Tradição começou em 1955 e tem uma explicação curiosa; país costuma abrir o Debate Geral antes dos Estados Unidos na Assembleia Geral
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursa nesta terça-feira (22) na abertura do Debate Geral da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York (EUA). Como ocorre tradicionalmente desde 1955, o Brasil será o primeiro país a falar, seguido pelos Estados Unidos, que são o país anfitrião do encontro.
A posição brasileira na abertura da Assembleia Geral é uma das tradições mais conhecidas da ONU. Mas por que o Brasil é sempre o primeiro a discursar?
A explicação mais difundida é que, nos primeiros anos das reuniões, nenhum país queria assumir a tarefa de abrir os discursos. O Brasil teria se oferecido repetidamente para falar primeiro e, com o tempo, a prática se transformou em uma tradição.
Segundo Desmond Parker, que ocupava o cargo de chefe de protocolo da ONU, essa é a origem mais conhecida da ordem. Em entrevista à rádio norte-americana NPR, em 2010, ele afirmou que, em tempos antigos, quando ninguém queria falar primeiro, "o Brasil sempre se oferecia para falar primeiro".
No entanto, a tradição não começou imediatamente após a criação das Nações Unidas, em 1945, logo após o fim da Segunda Guerra Mundial. Foi a partir da 10ª sessão da Assembleia Geral, em 1955, que o Brasil passou a ocupar regularmente o primeiro lugar na lista de discursos.
Existem algumas teorias sobre como a tradição começou. Uma delas relaciona a escolha brasileira ao contexto político internacional da época.
Uma das teorias sobre a origem da tradição afirma que o posto teria funcionado como uma espécie de “prêmio de consolação” para o Brasil por não ter conseguido um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.
O órgão é formado por 15 países, sendo cinco membros permanentes — Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido — que têm poder de veto. Os outros dez são eleitos pela Assembleia Geral para mandatos de dois anos. O Brasil já integrou o Conselho de Segurança 11 vezes, mas sempre como membro não permanente, sem direito a veto.
Outra explicação está relacionada à Guerra Fria. Como Estados Unidos e União Soviética protagonizavam uma forte disputa política e ideológica, o Brasil teria sido considerado uma opção mais neutra para iniciar os discursos.
Entretanto, a versão mais difundida é a relacionada ao protocolo, visto que o Brasil teria se voluntariado para falar primeiro quando outros países não queriam assumir essa posição.
Com o passar dos anos, a prática deixou de ser apenas uma escolha circunstancial e se consolidou como uma tradição diplomática da Assembleia Geral.
Apesar de a tradição ser mantida há décadas, houve algumas exceções.
Nas 38ª e 39ª sessões da Assembleia Geral, realizadas em 1983 e 1984, respectivamente, os Estados Unidos falaram primeiro e o Brasil ficou em segundo lugar. Naquele período, Ronald Reagan ocupava a Presidência americana, enquanto João Baptista Figueiredo comandava o Brasil, que vivia os últimos anos da Ditadura Militar e o processo de transição para a democracia.
Também houve mudanças na ordem em razão de atrasos de chefes de Estado.
Em 2016, durante a 71ª sessão, o Chade, país da África Central, acabou falando em segundo lugar porque o então presidente Barack Obama dos Estados Unidos não havia chegado a tempo.
Dois anos depois, em 2018, durante a 73ª sessão, o Equador ocupou a segunda posição pelo mesmo motivo, com o atraso do presidente norte-americano Donald Trump.
Portanto, embora o Brasil seja tradicionalmente o primeiro país a discursar, a ordem pode sofrer alterações por circunstâncias específicas.
O evento principal da Assembleia Geral é conhecido como Debate Geral. Apesar do nome, não se trata de um debate no qual os líderes respondem diretamente uns aos outros.
Cada país tem a oportunidade de apresentar seu posicionamento sobre os principais temas internacionais e fazer uma avaliação da situação global.
Depois da abertura da sessão, a sequência tradicional começa com autoridades da própria ONU. Em seguida, vem o Brasil e, logo depois, os Estados Unidos.




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