Crosta sob Ceará, RN, Paraíba, Pernambuco e Alagoas tem de 30 a 35 km de espessura, contra média mundial de 40 km
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3.jul.2026 às 10h05 Atualizado: 3.jul.2026 às 10h25
Bled (Eslovênia) | BBC News Brasil
Há um certo alívio no Brasil com a ideia de que o país está protegido de terremotos, por estar localizado no centro de uma placa tectônica, quando estes fenômenos acontecem com mais frequência em áreas de encontros de placas.
Mas há uma região brasileira mais propensa aos abalos sísmicos do que as demais: o Nordeste. Isso acontece devido a uma particularidade da crosta terrestre sob boa parte dos Estados nordestinos.
Para explicar por que a espessura da crosta é mais fina na chamada Província Borborema, nome do bloco rochoso que forma parte significativa do Nordeste brasileiro, especialistas se valem de uma metáfora: é como um queijo derretido que, puxado, vai ficando mais fininho, mais ralo no meio.
Sob o Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas, a crosta terrestre tem de 30 a 35 quilômetros de espessura - em alguns pontos, até menos do que isso. É mais fina do que a média mundial, que passa dos 40 quilômetros, chegando a 70 quilômetros na região do Himalaia. Na região dos oceanos, são cerca de 10 quilômetros.
Acredita-se que isso tenha origem no período Cretáceo, entre 136 milhões e 65 milhões de anos atrás. Como os blocos que formam os continentes estão em movimento sobre o manto (camada da Terra localizada entre a crosta e o núcleo), o que conhecemos como hoje como a África e a América do Sul se separaram naquela época.
Exatamente nessa região onde hoje está o Nordeste, a crosta teria se esticado um pouco mais do que o restante, em um processo de acomodação das placas.
O resultado foi esse adelgaçamento atípico. "É o chamado efeito de estiramento", explica o engenheiro de estruturas Marcelo Bianco, professor na Universidade de São Paulo (USP) - ele chegou a estudar a crosta da região em pesquisas que realizou na Universidade de Weimar, na Alemanha, onde realizou seu mestrado e doutorado.
"É uma região que sofreu o processo de estiramento com a abertura do [Oceano] Atlântico [na formação dos continentes]", diz o geofísico Aderson Farias do Nascimento, professor na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). "Em regiões assim, muitas vezes há o acúmulo, com facilidade, de forças que podem desencadear terremotos."
Pesquisadores costumam fazer uma analogia com uma casca de ovo trincada, um casco de tartaruga ou mesmo com uma bola de futebol e seus gomos na hora de explicar que o planeta está cheio de placas tectônicas coladas umas às outras.
Mas talvez seja melhor imaginar essas placas como um grupo de pessoas amontoadas em um vagão de transporte público - quando uma se movimenta, a outra precisa mudar de posição também, a tensão é constante e comumente ocorrem toques que, mesmo involuntários, incomodam.
Essas tensões entre os materiais, essa fricção resultante de um processo antiquíssimo e constante de acomodação, é o que muitas vezes causa terremotos, pela energia que vai se acumulando e, uma hora, se dispersa.
As tensões são maiores nas bordas das grandes placas tectônicas, onde esses imensos volumes de rocha se encontram e buscam acomodar suas fronteiras. A Terra tem mais de 50 dessas placas - sendo que as maiores, são 14.
O terremoto de grandes proporções que atingiu a Venezuela dias atrás teve origem nesse encontro entre a placa Sul-Americana e a Caribenha, mas a região andina também está suscetível a tremores pelo encontro com a placa de Nazca.
Nesse sentido, o Brasil é privilegiado. Seu território é relativamente protegido, localizado todo dentro da placa Sul-Americana. Contudo, Nascimento explica que a formação do terreno do Nordeste, com rochas muito antigas, favorece a percepção de tremores. "Funciona como um excelente meio para as ondas sísmicas viajarem", afirma. "Há uma eficiência muito boa em transmissão da energia sísmica."




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