Foram contabilizados 4.549 registros de bullying e 677 de cyberbullying em todo o país no ano ...

Os registros de bullying e cyberbullying contra crianças e adolescentes cresceram de forma expressiva no Brasil. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública divulgado em julho, foram registrados 5.226 casos em 2025, um aumento de mais de 65% nas ocorrências desses crimes na comparação com o ano anterior.

Foram contabilizados 4.549 registros de bullying e 677 de cyberbullying em todo o país no ano passado, contra 2.736 e 452, respectivamente, em 2024. Os dois crimes passaram a existir formalmente no Código Penal em 2024, com Lei 14.811/2024, que tipificou a "intimidação sistemática" (bullying) e a "intimidação sistemática virtual" (cyberbullying).

À primeira vista, os dados sugerem uma explosão da violência entre estudantes. Mas especialistas alertam que a realidade é mais complexa. O crescimento resulta da combinação de diferentes fatores como a entrada em vigor da lei que tipificou os dois crimes; uma maior disposição de famílias e escolas para denunciar; e transformações nas relações entre crianças e adolescentes, cada vez mais mediadas pelo ambiente digital.

Em outras palavras, parte do aumento pode ser explicada pela melhoria dos registros oficiais. Outra parte, porém, revela que a violência entre crianças e adolescentes continua sendo um desafio para famílias, educadores e gestores públicos.

"É importante sermos cuidadosos na análise desses dados, para que não atribuirmos esse número somente ao aumento do comportamento do bullying em si, mas ao impacto que a aprovação da lei tem na nossa sociedade", diz Benjamim Horta, fundador do Programa Escola Sem Bullying. O programa existe desde 2012 e busca auxiliar escolas e redes de ensino de todo o Brasil no combate e prevenção ao bullying.

Apesar de ser mais comum no ambiente escolar, o bullying não ocorre apenas nesse ambiente. A própria definição legal estabelece que se trata de uma intimidação sistemática, caracterizada por agressões físicas, verbais, psicológicas ou sociais repetidas contra uma pessoa. O objetivo é constranger, humilhar ou excluir a vítima, criando uma relação de poder desigual independentemente de onde ele ocorra.

Já o cyberbullying leva essa dinâmica para o ambiente virtual. Ofensas, montagens, divulgação de fotos sem consentimento, criação de perfis falsos e campanhas de humilhação passam a acontecer por aplicativos de mensagens e redes sociais, onde o conteúdo pode atingir um número muito maior de pessoas.

Essa diferença faz com que especialistas considerem o cyberbullying ainda mais difícil de combater, já que a violência deixa de ter horário para começar ou terminar.

Embora o bullying possa ocorrer com pessoas em qualquer idade, ele se concentra principalmente entre crianças e adolescentes porque esse é o período em que a construção da identidade ganha maior importância, segundo os especialistas ouvidos pela DW.

A necessidade de pertencimento ao grupo, o medo da rejeição e a busca por aceitação tornam as diferenças físicas, sociais ou comportamentais potenciais motivos de exclusão.

O próprio Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostra essa concentração etária. Dos casos registrados em 2025, a maior parte deles (48%) a vítima tinha entre 10 e 13 anos, seguido de perto por adolescentes de 14 a 17 anos, com 45% das vítimas.

"Esses pré-adolescentes de 10 a 13 anos tendem a se expor mais, compartilhar mais conteúdo sem filtro e cair com mais facilidade em armadilhas e provocações tendo em vista o próprio grau de maturidade", explica Glicia Brazil, psicóloga e vice-presidente da Comissão da Infância e Juventude do Instituto Brasileiro de Direito das Famílias e Sucessões (Ibdfam).

"Já no caso dos adolescentes a puberdade traz transformações físicas muito aceleradas e muitos, por exemplo, não estão adequados aos padrões que as redes sociais impõem. Essas pessoas acabam ficando mais inseguras, com baixa autoestima e mais vulneráveis", acrescenta a psicóloga.

Outro motivo dessa concentração de casos entre crianças e adolescente é porque nessa fase da vida, ainda estão em formação habilidades como empatia, controle emocional e resolução de conflitos. Quando esses aspectos não são estimulados, comportamentos agressivos podem se consolidar como forma de conquistar status entre colegas ou exercer poder sobre quem é percebido como mais vulnerável.

O crescimento do cyberbullying acompanha uma mudança mais ampla na forma como esse público constrói suas relações sociais. Hoje, amizades, conflitos e disputas por reconhecimento acontecem simultaneamente no ambiente presencial e no digital.

As plataformas digitais potencializam esse processo por diferentes razões. A possibilidade de compartilhar conteúdos rapidamente amplia o alcance das humilhações. O aparente anonimato reduz a percepção de responsabilidade do agressor e os algoritmos das redes favorecem a circulação de conteúdos que despertam reações emocionais intensas, incluindo ofensas e exposições públicas.

O resultado é uma violência permanente. Comentários ofensivos, vídeos editados, boatos e imagens manipuladas podem continuar circulando mesmo depois de o conflito original ter terminado, prolongando o sofrimento da vítima e dificultando sua recuperação emocional.

É justamente por isso que especialistas defendem que o enfrentamento do bullying e cyberbullying não pode se limitar à punição dos responsáveis. O desafio passa pela construção de uma cultura de convivência baseada em respeito, educação digital e desenvolvimento de competências socioemocionais desde a infância.

"Um dos principais problemas relacionados à prevenção ao bullying e ao cyberbullying no Brasil é a falta de uma sistematização do trabalho preventivo. Isso quer dizer que escolas tentam sanar um problema complexo, muitas vezes de forma simplista, com uma ação isolada, como por exemplo, uma palestra ou uma roda de conversa, e isso acaba não surtindo o efeito desejado. E mais, isso frustra os estudantes e a comunidade de pais", explica Horta.

Antes de qualquer medida punitiva, especialistas defendem que o enfrentamento do bullying deve começar pela prevenção. Isso significa transformar a escola em um ambiente capaz de identificar conflitos ainda nos estágios iniciais, antes que se tornem episódios recorrentes de violência.