Rarrarorro/Getty Images Prestes a completar seus primeiros seis meses de vida, o acordo Mercosul-União Europeia ganha tração comercial, mas ainda desperta reações extremadas e desconfiança do outro lado do Atlântico. O entendimento tornou-se uma espécie de as…

Prestes a completar seus primeiros seis meses de vida, o acordo Mercosul-União Europeia ganha tração comercial, mas ainda desperta reações extremadas e desconfiança do outro lado do Atlântico. O entendimento tornou-se uma espécie de assunto tabu nos jornais do Velho Continente desde o início da sua vigência, em 1º de maio. O tema ganhou dimensões políticas que tornaram sua defesa explícita um desafio em meio ao “zeitgeist” (espírito do tempo).

O Mercosul virou alvo pela ameaça que pode causar ao setor agrícola da Europa, extremamente subsidiado, que corresponde a 5% do PIB da região. Com peso importante na cena política, é segmento que faz barulho e pode causar danos eleitorais significativos. As carnes do Brasil que o digam. Muitos franceses dizem que o bloco do Cone Sul acabará com seus rebanhos.

Foi assim no fim do ano passado, quando a UE determinou o abate de centenas de cabeças de gado por conta de uma onda de dermatose nodular contagiosa (DNC) nos animais.

“É agora que o Brasil vai trazer toda a carne que puder para cá”, disse num coquetel a atriz Marine Bordet, antes de ser surpreendida com a informação de que o Brasil, pelo acordo em vigor, não pode vender mais de um hambúrguer por francês por ano ao seu país, como preveem as cotas.

Ainda se veem os restos dos adesivos em que a palavra “Mercosur” é cortada por um baita risco negro nos sinais de trânsito no interior da França. Nos supermercados, ganham grande destaque as placas e menções à origem local dos produtos.

Os europeus ainda não perceberam o significado do acordo tirado do papel a duras penas, ou não foram convencidos dele. Talvez pela eterna dificuldade de comunicação com o cidadão por parte da burocracia de Bruxelas. Sua assinatura só saiu após um quarto de século de negociações, com o empurrão fundamental do clima de ameaça criado pelo tarifaço e medidas unilaterais adotadas pelos Estados Unidos de Donald Trump.

O problema é que o acordo está vigente de forma provisória e ainda precisa do sinal verde da Corte de Justiça. Foi uma exigência do Parlamento Europeu, a quem cabia chancelar o entendimento de maneira definitiva.

“É um acordo mais fácil de imaginar sob uma perspectiva multinacional e multilateral. No entanto, ao entrar na política local de cada país, torna-se muito mais difícil imaginá-lo ou justificá-lo. Muitos políticos ficaram calados sobre isso. É, em parte, uma esperança de passá-lo de maneira silenciosa, sem que as pessoas realmente percebam ou se mobilizem”, diz o especialista em América Latina do think tank londrino Chatham House, Christopher Sabatini.

A falta de entusiasmo e compreensão até aqui pode acabar por agravar um risco percebido por especialistas ouvidos pelo Valor de que, diante da eleição no Brasil e em países-chave da UE em 2027, o acordo viva seu momento mais delicado. Para Sabatini, esta é “uma fase perigosa”, pois alguns líderes de países europeus relutarão em defender, se manifestar ou pressionar pelo acordo.

Sabatini afirma que alguns dos grupos afetados pela abertura de seus mercados às exportações ou importações agrícolas brasileiras se mobilizarão e tentarão usar suas preocupações como justificativa, o que pode não ser bem recebido no Brasil, sobretudo em um eventual governo de Flávio Bolsonaro.

“As tentativas de impor restrições ao desmatamento, ao rastreamento do gado e a todas essas medidas para garantir que não haja agricultores ilegais encontrarão resistência por parte de uma parcela importante da base eleitoral de Bolsonaro”, destaca.

Mergulhado em uma espécie de eterna crise existencial, o bloco europeu enfrenta o avanço da extrema direita enquanto busca seu lugar no mapa geopolítico entre os Estados Unidos e a China.

A França terá eleição presidencial no ano que vem. A extrema direita dá sinais de plena vitalidade. Por mais que Emmanuel Macron tenha demonstrado simpatia pelo entendimento e revelado isso ao presidente Lula e seu entorno, a narrativa política ganhou tal protagonismo que ficou difícil ao francês voltar atrás em sua oposição ao acordo.

Em 8 de janeiro deste ano, cerca de 100 tratores entraram na capital francesa ainda antes do amanhecer, a despeito da proibição policial. Alguns chegaram ao Arco do Triunfo e à Torre Eiffel antes que os agricultores se reunissem em frente ao Parlamento, com bandeiras e faixas que alertavam para a crescente pressão sobre seus meios de subsistência. “Mercosur mort a coup sur” (Mercosul, morte por golpe certeiro, em tradução livre), dizia um dos cartazes em destaque.

O argumento ecoou por um punhado de países do bloco, como na Polônia e na Irlanda. A Polônia tentou suspender a aplicação provisória do acordo no Tribunal de Justiça da UE, que indeferiu o pedido no último dia 29 de setembro. Na Bulgária, uma reportagem no jornal Trud dizia que a verdadeira natureza desse acordo não era a parceria, mas o oportunismo político, ao transformar a agricultura europeia em mera moeda de troca para obter melhor acesso de bens industriais, como carros, produtos químicos e máquinas ao enorme mercado sul-americano.

Mas há exceções, como a Áustria, cujas exportações de € 1,9 bilhão para o Mercosul garantiam pelo menos 32 mil empregos diretos no país antes do acordo. Em setembro de 2019, a subcomissão da UE do parlamento austríaco votou quase por unanimidade contra a proposta de acordo, sob a alegação de que o países do Cone Sul não atendiam às condições de sustentabilidade.

A federação da indústria nacional rebateu, alertando contra “alarmismos populistas e mitos do livre comércio” e insistindo que o acordo inclui um compromisso com o Acordo de Paris sobre o Clima e com o combate ao desmatamento na Amazônia.

Os dados da UE mostram que 95% de todos os exportadores austríacos são pequenas empresas, que seriam as mais beneficiadas, já que frequentemente encontram dificuldades para exportar para fora da UE, devido aos custos adicionais e aos procedimentos administrativos. Até o presidente do Banco Central da Áustria intercedeu pelo acordo no fim do ano passado.

Na pequena Salzburgo, as associações de indústrias locais também foram enfáticas ao destacar que sua orientação internacional é um dos principais pontos fortes do estado e que, para a economia local, o acordo abre novas oportunidades de mercado em setores-chave para o futuro, “especialmente em transição ecológica, pelo fato de os países do Mercosul poderem tornar-se parceiros importantes graças aos seus recursos de matérias-primas e terras raras”.

O fato é que, entre maio, início da vigência do acordo, e setembro, a corrente de comércio entre Brasil e UE somou US$ 49,9 bilhões. Foi um crescimento de 16,6% em relação ao mesmo período de 2025. O resultado foi puxado principalmente pelo desempenho das exportações brasileiras, que alcançaram US$ 27,3 bilhões, com avanço de 30,7%. As importações provenientes da UE tiveram um aumento menor em terras percentuais (3,1%), mas subiram a US$ 22,6 bilhões.