contato com o setor financeiro.

A proposta vai além da venda de um plano de celular. Ao incorporar serviços presentes na rotina, os bancos ampliam a frequência de interação, criam novas receitas e aprofundam a integração ao próprio ecossistema.

O movimento do Nubank chama atenção porque leva a lógica de ecossistema para uma categoria que, à primeira vista, parece distante do setor financeiro. O consumidor já paga todos os meses por conectividade. Ao incorporar essa despesa à relação com o banco, a instituição ganha uma receita recorrente, amplia os pontos de contato e passa a participar de outra dimensão da rotina.

A estratégia começa a aparecer em diferentes mercados, sobretudo na Europa. O objetivo é concentrar o maior número possível de serviços na mesma empresa: conta, cartão, investimentos, seguros, produtos de viagem, benefícios e também telefonia.

Ter o número de telefone vinculado à instituição financeira também torna mais trabalhosa uma migração completa para outro banco.

Esse modelo ganhou força com empresas especializadas em embedded connectivity, como a Gigs, que fornece a infraestrutura para instituições financeiras oferecerem serviços móveis sem precisar se transformar em operadoras tradicionais. O resultado é uma nova camada de serviços dentro do aplicativo bancário.

O Nubank, por exemplo, chegou a 1 milhão de clientes no NuCel em junho, apenas um ano e meio depois do início da operação. O serviço funciona sobre a rede da Claro, pode ser contratado diretamente pelo aplicativo e não exige fidelização. Clientes do segmento Croma ganham seis meses grátis no plano de 10 GB. Os planos também oferecem WhatsApp e aplicativo do Nubank ilimitados, além de uma Caixinha Turbo com rendimento de 120% do CDI.

O caso brasileiro, porém, fica mais interessante quando colocado ao lado do que acontece fora do país.

O banco digital britânico Monzo transformou a permanência na telefonia em um benefício financeiro direto. O cliente começa pagando o preço normal do plano, mas recebe 5% de desconto a cada ano, até chegar a 30% depois de seis anos.

O mecanismo cria uma espécie de programa de fidelidade dentro do próprio serviço. Quem abandona o plano perde o histórico acumulado e, se voltar posteriormente, precisa começar novamente do zero.

É um exemplo claro de como um serviço cotidiano pode criar custo de troca. O consumidor não está preso por contrato, mas acumula um benefício que desaparece caso decida sair.

O neobank alemão N26 adotou uma estratégia diferente. Em junho, lançou o N26 SIM na Espanha, seu segundo mercado de telefonia depois da Alemanha. O cliente contrata o plano diretamente pelo aplicativo, ativa um eSIM em poucos cliques e passa a utilizar a rede 5G da Orange.

O plano custa 11,99 euros por mês e inclui dados, chamadas e SMS ilimitados, além de 20 GB de roaming na União Europeia e no Espaço Econômico Europeu. Não há necessidade de visitar uma loja ou instalar um chip físico.

O ponto mais relevante aqui é a integração. O cliente não precisa sair do aplicativo do banco para contratar, ativar, acompanhar ou administrar a linha. A telefonia passa a fazer parte da mesma experiência digital da conta bancária.

O espanhol Santander adotou outro caminho. Em agosto, lançou na Espanha uma eSIM para viagens com cobertura em mais de 160 países. O cliente compra o pacote de dados diretamente pelo aplicativo, acompanha o consumo e faz recargas sem precisar trocar o chip físico.

A solução começa na Espanha e será expandida para Portugal, México e outros mercados do grupo. Os pacotes variam de 3 GB a 50 GB e podem ser utilizados em destinos como Estados Unidos, Reino Unido, Japão, Brasil e Tailândia.

Nesse caso, o banco não tenta substituir a operadora do cliente. A estratégia ocupa um momento específico da jornada financeira: a viagem internacional.

A instituição identifica uma necessidade relacionada ao próprio negócio, oferece a solução dentro do aplicativo e evita que o consumidor precise procurar uma terceira empresa.

Nos Estados Unidos, o Cash App lançou em junho o Cash App Mobile, plano de telefonia com 5G ilimitado por US$ 40 mensais. O serviço é oferecido em parceria com a Gigs e utiliza a rede da AT&T.

A empresa chegou à telefonia depois de identificar um comportamento já existente: milhões de usuários utilizavam o Cash App Card para pagar suas contas de celular. Ao assumir também o serviço, o aplicativo passa a controlar uma etapa maior dessa despesa.