Fenômeno turco, segunda temporada de "Meu Nome é Farah" acaba de chegar ao Brasil pela Netflix - Reprodução Existe uma coisa curiosa acontecendo nas plataformas de streaming. O Brasil parece estar entrando em uma nova fase de sua relação com as novelas estrangeiras. Nas últimas décadas, vieram as produções coreanas, que deixaram de ser um nicho para virar fenômeno mundial. 

A Espanha nos entregou “La Casa de Papel”, e de repente era possível encontrar brasileiro usando macacão vermelho e cantando “Bella Ciao”. Agora, quem está ocupando esse espaço são os turcos.

E talvez seja mais fácil entender esse fenômeno olhando para o que o público brasileiro já conhece do que tentando tratá-lo como uma novidade absoluta. Porque as séries turcas falam uma língua que o Brasil entende muito bem: famílias complicadas, amores impossíveis, vilões que você ama odiar, segredos guardados por anos, personagens separados por diferenças sociais e aquela velha capacidade de terminar um episódio justamente quando você mais queria saber o que aconteceria depois.

A diferença está no endereço

A Turquia conseguiu transformar sua dramaturgia televisiva em um produto de exportação gigantesco. Segundo a Diretoria de Comunicações da Presidência da Turquia, as séries turcas já chegaram a mais de 170 países e alcançaram mais de 1 bilhão de espectadores únicos. O governo turco, inclusive, trata o setor como uma ferramenta importante de projeção internacional do país.

Ou seja, o que estamos vendo por aqui não surgiu de repente. O Brasil apenas passou a fazer parte de uma história que já acontece há anos em outras partes do mundo.

A novela no streaming

A televisão turca aprendeu a exportar melodrama antes de a Netflix descobrir que poderia colocá-lo no catálogo global. São histórias longas, cheias de personagens, conflitos familiares e romances atravessados por diferenças de classe. 

É uma estrutura que tem alguma familiaridade com a nossa tradição de telenovelas, mas que chega acompanhada de outra estética, outras paisagens e outra cultura. O streaming fez uma coisa importante nesse processo, eliminou boa parte da barreira que existia entre o público brasileiro e essas produções.

Antes, uma novela turca precisava conquistar espaço em uma emissora, disputar horário, adaptação, dublagem e divulgação. Hoje, basta aparecer na tela inicial de uma plataforma. Se a primeira cena fisgar, o espectador está dentro.

“Meu Nome é Farah” é um bom exemplo dessa dinâmica. A série acompanha uma médica iraniana que, vivendo na Turquia, trabalha como faxineira para pagar o tratamento do filho até testemunhar um assassinato e acabar envolvida com uma organização criminosa. A própria Netflix classifica a produção entre seus dramas turcos.

O interessante é que ela não precisa parecer brasileira para funcionar no Brasil. O público reconhece imediatamente os mecanismos da história.

Os números ajudam a mostrar que não estamos falando apenas de uma impressão minha ou de uma bolha de fãs. “Meu Nome é Farah” apareceu no Top 10 de séries da Netflix no Brasil em diferentes semanas de agosto deste ano, chegando ao terceiro lugar na semana de 10 a 16 de agosto e permanecendo entre os dez títulos mais assistidos nas semanas seguintes.

A Coreia abriu a porta

É impossível falar da ascensão turca sem lembrar do que aconteceu com as produções coreanas. E aqui vale fazer uma distinção, o sucesso dos doramas não começou com “Round 6”. A série apenas transformou uma tendência em um fenômeno impossível de ignorar.

A Netflix já identificava, em 2020, uma forte expansão do conteúdo coreano. Naquele ano, a empresa chegou a afirmar que o consumo de conteúdo coreano havia crescido quatro vezes ou mais em diversos mercados asiáticos. Em 2021, a própria plataforma descrevia a chamada Hallyu, a onda cultural coreana, como um fenômeno que já havia ultrapassado as fronteiras do país.

O curioso é que a Coreia não exportou apenas séries. Vieram música, comida, moda, maquiagem, atores, expressões e uma curiosidade crescente pela cultura do país.

A Espanha viveu algo parecido, embora de maneira diferente. “La Casa de Papel” conseguiu uma façanha rara, tornou personagens espanhóis conhecidos no mundo inteiro e transformou símbolos da série em elementos da cultura pop global. 

A Netflix afirma que três temporadas da produção continuam entre as quatro mais vistas da história da plataforma entre as séries de língua não inglesa.

Hoje, olhando para o catálogo internacional, o movimento parece ainda mais evidente. No primeiro semestre de 2026, títulos de países que não produzem em inglês responderam por mais de um terço de toda a audiência da Netflix, segundo a própria empresa.