O aumento de jogadoras brasileiras que deixam a base para estudar e jogar nos Estados Unidos levanta questões sobre carreira, estrutura e futuro
Priorize VEJA no Google A Estátua da Liberdade foi, por décadas, a primeira promessa de um novo começo para quem chegava aos Estados Unidos. Agora, para jovens jogadoras brasileiras, essa promessa pode estar nos gramados, nas escolas e nas universidades americanas. Muito jovens, elas cruzam fronteiras em busca de oportunidades no futebol e formação acadêmica. Mas a escolha carrega uma contradição: o que pode ser uma oportunidade para a atleta também representa, para os clubes brasileiros e para a própria Seleção, o risco de perder talentos ainda em formação.
É o “Sonho Americano” no futebol feminino. Nos últimos anos, brasileiras formadas em clubes tradicionais passaram a trocar as categorias de base no país para jogar em equipes de ensino médio e de universidades dos Estados Unidos. O movimento ganhou força e chegou recentemente ao Corinthians, com saídas de Brunna Meer, Manu Olivan, Natália Pereira e Mariela Baiak, entre outras atletas ao longo do tempo.
A migração não acontece por um único motivo, já que há quem enxergue nos Estados Unidos uma estrutura esportiva superior; quem priorize a possibilidade de cursar uma universidade; quem busque uma experiência internacional; e quem veja no sistema americano uma maneira de continuar jogando mesmo diante da incerteza sobre o futuro profissional.
Para os clubes brasileiros, o fenômeno traz uma equação difícil. Formar uma atleta exige anos de investimento, mas, quando chega o momento em que ela precisa decidir os próximos passos, uma universidade americana pode vencer a concorrência. Exemplos na Amarelinha foram Giovanna Waksman, recém-transferida para o Lyon e que estava nos Estados Unidos, e Giovana Canali, convocada para a Seleção sub-20, que atua na Universidade da Virgínia (EUA).
Duda Abreu conhece os dois lados dessa escolha. Antes de chegar aos Estados Unidos, a jogadora passou cerca de cinco anos no Centro Olímpico e depois pelo Corinthians. Foi ainda criança que começou a construir a formação que considera fundamental para o momento atual.
“Foi lá que eu consegui todos os meus fundamentos, tudo que eu tenho de base hoje, foi lá que eu construí isso”, conta Duda sobre o Centro Olímpico. No Corinthians, a partir dos 13 ou 14 anos, ampliou a experiência competitiva, disputando Paulista, Brasileiro e outros torneios de base.
A experiência brasileira, portanto, não foi descartada por ela, pelo contrário: Duda considera que foi justamente a formação recebida no país que a preparou para enfrentar o futebol americano. A mudança, porém, apresentou um choque de realidade.
“Eu cheguei uma atleta nos Estados Unidos, hoje eu tô outra”, diz. Para ela, a diferença aparece principalmente na velocidade, na força física, na repetição dos fundamentos e na organização tática. “Aqui elas treinam, treinam, treinam, treinam e iguala”.
Duda não falava inglês quando chegou ao país e precisou aprender na prática, enquanto conciliava escola, treinamento e adaptação cultural. Hoje, diz ter alcançado um nível intermediário no idioma e vê justamente a convivência multicultural como uma das melhores partes da experiência.
No campo, a adaptação também exigiu tempo. “Eu sofri muito no começo porque é absurdo o nível de velocidade, de agilidade, de força”, afirma. Aos 16 anos, ela já pensa no próximo passo: o college. A previsão é concluir o ensino médio em 2028 e, então, escolher a universidade. Marketing é uma das áreas que despertam seu interesse.
O plano, porém, não termina necessariamente nos Estados Unidos. Duda sonha com a Europa e cita Itália e Espanha como destinos desejados. Uma das propostas que a convenceu a seguir no projeto americano inclui, inclusive, a possibilidade de experiências na Áustria. “Não são todas as meninas que têm essa oportunidade”, afirma.
Voltar ao Brasil, por enquanto, não está nos planos. “Eu acho que é daqui para frente, é daqui para mais longe”, diz. Uma eventual volta só aconteceria diante de uma proposta considerada realmente boa ou, mais adiante. A decisão de deixar a base do Timão, ela admite, não foi simples.
“Foi uma das decisões mais difíceis da minha vida e uma das melhores decisões também”, resume. Ficar longe da família e começar uma vida em um país desconhecido teve um custo emocional, mas Duda afirma ter encontrado um ambiente em que se sente capaz de mostrar seu futebol e evoluir como pessoa.
Pai de Duda, Emerson Santos acompanhou de perto cada etapa da formação da filha. Para ele, a história dela ajuda a explicar por que o movimento não deve ser analisado simplesmente como uma fuga de talentos dos clubes brasileiros.
Duda chegou ao Centro Olímpico depois de passar por uma peneira com cerca de cem meninas. Apenas aproximadamente dez foram aprovadas. Ela estava entre as cinco mais novas.
Quando deixou o Corinthians, porém, o caminho americano apareceu de maneira diferente do que ocorre hoje com muitas atletas.
“Os americanos acompanharam o movimento dela e, na saída dela do Corinthians, a gente começou a receber directs”, relata. Uma das principais diferenças, para a família está na integração entre esporte e educação.
“No Brasil, a gente tem muito a ideia de que uma coisa exclui a outra”, avalia Emerson, sobre a possibilidade de conciliar estudos e carreira esportiva. Nos Estados Unidos, diz, o sistema é construído para que a atleta possa desenvolver simultaneamente a carreira esportiva e a formação acadêmica.
A estrutura também pesa. Emerson compara a realidade encontrada pela filha nos Estados Unidos com a dificuldade que muitos clubes brasileiros enfrentam para garantir itens básicos, como bons campos, academia, fisioterapia e profissionais especializados. “O muito aqui no Brasil é pouco nos Estados Unidos”, afirma.
De acordo com ele, o volume de meninas praticando futebol também cria um ambiente competitivo muito maior. Emerson Santos relata ter visto complexos com diversos campos e centenas de jogadoras de diferentes idades treinando e competindo. A experiência internacional também pode ajudar a formar uma atleta mais preparada para o futebol profissional e, eventualmente, para a Seleção Brasileira.


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